A ideologia alemã: a Escola de Frankfurt e os “Gruppenexperiment”. Por Bruna Della Torre

“Que o passado, na Alemanha, de modo algum tenha sido elaborado apenas no círculo dos chamados ‘incorrigíveis’, se é que tal designação se sustenta, é incontestável. Remete-se reiteradamente ao chamado ‘complexo de culpa’, não raro com a insinuação de que este teria sido, na verdade, produzido pela própria construção de uma culpa coletiva alemã. Na relação com o passado, proliferam, inegavelmente, traços neuróticos: gestos defensivos ali onde não há ataque; afetos intensos em situações que mal os justificam na realidade; ausência de afeto diante do mais grave; e, não raro, a repressão do que é consciente ou semiconsciente. Assim, nos experimentos de grupo do Instituto de Pesquisa Social, deparamo-nos repetidamente com o fato de que, ao se evocar deportações e assassinatos em massa, são escolhidas expressões atenuantes, perífrases eufemísticas, ou então se instaura, em torno delas, um vazio discursivo.”
— Theodor W. Adorno, “O que significa elaborar o passado”

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Nos últimos anos, não é incomum escutar na Alemanha que grande parte da população não consegue criticar o genocídio que Israel continua a promover em Gaza devido à magnitude, nesse país, do trauma do Holocausto. Um trauma que, aparentemente, recai tão (ou talvez ainda mais) pesadamente sobre os ombros de seus perpetradores do que sobre suas vítimas. O argumento é mais ou menos o seguinte: o alemão médio de boa-fé não reconhece o genocídio em Gaza justamente devido à culpa que sente pelos crimes da Alemanha do passado (e mesmo esse pretenso reconhecimento é seletivo, deixando de fora a ampla demografia que foi vítima do fascismo, como comunistas, homossexuais, os chamados associais, Sinti e Roma, pessoas com deficiência). Portanto, a recusa em criticar o banho de sangue promovido pelo Estado de Israel é vista, na verdade, como um sinal de memória política, o que evidencia como a ideologia muitas vezes funciona por meio de uma série de inversões. A culpa, nesse caso, serve como uma espécie de entreposto ao debate e de justificativa para a não elaboração do presente. Como escreveu certa vez Theodor W. Adorno, “em casa de carrasco, não se menciona a corda”. 

Tão forte é essa ideologia que uma das promessas dos agitadores do partido neofascista Alternativa para a Alemanha (AfD) – que recentemente assumiu o primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto nas eleições de setembro – é dar um basta “no sentimento de culpa que paralisa o país”. De setores liberais, passando pela aberração que são os Antideutsche, até a extrema direita, o diagnóstico é: a culpa pelos crimes do nazismo é um fato disseminado na Alemanha e um fardo para sua população. 

O Instituto de Pesquisa Social (IfS) inicia agora um projeto de publicação da parte inédita de um estudo pouquíssimo comentado inclusive pela bibliografia especializada da chamada Escola de Frankfurt: os “Experimentos de Grupo”. A pesquisa foi realizada entre 1950 e 1951 na Alemanha Ocidental com quase duas mil pessoas e atesta como a Escola de Frankfurt foi a tradição do marxismo que mais pesquisou o fascismo também de uma perspectiva empírica, ao contrário do que dizem seus detratores. Os diferentes projetos datam de 1930 até 1960. Encomendados pelo U.S. High Commissioner for Occupied Germany, ou seja, pelo governo militar da zona de ocupação americana, os experimentos de grupo configuram mais um financiamento um tanto complicado de uma perspectiva política da história do instituto. Um fato a ser debatido, mas não utilizado para a desqualificação imediata de seus trabalhos. Friedrich Pollock foi seu coordenador, mas a pesquisa contou com a participação de inúmeros pesquisadores. Dentre eles, Gretel e Theodor W. Adorno, Habermas e o conservador Ralf Dahrendorf. A publicação do projeto foi prefaciada pelo ordoliberal Franz Böhm, político da CDU. 

Tratava-se de medir a desnazificação alemã por meio da investigação da opinião “não-pública” subjacente à opinião pública. Isto é, a ideia era investigar o que as pessoas realmente pensavam sobre a Alemanha do pós-guerra. O resultado foi tão catastrófico que Adorno e o instituto acharam por bem não publicar as transcrições das entrevistas, pois isso atrapalharia o processo de redemocratização, segundo a coordenação do projeto. Fica a dúvida de por que o reconhecimento da permanência do nazismo na Alemanha seria um entrave e, mais do que isso, por que o filósofo que mais criticamente discutiu a política da memória na Alemanha estaria de acordo com uma solução como essa. De qualquer maneira, o material da pesquisa parece (a julgar pelas partes já publicadas em alemão e em inglês) ser riquíssimo para uma teoria crítica do fascismo contemporâneo. A seguir, menciono algumas das características metodológicas do projeto, bem como algumas reflexões sobre o ensaio de Adorno “Culpa e Defesa” e sobre sua importância para a compreensão não só da situação da Alemanha hoje, mas para a construção de uma política da memória que não reifique, mas que de fato reelabora o passado. 

Questões de método: os experimentos de grupo e a disputa sobre o positivismo 

Como afirmei, apesar das contradições políticas que acompanharam a pesquisa – e não são questões menores –, sua metodologia é extremamente interessante para as ciências sociais hoje. Como pesquisar a opinião pública numa “sociedade totalmente socializada”, para usar a expressão de Adorno? Ou seja, como pesquisar a opinião pública quando a esfera pública é uma quimera e a própria ideia de “opinião” individual é solapada pela indústria cultural? Como garantir que, numa entrevista, por exemplo, as pessoas digam o que realmente pensam e não o que pensam que se espera que pensem? Como medir o quanto ainda é possível que qualquer tipo de pensamento independente exista no interior de uma sociedade cujos modos de subjetivação são autoritários? Como avaliar uma “mentalidade” ou uma “ideologia”, isto é, uma forma coletiva de refletir ou não refletir sobre um assunto de uma perspectiva sociológica? 

Partindo dessas indagações, os pesquisadores que acabavam de voltar dos Estados Unidos, onde haviam experimentado com os métodos de pesquisa nas ciências sociais (conforme se lê em A personalidade autoritária, da qual essa pesquisa pode ser compreendida como um desdobramento), optaram por uma abordagem que hoje se chamaria de focus groups. Grupos de 6 a 26 pessoas foram constituídos, totalizando cerca de 130 grupos. Uma informação importante, para a qual não se chama a atenção nos estudos: a maioria dos entrevistados era masculina – Adorno chega a dizer que as análises qualitativas não demonstram uma diferença de empatia de acordo com as classes sociais, como esperado (ou seja, que os indivíduos de classe mais baixa seriam mais empáticos), mas que as mulheres demonstram uma abertura muito maior para tratar do tema (apesar de algumas entrevistas horrorosas com mulheres citadas no estudo). 

Evitou-se a forma de survey porque esse método foi considerado incapaz de captar o que está subjacente à opinião pública, ou o que Adorno, em seu texto “Culpa e Defesa”, chama de “opinião transsubjetiva”. O survey seria inadequado por ser indistinguível da pesquisa de mercado e por interpelar as pessoas como consumidoras (um problema que Adorno já havia apontado no projeto sobre o rádio na década de 1940). Os pesquisadores também trabalharam com uma ideia que já estava presente nos estudos sobre a propaganda de extrema direita e a personalidade autoritária nas décadas de 1940 e 1950, a saber, que há pontos de pressão socialmente construídos e subjetivamente absorvidos, pontos sensíveis que suscitam respostas autoritárias nas pessoas, quando estimulados. Para medir, portanto, a percepção da culpa pelos crimes que a Alemanha havia cometido, com ênfase no Holocausto, os pesquisadores adotaram o seguinte método: criaram uma carta, a “Carta Colburn”, escrita por um militar – que era apresentado como inglês ou americano, a depender do grupo – na qual essa pessoa dizia ter trabalhado com alemães durante alguns anos. Colburn apresenta primeiro uma série de elogios ao caráter alemão, por assim dizer, para depois estimular os pontos de pressão como, por exemplo, a responsabilidade da Alemanha pelo início da guerra. A carta era lida por um mediador nos grupos e as conversas eram gravadas. A ideia era fazer as pessoas interagirem entre si e, mais do que isso, dar livre expressão a seus pensamentos, como se estivessem – essa era a ideia dos pesquisadores – num vagão de trem, onde se conversa sobre os mais variados assuntos com estranhos. Vale dizer que a carta é profundamente problemática de uma perspectiva marxista e apresenta diversos pontos de convergência com a ideologia dos aliados (equiparação entre Hitler e Stálin, diminuição do caráter criminoso do racismo nos EUA, entre outros – mas que também podem ser considerados como estimulantes desses pontos de pressão).  

Essa pesquisa teve um papel fundamental no restabelecimento das pesquisas em ciências sociais na Alemanha do pós-guerra. Segundo Jeffrey K. Olick e Andrew J. Perrin, que fizeram a tradução para o inglês de parte da publicação alemã, Max Horkheimer estava interessado em estabelecer alianças na ciência alemã do período para garantir a sobrevivência do IfS no pós-guerra, daí a participação de pesquisadores e políticos conservadores na pesquisa – a justificativa matiza, mas não elimina, obviamente, as contradições da pesquisa.  

Os experimentos de grupo foram fundamentais também para a chamada disputa sobre o positivismo que marca uma das principais intervenções da teoria crítica nas ciências sociais. A pesquisa retorna até o sociólogo Émile Durkheim para discutir a questão da “opinião” e propõe que o chamado “método” não pode ser separado da teoria crítica da sociedade, o que significa que ele deve reconhecer as suas próprias limitações e, mais que isso, deve pensar a própria constituição dos sujeitos com os quais interage e sua relação com a falsa objetividade produzida pelas formas sociais capitalistas (por isso, uma revisão da pesquisa à luz do presente também é necessária). O nome “experimento” não é acidental: ele aponta para a mesma incerteza no âmbito do método que a teoria crítica absorvera e assumira com a forma ensaio no âmbito da exposição. Uma “tentativa”, um “experimento” que visava menos fazer uma investigação psicológica a fundo sobre o caráter fascista dos indivíduos e mais uma pesquisa sobre as disposições fascistas latentes na sociedade alemã, que podem ser exploradas a partir da relação com o passado. Isso, aliás, é um traço profundamente interessante e original da pesquisa. Isto é, investigar como a relação com o passado é reveladora de aspectos do fascismo do presente – o que também aponta para o caráter processual do fascismo, e não para o entendimento institucional predominante nas ciências sociais. O modo como a pesquisa conecta o método, a teoria da sociedade e a política mostra igualmente que essa última ocupa lugar central nas Humanidades em geral. Uma pesquisa como essa no Brasil sobre sua história colonial e a relação disso com um fenômeno como o bolsonarismo, nesse sentido, seria muito mais valiosa do que as pesquisas predominantes hoje, que perguntam diretamente às pessoas se elas aprovam a democracia ou tomam a indústria cultural digital como terreno neutro de disputa e uma nova forma da esfera pública. Por fim, para encerrar estas duas palavrinhas sobre o método, vale ressaltar que esses estudos estão na base das reflexões de Adorno sobre a política da memória na Alemanha (são explicitamente mencionados no ensaio sobre a elaboração do passado), o que mostra que essas reflexões têm um solo empírico, social e fazem parte da atuação de Adorno não apenas como intelectual público, mas como o grande expoente da sociologia alemã no período (outro traço pouco conhecido de sua trajetória). 

Culpa e Defesa 

A participação de Adorno no projeto aparece no ensaio “Schuld und Abwehr”, incluído no estudo. Schuld em alemão pode referir-se tanto à culpa quanto à dívida, e carrega uma ambiguidade interessante que se refere, portanto, a essa intersecção entre o político/jurídico e o econômico. Abwehr traduz-se como culpa, mas é importante lembrar que se trata de um termo usado por Sigmund Freud para tratar dos mecanismos de defesa que se desdobram em operações específicas como recalque, projeção, negação etc. Adorno está interessado em observar como as pessoas reagem diante do sentimento de culpa (impulsionado pela carta que sugere que os alemães têm responsabilidade pelo que fez Hitler). Vale destacar aqui que não se trata de psicologizar o fascismo, mas de tentar acessar as disposições latentes que orientam essa opinião transubjetiva que subjaz à ficção da opinião pública. Adorno escreve em seu ensaio que mesmo a ideia de repressão da culpa não deve ser tomada em seu sentido psicológico pleno: só há repressão onde há preconsciência da injustiça enquanto tal. 

A pesquisa investiga como as pessoas se comportam em relação ao conhecimento dos crimes, em primeiro lugar. Adorno discute, por exemplo, como algumas pessoas afirmavam que a existência dos campos de concentração era apenas “um rumor” – ainda que alguns participantes da pesquisa atestem que moravam ou conheciam alguém que morava perto de um local como esse – e analisa como a resposta está dada já na estruturação da questão sob essa forma. Esse é um dos mecanismos de defesa estudados (a negação da realidade). Adorno analisa também como, no decorrer da discussão, se passa do não conhecimento para a confissão de que, na verdade, se sabia muito bem o que acontecia. Essa é uma parte especialmente interessante do estudo, que, aliás, é fundamental para uma reavaliação da obra de Adorno, já que ele se debruça sobre fragmentos de transcrições para comentá-los. Nesse âmbito, Adorno discute também o fenômeno da “falsa internalização da culpa”. Ainda que a necessidade de redimir a Alemanha (e a si mesmo) a qualquer custo seja mais forte entre os que se dizem nacionalistas, diz Adorno, isso estaria muito presente também entre os não nacionalistas (o que explica também, me parece, o típico comportamento dos alemães “progressistas” diante de Gaza hoje – aqueles que reconhecem o genocídio, mas aderem à ideia de que o apoio não é generalizado devido à política da memória alemã). Nesse âmbito, diversos tipos de “defesa” aparecem: o argumento de que um pequeno grupo de militares foi responsável por tudo, de que os americanos também massacraram a população negra em seu próprio país e não são acusados de nazismo, de que grupos específicos (como as donas de casa) seriam menos responsáveis porque não teriam tido participação etc. Adorno cita o depoimento extremamente interessante de uma mulher. Ela diz que a ansiedade que se tem contra os alemães é justificada, porque eles realmente fizeram coisas indizíveis, mas que isso, no final das contas, coloca os alemães numa posição de vulnerabilidadeOu seja, a culpa aqui transforma, em alguma medida, perpetradores em vítimas (um mecanismo de defesa muito presente hoje nos discursos da chamada “manosfera”).

Ao analisar algumas transcrições em que os mecanismos de defesa aparecem sob a forma de culpabilização da propaganda nazista pela adesão ao regime, Adorno faz uma reflexão especialmente atual. Em vez de negar esse tipo de justificativa, Adorno diz que, de fato, a indústria cultural (hoje mais do que nunca) produz uma indiferenciação entre ideologia e realidade que é difícil de penetrar. O que é interessante, entretanto, é que vários desses mecanismos de defesa (como o comentário sobre o racismo nos Estados Unidos) apoiam-se sobre uma verdade. Nesses casos, diz Adorno, é preciso atentar para a função da verdade nesse discurso. A propaganda de fato manipula as pessoas, mas quando ela aparece para desviar a atenção do crime cometido ou como justificativa para atenuar a culpa, o que ocorre é que a verdade, ela própria, torna-se ideologia. Torna-se um mecanismo de defesa.Essa é a maneira dialética pela qual Adorno aborda o chamado conteúdo de verdade do fascismo – noção necessária para pensarmos a relação entre racionalidade e irracionalidade presente na extrema direita atualmente. Essa proposta de que a verdade pode funcionar como ideologia resolve uma série de problemas relativos ao lugar da ação racional no fascismo. 

Mas Adorno menciona também outro caso. Um trabalhador manual desempregado reclama da transformação dos alemães nos únicos criminosos da história. Ele diz não aprovar Hitler, mas não aceita a culpabilização exclusiva da Alemanha pelo que ocorreu. Adorno, então, diz que é evidente que as causas do nacional-socialismo são muito mais profundas que a natureza criminosa de seus agentes e que o participante tem razão em dizer isso (como tem razão, aliás, em culpar os Estados Unidos), mas que o argumento geral (presente em alguns grupos) de que sempre houve a haverá guerras e que, portanto, é difícil culpabilizar alguém é uma forma de usar a verdade para eximir a Alemanha de sua responsabilidade nos crimes que cometeu. Dentre outras justificativas, cuja ideologia é tão forte porque verdadeira, estariam também os fatores econômicos que estiveram na base do apoio a Hitler. 

Esses são somente alguns exemplos das análises. O ensaio não apresenta as frases enfáticas de costume, tampouco conclusões mais extensas, mas ilumina bastante outras reflexões de Adorno nesse período a respeito da preocupante sobrevivência do fascismo sob a democracia. Ilumina também suas reflexões sobre como essa alienação da democracia (que passa a ser vista como um produto de consumo entre outros, como o fascismo e a monarquia, conforme continuamos a ver hoje) é resultado, ela própria, da autoalienação da sociedade, como defende no ensaio sobre a elaboração do passado. 

Após a publicação de parte do estudo, Peter Robert Hofstätter, um psicólogo austríaco ex-filiado ao partido nazista, publicou uma resenha na Kölner Zeitschrift für Soziologie und Sozialpsychologie criticando o estudo e argumentando, sob o mote in ira, veritas (uma variação do ditado in vino, veritas), que a pesquisa seria um despropósito metodológico, pois a raiva propositadamente provocada nas pessoas distorceria suas opiniões. O sujeito, que deu aula no MIT e depois tornou-se professor emérito da Universidade de Hamburgo, escreveu um texto em 1963, intitulado “Passado superado?”, defendendo uma anistia aos nazistas (uma anistia para uma punição que nunca foi de fato colocada em prática de maneira extensiva, já que a Alemanha não sofreu um processo de desnazificação nem no âmbito das instituições, nem no âmbito da sociedade civil, como confirma o estudo). Adorno escreveu uma resposta, em parte metodológica, afirmando que esses mecanismos de defesa estavam presentes na sociedade alemã (algo que qualquer estrangeiro poderia notar, diz Adorno) mesmo sem o estímulo, e que as pessoas devem, sim, ser responsabilizadas pelo que fazem com raiva. Outro debate relevante para a análise dos ataques muitas vezes letais às mulheres, à comunidade LGBTQIA+, aos imigrantes, às pessoas racializadas. 

Não há espaço aqui para retomar todo o debate, mas o que interessa destacar é a expressão adorniana “na casa do carrasco, não se menciona a corda” (uma inversão do ditado “em casa de enforcado, não se menciona a corda”, que por sua vez mimetiza a inversão alemã entre vítimas e perpetradores). O tema é justamente o ressentimento dos nazistas por acharem que as pessoas vão resposabilizá-los pelos crimes que cometeram. Esse tipo de ressentimento, presente nos discursos fascistas hoje a torto e à direita, como na afirmação de que haveria um racismo e um machismo reversos, pode ser compreendido a partir desse debate. Ele seria um sintoma da permanência da violência fascista após a derrocada de seu sistema e apelaria, diz Adorno, para um narcisismo coletivo que o estudo conduzido pelo IfS consideraria o mais poderoso de todos os mecanismos de desastre em jogo na Alemanha daquele período. Esse é o contexto de afirmações como: “o nacional-socialismo ainda vive, e até hoje não sabemos se apenas como o espectro daquilo que foi tão monstruoso que nem mesmo com a própria morte morreu, ou se, na verdade, jamais chegou a morrer; se a disposição para o indizível persiste nos homens, assim como nas condições que os aprisionam”. A frase de Adorno da década de 1960 nunca foi tão atual. Aqueles que se recusam a chamar de fascismo o que vivemos hoje são cúmplices do horror que querem negar. 

Escuta-se em muitos lugares hoje – dentro e fora da Alemanha – que sua política de memória é uma das mais avançadas do mundo. Mas a explosão dos protestos estudantis já na década de 1960 nesse país tiveram justamente a ver com isso. Aqueles que se levantaram contra a democracia neoliberal alemã do período eram, em parte, alunos e alunas de Adorno. Eles defendiam que a democracia alemã recém-fundada era uma continuidade do nazismo, já que políticos, juízes, empresários, professores universitários etc. que haviam sido filiados ao partido de Hitler ou tiveram participação ativa no regime permaneceram em seus cargos. O estudo de Frankfurt mostra a sobrevivência dessa ideologia também no corpo social. Nos dias que correm, o discurso que nega o genocídio em Gaza, bem como o ódio aos imigrantes que assola o país, mostra que 1933 foi um ano que ainda não terminou por aqui (salvo as exceções que sempre existem, mas que no momento são incapazes de conter essas tendências que se acentuam cada vez mais). Os alemães – inclusive vários que se dizem filiados à teoria crítica – precisam aprender com o que disse Nancy Fraser num artigo recente na revista New Left Review:“nunca mais significa ‘nunca mais, por ninguém, a ninguém’. Ponto final.”  

Por fim, vale mencionar como agora colhem-se os frutos – na Alemanha, no Brasil e em inúmeros outros lugares – de políticas de memória que falharam em estabelecer conexões entre as diversas formas e manifestações de fascismo, como o próprio colonialismo, e sua origem capitalista. Se os estudos da Escola de Frankfurt evidenciam um certo provincianismo eurocêntrico e, por vezes, traços conservadores do marxismo alemão, por outro lado, oferecem uma base teórica e metodológica extremamente rica para a pesquisa contemporânea do tema e uma base política para a práxis da memória. Qualquer política antifascista vai ter que, de alguma forma, dar conta de contornar, suprimir e/ou ressignificar esse comportamento de defesa. Se os alemães de fato deram a forma histórica mais disseminada do que se entende hoje por fascismo, é preciso, ao invés de restringi-lo a um período temporal e um lugar específico, investigá-lo a fundo também em suas variações geográficas. Como mostraram Karl Marx e Friedrich Engels, as ideias dominantes de uma época são inseparáveis das relações materiais que as engendram. O fascismo não é um desvio histórico, mas uma possibilidade imanente à própria sociabilidade capitalista. Embora se reconfigure historicamente e tenha ultrapassado as margens do Meno, a ideologia alemã continua forte como nunca e a teoria crítica, hoje, precisa revisar a sua política externa (se é que se pode falar nisso). A resistência ao fascismo será internacionalista ou não será. 

Referências  

Adorno, Theodor W. „Was bedeutet: Aufarbeitung der Vergangenheit?“ In: Eingriffe: Neun kritische Modelle. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1963. 

Perrin, Andrew J.; Jeffrey K. Olick (eds.). Adorno, Theodor W. & Friedrich Pollock. The Frankfurt School on Public Opinion in Postwar Germany: The “Group Experiment” and Other Writings. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2011. 

Pollock, Friedrich, hrsg. Gruppenexperiment: Ein Studienbericht. [Mit einem Geleitwort von Franz Böhm]. Frankfurt: Europäische Verlagsanstalt, 1955.  

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