Se o país cumprir seus compromissos climáticos, reservas já provadas duram até pelo menos 2039, suprindo a demanda interna e ainda sobrando petróleo para exportação
Diversas narrativas foram criadas para pressionar o IBAMA a conceder uma licença para a Petrobras perfurar um poço de combustíveis fósseis na foz do Amazonas. Uma delas é bastante alarmista: o Brasil precisaria explorar petróleo na região amazônica porque suas reservas não são suficientes para garantir o abastecimento interno logo após 2030. O país voltaria, assim, a ser importador líquido de petróleo, quase três décadas depois de se tornar autossuficiente, em 2006.
O alarmismo foi propagado principalmente pela Petrobras, com uma “forcinha” da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Números recentes da petroleira, porém, já puseram a suposta ameaça em xeque. Afinal, a Petrobras chegou a 31 de dezembro de 2024 com uma relação entre reservas provadas e produção de 13,2 anos. O que significa que, com o que já tem descoberto hoje, e no atual ritmo de extração, a estatal tem petróleo para produzir até 2037.
No entanto, uma análise da InfoAmazonia vai além. O levantamento mostra que se o Brasil seguir o Acordo de Paris e cumprir as metas de transição energética para contribuir com a redução de 75% das emissões do planeta, de acordo com o compromisso Net Zero – do qual o país é signatário –, o petróleo brasileiro dura até pelo menos 2039. Se forem consideradas as reservas prováveis (com 50% de chance de extração comercial) e possíveis (10%), o volume é suficiente até 2042. Sem uma só gota de petróleo da Amazônia.
O levantamento também mostra que a longevidade das reservas brasileiras será ainda maior se o Brasil cessar as exportações – o país já é exportador líquido de petróleo, e no ano passado vendeu para o exterior mais da metade de sua produção. Se parar de exportar, as reservas provadas atuais duram até 2045, e as reservas totais (somando prováveis mais possíveis), até 2048.
Há duas questões em relação à suposta necessidade do (suposto) petróleo da foz do Amazonas. Uma delas é que, na melhor das hipóteses, se o poço no bloco 59 fosse perfurado pela Petrobras hoje e houvesse uma descoberta de óleo em quantidade viável para produção comercial, a extração somente ocorrerá em seis ou sete anos. Portanto, a partir de 2031/2032, quando a Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que a demanda por petróleo já estará em queda no mundo, e a Petrobras prevê que o consumo brasileiro estará estabilizado num volume pouco maior que a demanda atual no país.
Outro ponto, levantado pelo líder de transição energética do WWF-Brasil, Ricardo Fujii, é a grande possibilidade de novas descobertas onde já existe exploração de petróleo no Brasil, como no pré-sal das bacias de Santos e Campos. Sem falar no aumento da recuperação em reservatórios já produtores, ou seja, volumes que não eram extraíveis podem ser produzidos com novas tecnologias. Situação prevista pela Petrobras em seu Plano de Negócios 2025-2029 e que receberá investimentos da empresa.
Falando em descobertas e Petrobras, recentemente a petroleira anunciou que encontrou indícios de petróleo e gás fóssil em duas áreas do pré-sal. Uma delas se deu no bloco Norte de Brava, na Bacia de Campos, a 105 km da costa do estado do Rio de Janeiro e a 575 metros de profundidade, informam Estado de Minas, Agência Brasil e Petronotícias. Outra é Aram, bloco na Bacia de Santos, relata a Agência Petrobras de Notícias. Mais uma prova de que não é preciso explorar combustíveis fósseis numa região de sensibilidade ambiental tão elevada quanto a foz do Rio Amazonas.
- Em tempo: A Petrobras anunciou que bateu recorde na reinjeção de CO2 no pré-sal. A petroleira reinjetou 14,2 milhões de toneladas de CO2 nos reservatórios do pré-sal da Bacia de Santos no ano passado, superando os 13 milhões de tCO2 reinjetados em 2023, informa a Agência Petrobras de Notícias. A empresa relata que essa reinjeção é um projeto de CCUS – captura, uso e armazenamento de carbono. Mas esta é uma CCUS bem diferente daquela propagada pelas petroleiras (Petrobras incluída) como “a” solução para descarbonizar a atmosfera. Essa reinjeção de CO2 em reservatórios já é usada pela indústria do petróleo há tempos para aumentar o volume extraído. O mecanismo que as petroleiras defendem como solução para o clima não tem viabilidade técnica comprovada nos volumes necessários para estancar as mudanças climáticas, além de ser extremamente caro.
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Foto: Felipe Dana / Ag. Petrobras