Após contínuas denúncias, Prefeitura decreta estado de emergência do quilombo Arapemã (PA)

Erosão das margens do rio intensificada pelo porto coloca em grave risco as 100 famílias da comunidade. Decreto determina atuação conjunta de órgãos do município

Na Terra de Direitos

Após intensa reivindicação popular, a Prefeitura de Santarém (PA) declarou situação de emergência da Comunidade quilombola de Arapemã em razão do avanço da erosão da margem fluvial sob o território tradicional. Publicado no Diário Oficial do Pará na última segunda-feira (16) e com prazo de vigência de 180 dias, o decreto determina a mobilização dos órgãos do município localizado no Oeste do Pará para atuar nas ações de resposta ao desastre. O estado de gravidade foi atestado pelo Parecer Técnico emitido pela Coordenadoria Municipal de Defesa Civil.

Localizado em área de várzea, o quilombo de Arapemã convive há décadas com impactos ao território pela alteração do ciclo das águas. As cheias do Rio Amazonas, mais frequente no período de janeiro a abril, eram parte da dinâmica da comunidade composta por 100 famílias. O estado de emergência, no entanto, é fruto da ação humana mais recente. A exploração do rio nos últimos anos – em especial após a aprovação da Lei de Portos, em 2013 – possibilitou o aumento da circulação de grandes navios pela hidrovia, o que intensificou a erosão das margens e do leito do Amazonas. De acordo com especialistas, esse processo gera a instabilidade e desmoronamento do solo, fenômeno conhecido como “terras caídas”. A gravidade atual é tamanha que a comunidade reivindica o imediato reassentamento do conjunto das famílias para outra localidade.

“É urgente garantir a proteção às nossas famílias. Já foram feitos laudos comprobatórios que dizem que o território quilombola de Arapemã está em risco de desaparecer, devido que ao longo de mais de 60 anos atinge drasticamente o nosso quilombo, mas principalmente nos últimos anos. Bate um desespero, principalmente agora que a água está subindo”, declara a presidenta da associação da comunidade, Maria Alba Vasconcelos.

A comunidade já tinha manifestado no ano passado a preocupação com a cheia do Rio. Isso porque deslocamentos neste período implicam em maior risco às pessoas, já que o território fica submerso. Em razão disso que a comunidade vinha defendendo o deslocamento das famílias antes da cheia, ainda no final de 2025. A medida também foi recomendada pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos em outubro do ano passado. No documento o colegiado também recomendou que o município declarasse estado de calamidade.

Diferente da expectativa da comunidade e assessoria jurídica, o decreto não detalha passos para a realocação das famílias. O documento publicado na última semana apenas autoriza a mobilização de órgãos no desenvolvimento de ações, autoriza a convocação de voluntários para reforço e permite a realização de campanhas de arrecadação de recursos. Nas próximas semanas um grupo emergencial, composto por representantes da Prefeitura, Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, comunidade e organizações sociais devem se reunir para definir próximos passos.

“A grave situação do quilombo de Arapemã requer urgência de todos os órgãos, das esferas municipal, estadual e federal. A publicação do decreto de situação de emergência é um grande passo, mas não é suficiente para a contenção de uma tragédia já anunciada. É preciso que seja destinado orçamento para a realização de obras essenciais, como medida prioritária”, destaca a assessora jurídica da Terra de Direitos, Selma Corrêa. A organização assessora a comunidade no processo de titulação.

Realocação
Há cerca de cinco anos a comunidade de Arapemã reivindica a realocação das famílias para o Quilombo Bom Jardim, medida já autorizada em parecer do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Localizado na terra firma do Planalto Santareno, a comunidade de Bom Jardim não sofre com o período de cheia do Rio Amazonas. Assim como Arapemã, Bom Jardim ainda aguarda a titulação do território tradicional.

Arapemã teve concluído o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) pelo Incra há mais de quinze anos. O relatório é uma das etapas iniciais do processo de titulação. O avanço do processo esbarra, desde então, na não formalização da transferência do domínio da área pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU) para o Incra. As áreas de várzea são, inicialmente, de competência da SPU. Em abril o Ministério Público Federal recomendou que a União fizesse uma força-tarefa para acelerar a titulação dos territórios.

Um pouco mais à frente no complexo processo de titulação, Bom Jardim teve o decreto de desapropriação publicado em 2013. A fase atual é realização do levantamento de imóveis, plantações, cercas ou outros tipos de construções – chamadas benfeitorias – para fins de indenização de proprietários que detém o registro de partes do perímetro já reconhecido como de direito da comunidade quilombola.

Para a Federação das Organizações Quilombolas de Santarém (FOQS) o avanço da titulação dos territórios é medida necessária para assegurar os direitos das comunidades. No entanto, a Federação reivindica que, ainda que a titulação seja necessária, há medidas emergenciais que já devem acompanhar a publicação do Decreto de reconhecimento de calamidade de Arapemã, dada a situação de risco.

Como as famílias de Arapemã precisam ser realocadas, e com isso perdem tudo o que possuem como o plantio, é emergencial garantir alimentação às 100 famílias afetadas, apoio para mobilidade e acesso a políticas públicas, defende a FOQS.

“A morosidade de fazer transferência de um território que está em risco causa impactos na vida das pessoas. A gente sente estes impactos porque não vê avanço nas ações para que o território sobreviva e para que, pelo menos, resguarde as famílias que ali se encontram”, denuncia Mirianne Coelho, presidente da FOQS.

A assessora jurídica Selma complementa que o local onde as famílias serão reassentadas é local descoberto que precisa de toda infraestrutura, abertura de ramais, energia, água, moradia, escolas, área para plantio, entre outros. “Já estamos no mês das chuvas e não há ainda qualquer infraestrutura no local onde as famílias serão reassentadas. Não se pode aguardar apenas e tão somente recursos captados pelo decreto, os órgãos públicos podem e devem iniciar as obras para de fato, reassentar as famílias com dignidade”, enfatiza a assessora.

Privatização das águas
A apenas 4 quilômetros da comunidade de Arapemã está instalado o Atem’s Distribuidora de Petróleo S/A, empreendimento portuário construído em distância inferior aos 10 quilômetros estipulados pela Portaria Interministerial nº 60/2015 como parâmetro para evitar possíveis impactos socioambientais de portos sobre as comunidades tradicionais.

Desde o início de operação do porto da Atem’s há questionamentos judiciais por ter sido implantado com irregularidades, entre elas a ausência de consulta livre, prévia e informada às populações tradicionais potencialmente impactadas pelo porto e a omissão sobre o tipo real de carga a ser movimentada.

A partir das denúncias, o Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado do Pará ajuizaram duas ações pedindo a nulidade das licenças prévia e de instalação, além de uma ação civil pública que requer a anulação integral do processo de licenciamento ambiental. Os processos seguem em tramitação e, em setembro de 2023, o Governo do Pará manifestou que o porto seria de baixo impacto ambiental e, por isso, não estaria sujeito à elaboração de estudos de impacto ambienta, como determina a Política Nacional do Meio Ambiente. A instalação da Atem’s guarda semelhanças com as irregularidades e lacunas no licenciamento ambiental de demais portos analisados pelo estudo Portos, desenvolvido pela Terra de Direitos.

A comunidade que hoje já sente os efeitos do aumento do tráfego de embarcações no Amazonas, da pressão sobre o ambiente e da insegurança quanto ao futuro do território, pode enfrentar um novo ciclo de transformações com a tentativa de implementação de projetos de privatização e consolidação da hidrovia no Rio Tapajós. Em 2025 os rios Tapajós, Madeira e Tocantins foram incluídos no Plano Nacional de Desestatização, o que permite a exploração das águas pela iniciativa privada. Após 32 dias de mobilização dos povos indígenas o decreto foi revogado pela Presidência da República nesta segunda-feira (23).

“A nossa existência [das comunidades tradicionais] depende de um rio vivo. Precisamos de um rio vivo para que o território quilombola também se mantenha vivo”, declara Miriane.

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

cinco × dois =