“O futuro está no passado”. Entrevista com Adriana González Burgos

IHU

“Você gostaria muito de conhecê-la, o nome dela é Adriana González Burgos”, me disseram. “Ler uma entrevista sua não é a mesma coisa que ouvi-la ao vivo”.

Nos encontramos em um lugar no centro da cidade. Algumas horas depois, de madrugada, partia seu voo de volta à Argentina. “Obrigado por reservar este tempo para se encontrar conosco. Se você quiser, podemos ir a um café”, sugiro. Ela sorri. “Sim, muito melhor, estou com vontade de tomar um café”.

A entrevista é de María González Reyes, publicada por Ctxt, 16-02-2024. A tradução é do Cepat.

Seus cabelos lisos e a franja escapam por baixo do chapéu que ela usa. Ninguém usa um chapéu assim aqui. Faz frio. Como se tivéssemos combinado, seguimos para o canto mais aconchegante do café. Somos quatro mulheres sentadas em volta de uma mesa.

Ela começa dizendo que sua voz é a de uma ativista kolla, feminista comunitária, camponesa e popular. Vem de uma família originária da comunidade indígena de Rodero-Humahuaca. Essa terra à qual está intimamente ligada fica no norte da Argentina, na província de Jujuy.

Quando entrei em contato com ela disse que não queria fazer exatamente uma entrevista, que a ideia era nos reunirmos para bater um papo. Pareceu-lhe bom. Mais tarde, escrevendo e revisando as anotações, percebi que havia algumas palavras que eram centrais no que Adriana estava nos contando. Que essas palavras davam sentido a todo o resto.

Oralidade
Ela nos conta coisas que já contou muitas vezes. Nota-se quando se fala sobre algo que já repetiu outras vezes. Mas as suas palavras estão cheias de convicção e desejo. Como se transmitir oralmente a mensagem que traz fosse essencial para que a nossa pele sentisse a agitação do que está acontecendo na sua terra, a milhares de quilômetros daqui.

“Defendo a tradição oral, que a palavra seja respeitada”, afirma. Adriana também é professora universitária em Jujuy. Diz que a academia não reflete a sua oralidade, que a universidade tem uma hegemonia ocidental, de episteme branca. Ela diz que quando nomeiam os Povos Indígenas é para se apropriar de suas palavras, que muitas vezes são outras pessoas que falam por eles. É por isso que ela leva a voz do seu povo onde quer que vá. A defesa dos seus territórios, da sua visão do mundo e do seu sentido do mundo. Para que sua voz seja respeitada. “Trabalhamos para defender o corpo e o território a partir de uma espiritualidade política. Esta forma de estar no mundo é abraçada por muitas mulheres e pessoas dissidentes. Um ativismo em defesa da vida e do território que tem a ver com a nossa forma de ser como filhas e mulheres”.

Ela diz que sua caminhada tem a ver com a denúncia do que está acontecendo. “Dali não te ouvem, ninguém te faz eco, é preciso vir porque quando você já está aqui fica mais difícil calar a nossa voz”. E acrescenta: “A conquista e a colonização de Abya Yala aconteceu sem o conhecimento do povo europeu, mas hoje a colonização é conhecida pela Europa. Se as pessoas permanecerem em silêncio, são cúmplices. A mineração sempre foi motivo de conquista e colonização de nossos territórios. Ouro, prata e agora, nos nossos povoados, também o lítio”.

Terras comunais
Ela conta que em junho de 2023 se mobilizaram para protestar contra a reforma da constituição provincial promovida por Gerardo Morales, então governador. O objetivo da reforma era a apropriação do lítio que ali existe. Eles não foram consultados. Pensaram que não precisavam fazer isso, muitas comunidades não têm títulos de propriedade. “São terras comunais, se a terra é sua não é preciso certificá-la, ela nos pertence por direito ancestral”.

Faz uma pausa. “O problema desta reforma é que é ilegítima e ilegal porque não fomos consultados conforme estabelece a Convenção 169 da OIT, Lei Federal 24071. Além disso, atenta contra a propriedade comunal e criminaliza o protesto social. Se tiram o nosso direito às nossas terras comunais, também tiram a nossa capacidade de cuidar da natureza. É uma reforma racista, colonialista e patriarcal”. E esclarece: “quando falo de comunidade refiro-me ao modo de vida que nos organiza”.

Comenta que as comunidades hoje optam por resistir à extração do lítio. Diz que um dos problemas do extrativismo é que envolve o uso de muita água. “Se não há água não há vida, por isso cuidamos dela. Nossa luta não é apenas contra a mineração do lítio, mas também pela defesa da água e dos nossos territórios. Somos criminalizados por cuidar da água, da vida”.

Espiritualidade
Perguntamos-lhe se pode falar sobre a espiritualidade. Ela olha para nós. “Somos pessoas integrais, não somos fragmentadas. Fomos perseguidos por causa das nossas crenças, mas nossos rituais são de tradição oral, por isso não conseguiram fazê-los desaparecer. A espiritualidade é constitutiva da nossa luta, uma luta que é herdada, ancestral”.

Ela toma outro gole de café e continua. “Quando nas lutas fazemos um bloqueio de estrada damos espaço ao avô fogo, também ritualizamos esse espaço. Há música, cantamos palavras de ordem, dançamos, há comida comunitária e panelas populares. Há alegria na luta. Tudo isso contém uma forma de ensinar a como resistir durante séculos. Existe um nós que faz parte do cosmos horizontalmente. Se existe verticalidade é a natureza que está sempre acima. Pachamama, a lua, o sol, os rios… são divindades. A extração do lítio atenta contra tudo isso”.

Diz que acreditam que é possível recuperar a relação com a terra a partir de uma espiritualidade política, dando importância à ética e à estética, cuidando do modo de fazer.

E aponta para o chapéu, que ainda está em sua cabeça neste canto do café. “Meu chapéu é ritualizado e é uma expressão de luta, uma forma de torná-la visível”. “Essa maneira de fazer as coisas faz parte de mim desde que tenho noção do mundo, por isso carrego cerimônias e o contato com a terra onde quer que eu esteja. Aqui na Europa vê-se que há uma ferida profunda devido à separação com a Mãe Terra, estão espiritualmente separados da natureza”.

Diz que tenta curar com sua mensagem o vínculo com a terra ali onde foi rompido.

Futuro
“O futuro está no passado; se estamos aqui é porque os nossos ancestrais cuidaram da terra para que pudéssemos estar aqui. O capitalismo não entende isso. Na nossa cosmovisão não há espaço para o aqui e agora, e o capitalismo é apenas isso, esse ‘presentismo’. Não pensamos em uma ‘transição’ com o lítio estamos pensando em esgotar tudo agora”.

Diz que os valores marcam a forma de estar no mundo. Valores como a complementaridade e a reciprocidade, entre outros. “Isso não acontece só entre as pessoas, acontece também com a Pachamama. Se agíssemos com base em uma ética da reciprocidade nos nossos termos, este mundo seria muito diferente. Os povos indígenas, as feministas comunitárias, camponesas e populares têm muito a contribuir sobre como trilhar esse caminho”.

Fala que pensar no futuro é tentar recuperar a cultura milenar, que todas as pessoas, em todos os lugares, tiveram uma relação com a natureza e que devemos recuperar esse conhecimento ancestral. “E depois de recuperá-lo, é preciso curá-lo. A terra se ressente, talvez por isso aqui na Europa haja tanta tristeza nos olhos. As pessoas estão sérias e aceleradas, algo se rompeu. Nosso modo de vida é uma alternativa política e espiritual para o mundo”.

Diz que é a hora das mulheres, dos povos indígenas, camponeses e populares. Que aí está o futuro.

Defensores da terra
Conversamos sobre o papel das mulheres como defensoras da terra. “Se há lutas e resistências é porque estamos aí. Somos nós que cozinhamos nos bloqueios de estradas, que colocamos o corpo quando a polícia quer levar um colega, que enfrentamos a polícia”. Continua: “As avós nos acompanham e nos abrem o caminho. Os mortos são os nossos ancestrais, estão no seu grupo e na sua comunidade, dão-nos força”.

Elas não se definem como ecofeministas; dizem que são defensoras da terra, porque é uma forma de “ser”. Algo que se é intrinsecamente, uma forma de estar no mundo.

“Muitas mulheres são assassinadas por defenderem o território em que vivem, por cuidarem da vida, por cuidarem da Pachamama. Fazemos isso de maneira diferente de outros feminismos de episteme branca, incluímos o cuidado de nós mesmas, dos outros, mas também da natureza”.

Reciprocidade
Continuaríamos perguntando-lhe, mas o café já acabou. Despedimo-nos em uma livraria próxima. Na parede têm um cartaz de um Encontro Internacional de Feminismos Comunitários, Camponeses e Populares que foi realizado na sua região. Ela está desenhada no cartaz. Percorre as imagens com os dedos. Toca a panela para a comida comunitária. Toca as colinas coloridas. Toca a estrada bloqueada. Toca as mulheres que morreram, mas estão aí. Toca a lua.

Fico pensando em tudo o que sua comunidade está fazendo para manter a vida. Penso no que podemos fazer aqui para aplicar esse princípio da reciprocidade.

Adriana González Burgos, en una visita reciente a Madrid. ELVIRA MEGÍAS

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