Das 911 barragens de mineração no Brasil, 319 estão em MG, aponta levantamento da UFMG

Relatório destaca Minas como epicentro do risco de barragens e alerta para ameaça ao abastecimento de água na Grande BH

Lucas Wilker, Brasil de Fato

Minas Gerais permanece, de forma isolada, como o principal território de risco associado às barragens de mineração no Brasil. É o que aponta o novo boletim divulgado dia 4 pelo Observatório de Barragens de Mineração (EduMiTe-UFMG). Segundo o documento, o estado concentra sozinho mais barragens do que a soma de outros 16 estados brasileiros, mantendo 319 das 911 estruturas existentes no país sob sua jurisdição.

Os dados, atualizados em janeiro de 2026 a partir do sistema da Agência Nacional de Mineração (ANM), mostram que o risco não é apenas numérico, mas estratégico. As barragens estão situadas sobre bacias hidrográficas que abastecem milhões de pessoas, com destaque crítico para o Quadrilátero Ferrífero-Aquífero (QFA), região central do estado.

Segurança hídrica em xeque

Um dos pontos mais alarmantes do relatório é a pressão sobre o abastecimento de água da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). O levantamento identificou que 99 barragens de mineração estão localizadas acima das captações dos sistemas de abastecimento, colocando em risco direto a segurança hídrica da capital e cidades vizinhas.

Destas estruturas a montante (acima) dos pontos de coleta de água, 55 estão na bacia do Rio das Velhas e 44 no Sistema Paraopeba. O relatório alerta para um “risco sistêmico”, com o lembrete de que a captação da Copasa no Rio Paraopeba permanece inoperante sete anos após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho.

A bacia do Rio Paraopeba, afluente do São Francisco, é citada como um cenário de “risco em cascata”. A região abriga cerca de 20 complexos de barragens caracterizados pela proximidade física, o que significa que o colapso de uma estrutura poderia desencadear falhas sucessivas em outras.

Menos barragens, mais rejeitos

O balanço de 2025 para 2026 trouxe um dado que, à primeira vista, pareceria positivo, mas esconde um aumento do perigo. No Quadrilátero Ferrífero, o número total de barragens caiu de 227 para 213. No entanto, o volume total de rejeitos armazenados aumentou, saltando de 1,033 bilhão para 1,042 bilhão de metros cúbicos.

Segundo os pesquisadores do EduMiTe, esse acréscimo de 9 milhões de m³ equivale a “quase uma barragem do porte da B1 da Vale”, rompida em 2019. Isso evidencia que a redução numérica de estruturas não significou redução do risco ambiental e social.

“Os dados deixam claro que o risco das barragens de mineração em Minas Gerais não é homogêneo. Ele se concentra em territórios específicos, combinando volume elevado, densidade de estruturas, métodos construtivos de maior risco e alta vulnerabilidade social. Outro fator que intensifica o risco é o fato dessas estruturas estarem localizadas, em sua maioria, em complexos, no alto das serras, ou seja, região de elevada declividade e naturalmente com grande pluviosidade especialmente na época do verão”, aponta o documento.

A ausência de alertas ou emergências acionadas não pode ser confundida com segurança, segundo os pesquisadores, sobretudo em bacias que concentram milhões de metros cúbicos de resíduos e abastecem milhões de pessoas.

“O cenário exige uma abordagem territorial, preventiva e transparente, ancorada no princípio da precaução antes que novos números se convertam, outra vez, em tragédia anunciada”, alerta o texto.

A expansão do risco

Embora Minas Gerais lidere as estatísticas, o relatório aponta um movimento de expansão e consolidação de riscos em outros estados, agravado pela falta de transparência. O Mato Grosso é o segundo estado com mais barragens (180). Em 2025, foi o líder em novos cadastros, mas chama a atenção que 36% dessas novas barragens possuem método construtivo classificado como “indefinido ou desconhecido”.

São Paulo, Pará e Amapá têm o que o relatório denuncia como “barragens fantasmas”, ou seja, estruturas que já existiam fisicamente, mas só passaram a constar nos registros oficiais recentemente, algumas já com Nível de Emergência acionado. Em São Paulo, 100% dos novos cadastros de 2025 não possuem informação sobre o método construtivo.

A falta de informação sobre o método construtivo é grave, pois pode mascarar a existência de barragens “a montante”, técnica proibida no Brasil desde 2019 por ser considerada a menos segura, como lembrado pelo boletim Edumite de 2025.

Recomendações urgentes

A pesquisa conclui que o Brasil vive um quadro de “risco estrutural e persistente” e não apenas eventos isolados.

O grupo propõe seis eixos de ação para mitigar o problema, incluindo: transparência total dos dados, com linguagem acessível às populações atingidas; fiscalização presencial independente, especialmente em períodos chuvosos; gestão das águas focada na segurança hídrica por bacia hidrográfica; justiça e responsabilização, para romper ciclos de impunidade.

O boletim completo está disponível para consulta pública através do site do grupo de pesquisa EduMiTe-UFMG.

Imagem: Reprodução do MAB.

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

11 + quinze =