Sob aplauso das elites europeias, o secretário de Estado dos EUA abre o jogo em Munique. A descolonização foi perversa; para livrar-se da decadência, o Ocidente deve impor sua ordem à China e Sul Global; Gaza e Venezuela são caminho a seguir
Por Crismar Lujano, no Diario Red | Tradução: Antonio Martins, em Outras Palavras
Ao falar, em 13/2, à Conferência de Segurança de Munique, um dos principais fóruns geopolíticos mundiais, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, tirou o último véu da já pouco disfarçada política externa MAGA para os próximos anos. Seu discurso foi recebido com uma ovação em pé por grande parte da elite europeia, aliviada por ouvir o chefe da diplomacia norte-americana reivindicar a aliança imperialista oldfashioned do colonialismo sem complexos e do poderio militar sem limites. Ela seria a base finalmente da tão esperada restauração geopolítica da hegemonia ocidental.
Rubio estruturou seu discurso, desde o início, no contexto dessa identidade compartilhada: “Fazemos parte de uma única civilização: a civilização ocidental”. Acrescentou que essa unidade se fundamenta em “séculos de história compartilhada, fé cristã, cultura, patrimônio, idioma, ancestralidade e nos sacrifícios que nossos antepassados fizeram juntos pela civilização comum que herdamos”. O mais espantoso não é evocar essa história compartilhada, mas perceber que ela foi apresentada como superior, homogênea e destinada a liderar. Trata-se de um apelo à “civilização ocidental” como fundamento político de uma hierarquia global.
Nostalgia pelo Império
Talvez o momento mais revelador do discurso tenha sido a defesa explícita do passado imperial e genocida. Rubio afirmou: “Durante cinco séculos, antes do fim da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente nunca parou de se expandir. Seus missionários, peregrinos, soldados e exploradores deixaram suas terras para cruzar os oceanos, colonizar novos continentes e construir vastos impérios ao redor do mundo.” Todos esses termos são, é claro, eufemismos para escravidão, extermínio de povos indígenas, pilhagem de recursos e violência.
A colonização foi apresentada descaradamente como uma aventura épica. E quando se abordou seu declínio, o diagnóstico foi claro: “Os grandes impérios ocidentais entraram em uma fase de declínio irreversível. Esse declínio foi acelerado por revoluções comunistas ateístas e levantes anticoloniais”. Nessa narrativa, a descolonização não é justiça histórica, mas decadência. Os povos que lutaram por sua independência aparecem como catalisadores do “declínio” ocidental. Essa ginástica conceitual não é anedótica: ela reposiciona o eixo moral do século XX e sugere que o problema não era a dominação colonial, mas sim sua perda.
Quando Rubio afirma que os Estados Unidos não querem ser “os guardiões educados e ordeiros do declínio controlado do Ocidente” e que buscam “revitalizar a maior civilização da história da humanidade”, a mensagem é inequívoca: o recuo hegemônico deve ser revertido.
Migração e exclusão
Um dos pontos mais enfáticos foi a oposição à imigração. Rubio argumentou: “Controlar quem e quantas pessoas entram em nossos países não é uma expressão de xenofobia. Não é ódio. É um ato fundamental de soberania nacional. E deixar de fazê-lo não é apenas uma abdicação de um dos nossos deveres mais básicos para com o nosso povo. É uma ameaça urgente à estrutura das nossas sociedades e à própria sobrevivência da nossa civilização.”
A migração não é abordada como um fenômeno ligado às desigualdades globais, muitas das quais têm origem na história colonial e nas intervenções ocidentais, mas sim como uma ameaça existencial a uma civilização que deve ser preservada. Nesse contexto, a soberania deixa de ser um princípio universal aplicável a todas as nações e torna-se um atributo primordial do Ocidente.
Livre comércio, clima e concorrência estratégica
Rubio criticou a “visão dogmática do livre comércio irrestrito” e denunciou que “algumas nações protegeram suas economias e subsidiaram suas empresas para minar sistematicamente as nossas”, causando desindustrialização e perda de controle sobre as cadeias de suprimentos.
Ele não chegou a mencionar a China nominalmente, mas deixou claro que o objetivo é competir e reindustrializar. Também criticou as políticas climáticas, alegando que o Ocidente, “para apaziguar um culto climático”, impôs restrições a si mesmo, enquanto seus concorrentes exploram recursos energéticos “não apenas para impulsionar suas economias, mas para usá-los como alavanca contra as nossas”. A questão subjacente é uma reconfiguração da ordem econômica internacional, na qual o Sul Global aparece como uma arena de disputa estratégica, em vez de um ator autônomo.
A ordem internacional subordinada
O desafio ao multilateralismo foi direto: “Não podemos continuar a priorizar a suposta ordem mundial em detrimento dos interesses vitais de nossos povos e nações”. Rubio defendeu as ações unilaterais em Gaza, Ucrânia, Irã e Venezuela como exemplos de liderança necessária quando as instituições internacionais falham. Em relação à Venezuela, ele afirmou que “foram as forças especiais dos EUA que tiveram que intervir”.
A lógica é coerente com a tradição imperial: o direito internacional é válido desde que não limite a capacidade de ação da potência hegemônica. E ele deixou isso claro: “Embora estejamos preparados para fazer isso sozinhos, se necessário, é nossa preferência e nossa esperança fazê-lo em conjunto com vocês, nossos amigos aqui na Europa”. O convite é para uma aliança de potências que atuem de forma coordenada, mas sem abrir mão da primazia.
Da América Latina: memória histórica
Para a América Latina e o Caribe, esse discurso não é mera retórica. A região tem sido um laboratório histórico para a política externa dos EUA: intervenções militares, golpes de Estado apoiados por Washington, sanções, bloqueios e restrições financeiras. Quando a colonização é evocada como um capítulo glorioso e a descolonização como um erro histórico, o que se normaliza é uma hierarquia global na qual o Ocidente, e particularmente os Estados Unidos, arroga para si o direito de decidir o destino dos outros.
O império anglo-americano não abandonou o colonialismo; transformou-o. Passou da ocupação direta à hegemonia financeira, tecnológica e militar. O que distingue este momento é a franqueza com que a primazia é afirmada. A ovação em Munique refletiu o alívio europeu num tom mais elegante do que o de Trump ou J.D. Vance. Mas o conteúdo permanece o mesmo: a formulação contemporânea de uma ambição colonizadora que já não é apresentada como um fardo histórico, mas como uma missão renovada.
E também não se trata de um gesto isolado. Além da política externa imediata, o discurso em Munique teve o caráter de uma plataforma política. Em seu tom e em sua síntese de trumpismo e reaganismo, percebeu-se algo mais do que diplomacia: o início de um projeto pessoal. Em Washington, muitos já o interpretam como o primeiro ato de uma corrida rumo a 2028. Rubio falou como secretário de Estado. Mas também falou como candidato. E se esse foi de fato o ponto de partida de sua campanha presidencial, ele deixou claro qual seria sua bandeira: não administrar o declínio, mas restaurar, por bem e por mal, a primazia ocidental.
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Marco Rubio discursa durante campanha eleitoral na Flórida, em 2016 | Foto: Paul Sancya-AP
