Depois de passar do sertão à fábrica e à luta por direitos, país mergulhou na era do trabalho fragmentado e dos conflitos sem projeto. Rendeu-se à agroexportação e ao algoritmo. Como encontrar, neste caos, um novo sujeito social das mudanças?
O Brasil atravessou, em pouco mais de um século, três formas históricas de conflito social. Cada uma delas correspondeu a uma etapa distinta do capitalismo brasileiro. No país agrário da República Velha, prevaleceram guerras camponesas, messianismos e rebeliões regionais. No Brasil urbano-industrial desenvolvimentista, ganharam força o sindicalismo, as greves gerais, os movimentos de massa e as guerrilhas ideológicas. Já na sociedade de serviços hiperconectada da Era Digital, o Brasil neoliberal produziu algo novo representado pelo conflito fragmentado, financeirizado e emocionalmente mobilizado por algoritmos e redes sociais.
Da mesma forma, a violência mudou de forma, acompanhando as alterações na trajetória do capitalismo. Na República Velha, o conflito vinha do abandono. O sertão rebelava-se contra um país que praticamente não existia fora das oligarquias exportadoras. A Guerra de Canudos não foi apenas uma rebelião religiosa, mas a explosão de um Brasil excluído da modernização oligárquica. O mesmo ocorreu na Guerra do Contestado, no cangaço e nas revoltas tenentistas. Aquele Brasil ainda era territorialmente fraturado. O Estado era pequeno, regionalizado e incapaz de integrar a maioria da população. O conflito tinha cheiro de terra, fome e abandono.
Depois de 1930, o país mudou de eixo histórico. A Revolução de 1930 inaugurou o ciclo do capitalismo industrial e do Estado nacional desenvolvimentista. O poder centralizou-se, a industrialização avançou e milhões de pessoas migraram para as cidades. O conflito deixou de ser apenas territorial e passou a ser social e ideológico. A fábrica substituiu parcialmente o sertão como centro da vida nacional. Surgiram sindicatos, movimentos operários, organizações estudantis, partidos de massa, movimentos camponeses modernos e guerrilhas revolucionárias. A rebeldia ganhou linguagem política moderna, permitindo que parte crescente dos conflitos sociais fosse parcialmente institucionalizada pela legislação trabalhista, previdência social e sindicatos reconhecidos pelo Estado.
O trabalhador urbano passou a existir politicamente como sujeito coletivo. Havia partidos, programas, lideranças, projetos nacionais e horizonte histórico. Mesmo a esquerda armada dos anos 1960 e 1970 acreditava disputar o futuro do país. A ditadura civil-militar reprimiu violentamente, mas, paradoxalmente, aprofundou a centralidade estatal. O Estado desenvolvimentista integrava e reprimia ao mesmo tempo. Planejava a economia, expandia a infraestrutura, criava empresas estatais e organizava o mercado de trabalho. O conflito ocorria dentro da lógica da construção nacional. Ao mesmo tempo, a Guerra Fria internacionalizou os conflitos internos. A Intentona Comunista, as guerrilhas urbanas e a Guerrilha do Araguaia já pertenciam ao universo das ideologias modernas: comunismo, nacionalismo, anticomunismo e revolução social.
Tudo isso começou a ruir a partir de 1990. O neoliberalismo não destruiu apenas políticas econômicas. Desorganizou a própria arquitetura social construída ao longo do século XX. A abertura comercial desindustrializou regiões inteiras. A financeirização deslocou o centro da economia da produção para a renda financeira. O mundo do trabalho tornou-se precário, terceirizado e intermitente. O antigo operário industrial foi sendo substituído pelo trabalhador fragmentado dos aplicativos, dos call centers e das plataformas digitais.
O Brasil deixou de sonhar em ser uma potência industrial para se tornar exportador de commodities, consumidor de plataformas estrangeiras e território subordinado às finanças globais. A consequência histórica foi brutal:, com o conflito perdendo o seu centro organizador. A antiga greve operária exigia concentração fabril, identidade coletiva e organização sindical. O neoliberalismo dissolveu precisamente essas bases.
A nova sociedade de serviços hiperconectada produziu outro tipo de rebeldia: instantânea, emocional, dispersa, algorítmica e fragmentada. As Jornadas de Junho de 2013 simbolizaram essa ruptura histórica. Milhões foram às ruas sem liderança central, sem programa unificado e sem horizonte comum. O que emergiu ali foi o resultado de uma nova sociedade saturada de frustração, hiperconectividade e descrença institucional.
A política deixou de ser organizada apenas por partidos, sindicatos ou movimentos clássicos. Passou a ser organizada por fluxos digitais. O algoritmo tornou-se ator político. As plataformas digitais não são meios neutros de comunicação. Empresas como Meta Platforms, Google e TikTok operam máquinas globais de captura de atenção baseadas em engajamento emocional. A raiva circula mais do que a reflexão. O ódio mobiliza mais do que a argumentação. O choque moral produz mais cliques do que a racionalidade. O capitalismo digital descobriu que a indignação permanente é economicamente lucrativa. A política, assim, foi subordinada aos interesses econômicos imediatos e transformada em guerra afetiva contínua.
O Brasil internalizou esse modelo proveniente principalmente dos Estados Unidos. Não importou apenas plataformas, mas também guerras culturais, teorias conspiratórias, ultraliberalismo, extremismo digital e polarização identitária. O resultado tem sido uma sociedade permanentemente excitada por conflitos simbólicos.
Enquanto a desigualdade estrutural permanece intacta, a esfera pública é incendiada diariamente por disputas morais, religiosas, identitárias, culturais e algorítmicas. A ascensão política de Jair Bolsonaro expressou precisamente essa mutação histórica. O bolsonarismo não nasceu do velho coronelismo nem do nacionalismo desenvolvimentista. Nasceu do colapso das mediações coletivas tradicionais, combinado à radicalização digital.
Trata-se de um fenômeno típico da era neoliberal: individualizado, emocional, antipolítico, hiperconectado e permanentemente mobilizado. A extrema direita compreendeu, antes de muitos setores progressistas, que o poder contemporâneo circula pelos algoritmos, pelas redes e pela captura emocional. Ao mesmo tempo, as periferias urbanas foram atravessadas por outra transformação histórica: o crescimento das economias ilegais organizadas. Facções como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho não são simples desvios criminais. São produtos estruturais da combinação entre neoliberalismo periférico, encarceramento em massa e fragmentação social.
A antiga guerrilha revolucionária queria tomar o Estado. As facções contemporâneas ocupam territórios abandonados pelo próprio Estado. O conflito brasileiro entrou em uma nova era, pois menos ideológica, mais fragmentada; menos organizada por classe, mais atravessada por ressentimento, medo e precariedade.
O país saiu do sertão rebelde, passou pela fábrica sindicalizada e desembocou no labirinto digital da financeirização global. Hoje, a rebeldia já não precisa de panfletos, sindicatos ou quartéis. Ela circula por vídeos curtos, grupos fechados, fake news, influenciadores e impulsos emocionais programados por inteligência algorítmica.
Canudos foi destruída por canhões. A sociedade contemporânea é corroída por fluxos invisíveis de desinformação, precarização e captura da subjetividade. Nesta nova fase do conflito no Brasil, ele deixou de ser apenas social ou político. Tornou-se também cognitivo, emocional e digital.




