Estudo aponta que crianças indígenas têm dificuldade de manter crescimento adequado

Victória Alvineiro, Cidacs/Fiocruz Bahia

As crianças brasileiras têm enfrentado cada vez mais cedo problemas de saúde crônicos, que podem ser estendidos para a vida inteira. Alguns deles, como a dificuldade de manter o crescimento linear adequado, atingem de forma intensa as crianças de famílias com baixa renda e grupos que estão em vulnerabilidade social, a exemplo dos indígenas. Ao analisar os dados de 6 milhões de crianças brasileiras que convivem com desigualdade, um estudo com participação da Fiocruz aponta que as crianças estão lidando mais cedo com crescimento e peso fora do padrão determinado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Publicado na revista JAMA Network, o estudo, que contou com pesquisadores do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), teve como objetivo acompanhar o histórico nutricional e a régua de crescimento das crianças de modo longitudinal. Com esses dados, os pesquisadores puderam analisar se os padrões de crescimento e o estado nutricional das crianças brasileiras estão de acordo com o modelo de referência internacional construído pela OMS, baseado em populações saudáveis.

Durante o período de análise, foi possível identificar que as crianças em vulnerabilidade social estão enfrentando um crescimento abaixo do esperado e, por consequência, podem ter um risco maior de sobrepeso e obesidade. “Essas crianças com altura fora do padrão ideal e estão suscetíveis a serem obesas. No caso de haver dois ou mais problemas de saúde, podemos chamar isso de dupla carga de malnutrição”, comenta o líder do estudo e pesquisador associado ao Cidacs/Fiocruz Bahia, Gustavo Velasquez.

A investigação partiu de dados de 6 milhões de crianças do Brasil contidas na Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, que integra registros do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) e do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc). Enquanto o crescimento foi monitorado a partir do índice de altura, o peso foi avaliado a partir do índice de massa corporal e enxergando a idade das crianças.

Crescer é desafio para crianças indígenas

O principal resultado do estudo é que, em algumas regiões, crianças brasileiras estão crescendo em um padrão abaixo do ideal considerado pela OMS. E crianças indígenas não chegaram à altura média adequada até os 9 anos de idade. “Este problema de crescimento começa ainda na infância e pode se tornar permanente, já que as crianças não conseguem uma recuperação. Nas crianças indígenas, este é um fator associado a privação crônica, desigualdade e desenvolvimento social, condições precárias de vida e saúde, determinantes sociais históricos e insegurança alimentar”, comenta Velasquez, citando o contexto estrutural por trás da evidência que as crianças estão com altura abaixo do esperado.

Outro achado importante é que, diante da dificuldade de crescer, cerca de 30% das crianças brasileiras estão ficando com sobrepeso. O dado é relativo a meninas e meninos com até 9 anos de idade. O estudo ainda demonstra que o estado nutricional varia de criança para criança, a depender de cada lugar e condições de vida. “Crianças que crescem em contextos de vulnerabilidade não estão protegidas do excesso de peso e, ao mesmo tempo, estão expostas a fatores que comprometem o crescimento saudável”, alerta a coautora do estudo e pesquisadora associada ao Cidacs/Fiocruz Bahia, Carolina Santiago.

Políticas voltadas à infância desigual

Nas recomendações, o estudo reconhece que as políticas de saúde devem priorizar intervenções integradas de cuidado à saúde da criança desde os primeiros anos de vida. O foco da articulação deve estar na promoção do crescimento saudável e na prevenção da obesidade no âmbito da Atenção Primária à Saúde.

Quanto às políticas voltadas à grupos em vulnerabilidade, há a recomendação de desenvolvimento de políticas específicas, intersetoriais e culturalmente sensíveis destinadas aos grupos e territórios prioritários, em especial, no que diz respeito ao fortalecimento do monitoramento do estado nutricional e indicadores de crescimento. Outros problemas, como insegurança alimentar, baixa qualidade da dieta, ambientes alimentares desfavoráveis e desigualdades sociais persistentes devem ser levados em consideração no momento da construção de políticas e tomada de decisão em políticas públicas.

Imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil

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