Enfermagem em greve no coração do capitalismo

Como entender a mobilização de 15 mil profissionais durante um mês em Nova York, contra hospitais privados e o regime Trump? Quais as reivindicações? Como se deu a participação do prefeito Zohran Mamdani? Qual a situação atual? Leia entrevista exclusiva

Por Sophia Vieira, Outra Saúde

No dia 12 de janeiro, enfermeiros e enfermeiras das principais redes hospitalares de Nova York entraram em greve. Cerca de 15 mil profissionais aderiram à mobilização liderada pelo sindicato dos enfermeiros da cidade. Em um contexto de repressão a manifestações populares, principalmente pelo governo Trump, a ação se torna um exemplo para o movimento sindical e demonstra que 2026 pode ser um ano promissor de enfrentamento à política neoliberal de precarização da vida na cidade onde se encontra o coração do capitalismo estadunidense.

A greve pauta centralmente as condições precárias de trabalho e de atendimento nos hospitais Mount Sinai Hospital (no icônico bairro de Manhattan), Montefiore Medical Center (Bronx) e unidades do NewYork-Presbyterian. As principais demandas estão ligadas à pequena quantidade de enfermeiros contratados, o que causa uma sobrecarga aos profissionais, mau atendimento aos pacientes e superlotação dos hospitais. Por isso, mais contratação por um dimensionamento seguro de pessoal é uma das principais demandas da greve.

A centralidade de demandas – que dizem respeito principalmente aos pacientes e à segurança coletiva da categoria – parece ser, também, um fator decisivo para o sucesso das mobilizações entre enfermeiros. Demandas pautadas no cuidado à comunidade fortalecem a coletividade entre os grevistas, ganham mais facilmente o apoio popular e dificultam a criação de narrativas mal intencionadas contra o movimento dos trabalhadores, principalmente pela grande mídia.

Com crescentes piquetes ao longo das semanas, os enfermeiros enfrentaram condições climáticas desfavoráveis como nevascas e temperaturas de até 10 graus negativos. A categoria apontava, contudo, que as condições extremas que enfrentavam nos atos às portas de seus locais de trabalho não eram piores do que seus turnos de 12 horas sem equipes adequadas para o atendimento.

Como represália, durante a mobilização, alguns dos direitos dos grevistas foram congelados, como o próprio seguro saúde. Além disso, os hospitais fizeram grandes contratações temporárias de profissionais externos, o que gerou um tensionamento a respeito de uma possível demissão em massa. A ação em questão seria ilegal, mas a instabilidade de direitos trabalhistas em um regime de Trump – ingrediente no fundo essencial para iniciar a greve – tornou seu final quase imprevisível aos trabalhadores, que não sabiam se poderiam de fato contar com a legislação que os protegeria.

A paralisação contou e se fortaleceu, também, com a presença e apoio do prefeito de Nova York Zohan Mamdani e do senador Bernie Sanders, além da deputada federal Alexandria Ocasio-Cortez, conhecida como AOC, e da vereadora Alexa Avilés. Outros sindicatos e associações prestaram apoio, como as entidades representantes dos bombeiros e dos professores.

O prefeito, que demonstrou grande apoio nas primeiras semanas do movimento, declarou: “A greve não se tratava apenas de quanto ganham os enfermeiros ou de quais benefícios de saúde eles recebem – apesar de ambas serem questões profundamente importantes –, mas sim de quem deve se beneficiar do sistema que está posto. Não falta dinheiro na indústria de saúde, especialmente nos três ricos hospitais em que os enfermeiros estão se mobilizando”.

A greve, contudo, se encaminha para seu fim após um mês, se consolidando como uma das mais longas e fortes da cidade em décadas. Na última quarta-feira (11), funcionários dos hospitais Monte Sinai e Montefiore aceitaram os novos contratos propostos pelos hospitais, que contavam com o aumento de salários e uma modesta proposta de aumento nas contratações. Assim, cerca de 10 mil profissionais devem voltar aos seus pontos de trabalho a partir deste sábado (14).

Os enfermeiros do hospital New York-Presbyterian, contudo, decidiram se manter em mobilização, com o entendimento de que o acordo oferecido ainda está muito aquém das suas necessidades. Vale ressaltar que, das três redes hospitalares, a New York-Presbyterian foi a única cujos enfermeiros não participaram da greve ocorrida em 2023, com duração de apenas 3 dias e com resultados considerados vitoriosos para a categoria. Suas condições de trabalho, então, se mantêm piores que a de seus companheiros de greve e a movimentação parece buscar vitórias que possam fazer uma maior diferença na vida dos profissionais e pacientes.

Para entender mais detalhes dos ocorridos nesse mês de greve, que acaba agora para alguns, mas que segue para mais de quatro mil enfermeiros, o Outra Saúde obteve uma entrevista exclusiva com a ativista Orsa Pereira, diretamente de Nova York. As condições de repressão e perseguição a imigrantes no país, contudo, impedem a entrevistada de publicar uma biografia mais detalhada.

Em um momento de dificuldade do movimento sindical, como se iniciou uma mobilização tão grande entre os enfermeiros? O que fez com que esse grupo tivesse a disposição e coragem de começar e manter uma greve tão grande?

Esta greve é resultado tanto da militância da base quanto da agressividade dos patrões. Há vários anos, vem crescendo um setor de enfermeiras e enfermeiros que busca transformar a Associação de Enfermeiros de Nova York em uma força política democrática, combativa e progressista pela justiça social e econômica.

Em 2013, a categoria elegeu a reformista de esquerda Judy Gonzalez para a presidência do sindicato. Ela foi formada pela rede sindical combativa chamada Labor Notes e ajudou a construir uma base sólida de profissionais militantes no hospital Montefiore, no Bronx. As enfermeiras de lá entraram em greve em 2023 e conquistaram um contrato histórico com proporções seguras de profissionais por paciente para a comunidade pobre e não-branca do Bronx.

Ao mesmo tempo, essa greve também foi provocada pelos hospitais, que se recusaram a negociar com as enfermeiras desde setembro, forçando-as a entrar em greve apenas para manter o que já estava garantido em seus contratos. Está claro que os três hospitais se prepararam para e estimularam uma greve com o objetivo de tentar enfraquecer o sindicato.

Quais são hoje os resultados da greve? Houve conquistas aos trabalhadores?

As enfermeiras enfrentam desafios imensos. A governadora Kathy Hochul continua renovando suas ordens executivas que permitem que enfermeiras e enfermeiros de outros estados, sem licença de Nova York, atuem como fura-greves. Trata-se de um uso sem precedentes desse instrumento, normalmente aplicado em situações de desastre, e não para enfraquecer mobilizações. Elas também enfrentam uma direção sindical que estava lamentavelmente despreparada para este momento.

Ainda assim, apesar desses obstáculos, os enfermeiros permaneceram em piquetes sob o frio por mais de um mês. Enfermeiros da base se auto-organizaram e realizaram uma marcha massiva pela Ponte do Brooklyn até a prefeitura, um ato de desobediência civil em frente ao prédio da Greater New York Hospital Association, entre outras ações.

Graças a esses esforços, na segunda-feira, 9 de fevereiro, as enfermeiras do Montefiore e do Mount Sinai chegaram a um acordo provisório e votaram por sua aprovação. Ninguém perdeu direitos; conseguiram manter a aplicação das regras de dimensionamento de pessoal. No Mount Sinai, preservaram seus benefícios de saúde, que estavam ameaçados. Em ambos os hospitais, obtiveram melhorias no quadro de funcionários e avanços no combate à violência no local de trabalho.

No Presbyterian, porém, a alta direção e a liderança sindical impuseram a votação de um acordo provisório aos membros depois que o comitê executivo eleito pelos próprios trabalhadores o havia rejeitado, em uma flagrante violação da democracia sindical. Um dos principais impasses é que o acordo não garantia cláusulas que assegurassem a aplicação das proporções enfermeira-paciente.

Como se deu o apoio da prefeitura de Zohran Mamdani?

O apoio de Zohran Mamdani a essa greve foi ambíguo. Ele participou do piquete e manifestou solidariedade às enfermeiras no início da paralisação — um gesto sem precedentes para um prefeito. Ainda assim, à medida que a greve avançava, ele não foi tão vocal em seu apoio e frequentemente recorria a uma linguagem de que “ambos os lados” precisariam sentar à mesa de negociação, quando era a gestão hospitalar que se recusava a negociar.

Infelizmente, ele declarou apoio à governadora Kathy Hochul em sua campanha à reeleição justamente no momento em que as enfermeiras tentavam pressioná-la para que deixasse de renovar sua ordem executiva — medida que vinha sendo extremamente prejudicial à greve. É compreensível que ele desejasse o apoio dela para governar a cidade, mas não faz sentido que não pudesse esperar um pouco mais.

Isso é preocupante e sugere uma inclinação a buscar mudanças por meio de negociações próprias, em vez de apostar na construção da militância e da organização da classe trabalhadora. A esquerda e o movimento sindical não deveriam romper pontes com ele, mas é fundamental que critiquem essa posição.

Quais os próximos passos após essa mobilização na batalha pela saúde na cidade de NY.

Agora, a esquerda precisa apoiar as enfermeiras que seguem em greve. Embora a militância da base nos locais de trabalho seja crucial, ela não é suficiente: os trabalhadores precisam do apoio da comunidade ao seu redor para prevalecer diante das forças do capital.

Esta é a maior greve de enfermeiras em toda a história da cidade. Seus desdobramentos são enormes para o futuro da saúde, enquanto enfermeiras entram em greve por pautas semelhantes no Havaí e na Califórnia e observam atentamente o que acontece com suas colegas em Nova York. Trata-se também da maior greve — em número de trabalhadores paralisados — na cidade em mais de duas décadas.

Ela ocorre em meio a um governo Donald Trump profundamente anti-trabalhador, determinado a desmontar a liberdade de expressão dos trabalhadores, enfraquecer os sindicatos do funcionalismo federal e implementar deportações em massa de trabalhadores não documentados. Essas enfermeiras representam a linha que separa um cenário em que trabalhadores nos Estados Unidos se sintam inspirados a lutar de outro em que tenham medo de reagir.

Créditos: James Estrin/The New York Times

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