ES: Indígenas Tupinikim de Aracruz rejeitam Novo Acordo do Rio Doce

Decisão oficializada em assembleias pressiona por abertura de mesa de negociação

Por Mariah Friedrich, Século Diário

Mais de dez anos após o crime da Samarco/Vale-BHP, as comunidades Tupinikim de Aracruz, no norte do Estado, decidiram formalizar a recusa aos termos do Anexo 3 do Novo Acordo do Rio Doce (Nard), que estabelece a repactuação do Termo de Transação e Ajustamento de Conduta (TTAC) firmado entre o poder público e as mineradoras para organizar a reparação dos danos ambientais, sociais e econômicos causados pelo rompimento da barragem em Mariana (MG).

Após as rodadas de assembleias nas aldeias de Irajá, Pau Brasil e Caieiras Velha, as comunidades decidiram não aceitar os termos do documento e preparam um ofício para formalizar essa posição com as instituições de Justiça. A recusa pressiona as empresas a retomarem negociações diretas com as comunidades, mantendo sob debate a responsabilidade integral pelo crime.

O Termo de Transação original reconhecia oficialmente os povos indígenas Tupinikim e Guarani como comunidades atingidas e definia como seria feita a reparação, com programas de compensação e recuperação e regras de governança. Além disso, fundamentou a criação da Fundação Renova, responsável por executar diversas ações previstas. No entanto, os indígenas denunciam, reiteradamente, a falta de consulta adequada, como determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), e a construção do TTAC, entre governos e empresas, sem participação efetiva dos atingidos.

Outras violações de direito apontadas são o não reconhecimento de todos os atingidos, a centralização das decisões na Fundação controlada pelas empresas responsáveis pelo crime, além da morosidade na execução das medidas e da insuficiência das ações de reparação, que, segundo as lideranças, não contemplaram de forma adequada os impactos culturais, territoriais e espirituais sofridos pelas comunidades.

O documento da repactuação que culminou no Novo Acordo do Rio Doce, homologado em 2024 e também firmado pelas mineradoras, instituições de justiça, União e governos do Espírito Santo e Minas Gerais, sem inclusão das comunidades atingidas, tentou reorganizar e substituir o TTAC. O novo acordo concentra as obrigações das empresas e redefine programas, valores globais e formas de pagamento, além de buscar encerrar disputas judiciais relacionadas ao crime. A proposta também procurou dar uma solução definitiva às indenizações coletivas e individuais, estabelecendo regras para quitação e novos modelos de governança.

No entanto, para os indígenas, o texto mantém a lógica de negociação entre Estado e mineradoras e reproduz problemas apontados desde o início do TTAC. Entre eles, a condução do processo sem consulta prévia adequada às aldeias, a definição de termos amplos de quitação que podem limitar reivindicações futuras, a centralização das decisões em estruturas institucionais pouco participativas, e a manutenção de um modelo em que as empresas seguem influenciando o desenho da reparação.

No Anexo 3 da repactuação, intitulado “Povos Indígenas, Comunidades Quilombolas, Povos e Comunidades Tradicionais”, estão indicadas as medidas de reparação relacionadas aos eventuais danos coletivos causados pelo rompimento da barragem e dos auxílios de subsistência e financeiro devidos exclusivamente às famílias pertencentes aos povos indígenas, às comunidades quilombolas e às comunidades e povos tradicionais”. Na Cláusula 4, o texto reforça que a execução das medidas e dos pagamentos previstos “levará em consideração as especificidades e singularidades dos povos indígenas, comunidades quilombolas e comunidades e povos tradicionais, privilegiando instrumentos de diálogo inter étnico e intercultural”.

O documento estabelece que, nestes casos, fica garantido o direito à consulta, sob responsabilidade do poder público. Apesar disso, lideranças Tupinikim afirmam que a consulta não tem sido plenamente garantida durante o processo de repactuação. Antes mesmo das assembleias, o presidente da Associação Indígena Tupinikim de Caieiras Velha (AITCV), Joel Monteiro, já alertava que “não dá para falar em consulta enquanto existe exclusão e discriminação”, ao citar a situação de mais de 1,6 mil pessoas que, segundo ele, deveriam ser reconhecidas como titulares de direitos.

Em relação aos valores das indenizações, o Apêndice 3.1 registra que a divisão dos recursos financeiros destinados ao Anexo 3, no valor de R$ 7,8 bilhões, será feita da seguinte forma: para os povos Tupinikim e Guarani, está previsto o total de R$ 1,5 bilhões, mas apenas poderão acessar os valores “mediante a definição, após a realização da consulta, de que a execução das ações será realizada através de autogestão com governança colaborativa do poder publico”. O acordo também veda o aceite parcial dos valores previstos. Outro ponto considerado sensível é a quitação. O Anexo prevê que, ao aceitar os termos, a comunidade “outorga quitação integral, definitiva e irrevogável à compromissária, à Fundação Renova, acionistas e parte relacionadas quanto ao auxílio de subsistência ou financeiro (…) e eventuais danos coletivos”.

Ao exercerem o direito recusa, os indígenas tentam impedir que essa transferência de responsabilidade se torne definitiva, esperando que a rejeição aos termos force a retomada de uma mesa de negociação direta com as empresas para buscar uma reparação mais justa. Na prática, como a adesão ao acordo é o que “libera” as mineradoras da execução, os indígenas recusam justamente para tentar anular essa blindagem e exigir que a responsabilidade pela reparação volte a ser discutida diretamente com as empresas, utilizando a via judicial para reivindicar direitos que consideram ignorados pelo modelo de repactuação estatal.

O representante da associação indígena demonstra preocupação com a postura das mineradoras: “Temos desconfiança de que as empresas vão querer negar essa mesa. Conhecendo as mesmas, acredito que vão permanecer resistentes, sem assumirem com a responsabilidade que é delas”.

Mobilização

Enquanto o ofício é preparado para ser encaminhado às instituições competentes, o acampamento Tupinikim segue mobilizado há quase 120 dias, próximo aos os trilhos da Estrada de Ferro Vitória a Minas, operada pela Vale dentro do território indígena. A linha férrea passou cerca de noventa dias bloqueada pelas comunidades, em protesto às violações e prejuízos enfrentados mais de uma década após o crime socioambiental. Em meio ao protesto, foram realizadas duas reintegrações de posse nos trilhos, e a Justiça Federal autorizou a Vale a fazer vigilância constante de indígenas dentro do território tradicional, por onde passa a ferrovia.

O último desbloqueio operado pela Vale deixou um rastro de indignação e críticas à ação policial, como apontam representantes da Juventude Tupinikim. Para eles, aoperação extrapolou os limites estabelecidos pela Justiça e violou o território indígena, ao adentrar o acampamento montado pelas comunidades.

Rio Comboios

O crime da Samarco/Vale-BHP também contaminou o rio Comboios, que desagua no litoral do município, por rejeitos de mineração decorrentes do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. O nível dessa contaminação será analisado por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a pedido de lideranças indígenas das aldeias Tupinikim Comboios e Córrego do Ouro, localizadas em Aracruz, no norte do Estado.

Os estudos serão multidisciplinares, e além de investigar a contaminação do rio, assumem a tarefa de determinar os impactos do contato da água com o corpo humano. Aldeias como Comboios e Córrego do Ouro, situadas às margens do rio que atravessa o território, foram afetadas pela perda de práticas tradicionais como pesca, banho, agricultura familiar e atividades culturais, relata o cacique da Aldeia Comboios, Alair Severo Elisiário, conhecido por Brás. Após o crime, ele relata que o rio deixou de ser utilizado pelas comunidades, que até hoje não receberam compensações pelos danos causados.

Imagem: Juventude Tupinikim

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