Por Aldrin M. Perez-Marin, na CPT NEII
Duas palavras antes de começar
Comece por uma cena que talvez você conheça. Fim de tarde no Sertão, o açude baixo mostrando a marca de onde a água já esteve, um homem olhando o chão rachado e calculando quanto tempo ainda dá. Essa cena tem nome técnico — degradação da terra —, tem número, tem mapa, tem política pública. E tem, também, uma conferência internacional que se reúne a cada dois anos para decidir o que o mundo vai fazer a respeito.
Em agosto de 2026 essa conferência aconteceu em Ulaanbaatar, capital da Mongólia, a quinze mil quilômetros do Sertão. Durou doze dias e terminou às duas e trinta e seis da madrugada. Cento e noventa e sete países estavam lá. O Brasil também — e levou, escrita, uma frase que ninguém tinha escrito antes num texto da Convenção.
A pergunta que este texto tenta responder é simples e incômoda: o que uma reunião de duas semanas do outro lado do mundo tem a ver com o açude baixando? A resposta não está no dinheiro que foi anunciado. Está nas palavras — e no que acontece quando elas são propostas, disputadas e depois empurradas para daqui a dois anos.
Primeiro, entender a máquina
Vale gastar dois minutos explicando como funciona uma COP, porque quase tudo o que vem depois depende disso — e porque quem entende a máquina para de assistir e começa a cobrar.
COP quer dizer Conferência das Partes. As Partes são os países que assinaram um tratado. Existem várias: a do clima, que é a mais conhecida, a da biodiversidade, e esta, a da desertificação, criada em 1994 e que é o único acordo internacional juridicamente vinculante ligando meio ambiente, desenvolvimento e uso da terra.
E ela não acontece numa sala só. Acontece em três ao mesmo tempo, e saber qual é qual muda a leitura de tudo o que vem depois. A primeira é o Comitê Plenário, a sala da política: nela se negociam a seca, a migração, a posse da terra, as pastagens, o orçamento. A segunda é o Comitê de Revisão da Implementação, a sala da prestação de contas: nela se examina se o que foi decidido nas conferências anteriores está de fato acontecendo no chão, quanto custa e quem paga. A terceira é o Comitê de Ciência e Tecnologia, a menor, a menos noticiada e, no longo prazo, talvez a mais decisiva: nela se define o que conta como conhecimento válido dentro da Convenção — quais relatórios serão escritos, por quem, com que método, e quem aprova o resumo que os governos vão ler.
Para essa terceira sala, cada país indica um Correspondente de Ciência e Tecnologia. É um posto discreto, quase sempre sem orçamento próprio, ocupado por alguém vindo de uma instituição de pesquisa, e que existe para fazer a ciência do país chegar à Convenção e a ciência da Convenção chegar ao país. Em Ulaanbaatar, ao discutir o quadro estratégico que rege o tratado, a União Europeia chamou os correspondentes científicos e os pontos focais nacionais de espinha dorsal da implementação. É um elogio e é uma cobrança: se a implementação depende dessas duas figuras, a pergunta que cada país precisa responder é se as sustenta ou se as deixa funcionando na boa vontade. Um dos autores desta reportagem ocupa esse posto pelo Brasil.
Essa conferência não funciona por votação. Funciona por consenso — uma decisão só passa se ninguém se opuser. É uma regra pensada para proteger os países pequenos, para que os grandes não os atropelem. Mas tem um efeito colateral poderoso: qualquer país, sozinho, pode travar qualquer coisa. Inclusive impedir que um assunto seja colocado na lista dos temas a discutir.
Guarde essa informação. Ela explica quase tudo o que aconteceu em Ulaanbaatar.
O primeiro dia já foi o aviso
A conferência começou com música tradicional mongol e discursos de esperança. Cerca de setenta e sete por cento do território da Mongólia está degradado; o país tem meio milhão de pastores (trabalhadores que conduzem animais a pastar) e um vocabulário próprio para descrever a catástrofe — dzud é o inverno que mata o rebanho de fome sobre a terra sem pasto. Aconteceu em 2023 e 2024.
Do outro lado do mundo, o retrato é o mesmo com outro sotaque. Trinta e nove milhões de brasileiros vivem em áreas suscetíveis à desertificação, e o semiárido brasileiro cresceu mais de cento e sessenta mil quilômetros quadrados em três décadas — uma Grécia inteira de terra que ficou mais seca do que era. São dois idiomas, dois climas, duas histórias. É o mesmo fenômeno, e é por isso que ele tem tratado próprio.
Terminados os discursos, veio o momento burocrático de adotar a agenda. E foi ali que a conferência se decidiu.
Os Estados Unidos objetaram a três temas: sinergias entre as convenções ambientais, gênero e participação da sociedade civil. A Rússia bloqueou o tema do quadro estratégico que vai reger a Convenção depois de 2030. Quatro assuntos ficaram suspensos, e a agenda foi adotada só provisoriamente.
Pense no que isso significa na prática. Não é que os países discutiram gênero e não chegaram a acordo. É que gênero não foi discutido. Durante doze dias, num encontro de cento e noventa e sete países sobre a terra do mundo, o tema não entrou na sala. Dois dos quatro bloqueios só foram levantados no último dia — tarde demais.
E não parou nos três temas. No segundo dia, a Rússia estendeu o bloqueio ao item que trata do programa de trabalho da interface científica da Convenção — e, com ele, do Global Land Outlook, o principal relatório científico do tratado, aquele que deveria orientar as decisões de todos os demais assuntos. A objeção só foi retirada na manhã do último dia, dez dias depois, quando já não havia tempo para nada. O item entrou na agenda e foi direto para uma sala fechada. Na prática, o relatório que embasa a ciência da Convenção nunca teve discussão em sessão pública durante a conferência inteira.
Onde a decisão realmente acontece
Se você acompanhar uma COP pelo noticiário, verá plenárias, ministros discursando, fotos oficiais. É a parte visível, e é a menos importante.
A negociação de verdade acontece nos chamados grupos de contato: salas fechadas, sem imprensa, onde um facilitador lê parágrafos em voz alta e as delegações levantam plaquinhas para propor mudar uma palavra, retirar uma vírgula, acrescentar uma condição. É lento, é técnico, e é ali que se decide tudo.
O documento que circula nessas salas não se parece com um texto. Parece um campo de batalha. Cada trecho vem entre colchetes, com a sigla de quem propôs e a sigla de quem quer apagar. Uma linha típica é assim: colchete, o texto proposto, colchete, e ao lado — BR, ou seja, Brasil; e logo adiante, entre parênteses, RU delete, MX delete. Está tudo ali, quem escreveu e quem quer riscar.
Em Ulaanbaatar, esses grupos chegaram a se reunir das dez da manhã às oito da noite num sábado. Num dia da segunda semana, o cronograma previa sessão das três da tarde às três da madrugada. Na quinta-feira, o refeitório do centro de convenções passou a funcionar vinte e quatro horas.
E, na quarta-feira, aconteceu algo que ninguém tinha visto antes: um grupo de países pediu a suspensão de todas as negociações. Tudo parou por meia manhã. O boletim especializado que cobre essas conferências desde 1992 registrou o diálogo entre dois delegados no corredor. Este é um movimento sem precedentes, disse um. Ao que o outro respondeu: esta é uma COP sem precedentes.
O número que devia envergonhar o mundo
2026 foi declarado pela ONU o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores. Não é tema menor: as pastagens cobrem cinquenta e quatro por cento da superfície terrestre do planeta, sustentam cerca de dois bilhões de pessoas e abrigam um terço das áreas mais importantes para a biodiversidade do mundo. Metade delas está degradada.
No quarto dia da conferência, numa sessão de diálogo com a sociedade civil, veio o número que resume a distância entre o discurso e a prática.
Menos de um por cento do financiamento global de clima e restauração chega às comunidades pastoris.
Menos de um por cento. No ano dedicado a elas. Quem trouxe o dado foi um representante de uma fundação de pastores, pedindo três coisas concretas: acesso direto ao dinheiro, segurança sobre a terra e direito de se movimentar com os rebanhos.
Há uma frase, dita naquela sessão, que vale para o Sertão tanto quanto para a estepe. Uma palestrante disse que é preciso parar de tratar pastores como beneficiários vulneráveis e passar a tratá-los como parceiros da restauração.
Os fundos de pasto entram nessa conversa
Foi lançado em Ulaanbaatar um relatório que merece atenção de quem trabalha com terra seca no Brasil. Chama-se Rangelands Rising — em português, algo como Pastagens em Ascensão, ou As pastagens levantam-se. Ele desmonta uma premissa de um século: a de que o pastoreio móvel, o rebanho que anda atrás do pasto, causa degradação.
Os números dizem o contrário. As pastagens geram entre vinte e um e quarenta e sete trilhões de dólares por ano em serviços ambientais — até quase metade do PIB mundial. Restaurá-las devolve de quatro a seis dólares por dólar investido, chegando a trinta e seis quando se contabiliza o benefício público da água. E o pastoreio móvel, longe de degradar, é o que permite ao pasto descansar e voltar.
Agora traga isso para casa. No semiárido baiano existem, há gerações, as comunidades de fundo de pasto: famílias que mantêm a criação de caprinos e ovinos em áreas de uso comum, soltas na caatinga, com a terra do plantio dividida e a terra do pasto compartilhada. É pastoreio extensivo em regime coletivo — exatamente o modelo que o relatório da ONU acaba de defender com planilha e cifra.
A luta dessas comunidades pelo reconhecimento de suas terras coletivas atravessa décadas e ainda não terminou. O que Ulaanbaatar oferece a elas não é dinheiro imediato: é argumento. Quando a maior conferência do mundo sobre a terra afirma que o uso comum do pasto é técnica de conservação, e não atraso, muda-se o terreno da discussão fundiária no Brasil. É uma ponte que a ciência brasileira pode atravessar nos dois sentidos — levando o caso dos fundos de pasto para o debate global e trazendo o argumento global para o debate local.
A seca, de novo, ficou para depois
Havia uma dívida em Ulaanbaatar. Na conferência anterior, em Riade, na Arábia Saudita, os países não conseguiram acordar um instrumento global sobre a seca — algo que obrigasse, ou ao menos organizasse, a preparação dos Estados antes que a estiagem vire calamidade. A Mongólia recebeu a tarefa pendente.
A negociação atravessou as duas semanas. Chegou a ter três textos alternativos na mesa: um instrumento internacional vinculante, defendido pelo Grupo Africano; uma versão que deixava tudo por conta dos esforços de cada país; e um meio-termo que criava um programa de implementação. Reino Unido e Austrália recusavam o vinculante. Um país se recusava até a partir do que já havia sido escrito em Riade.
No penúltimo dia, depois de uma noite que terminou às quatro da manhã, veio o acordo. E o acordo é continuar conversando: as Partes retomam o assunto na COP18, que será no Egito, em 2028, levando anexado o que se avançou nas duas últimas. Nada obriga ninguém a nada. A única conquista firme é que a seca vira item permanente da agenda, em todas as sessões daqui em diante.
Vale ler o que exatamente foi acordado, porque o texto é curto e revelador. São quatro parágrafos. O primeiro decide continuar a conversa em 2028, com o avanço das duas últimas conferências anexado. O segundo — este é o ganho institucional real — determina que a seca passa a ser item permanente da agenda, o que dispensa renegociar sua entrada a cada sessão. O terceiro pede ao Secretariado e ao Mecanismo Global que realizem consultas participativas no intervalo entre as conferências, inclusive durante a reunião técnica de Belgrado, na Sérvia, em 2027 — mas acrescenta uma ressalva que decide o destino da coisa toda: sujeitas à disponibilidade de recursos. Ou seja, quem financia decide se elas acontecem. O quarto pede que se relate o progresso.
E há um detalhe que diz tudo. Os dois anexos que viajam para o Egito trazem, escrita, a advertência de que não refletem consenso entre as Partes, apenas o progresso alcançado. Um deles preserva o texto de Riade com o parágrafo central ainda entre colchetes, onde se lê a alternativa nunca resolvida: lançar o processo do quadro global, ou do protocolo, ou de outra coisa a definir. A COP17 anexou formalmente o próprio desacordo. É pouco. E é mais do que Riade deixou, porque garante que 2028 não recomece do zero.
Um delegado resumiu sem levantar a voz: não é o que esperávamos, mas garante que as discussões permaneçam vivas. Outro foi direto ao osso e pediu que as Partes vissem a urgência e parassem de adiar.
São quatro anos no tema mais urgente da Convenção, e nada decidido. Vale perguntar por que — e a resposta não é técnica. Um acordo vinculante sobre seca criaria obrigações de financiamento para quem tem dinheiro, em favor de quem tem terra seca. Não falta ciência. Falta vontade de assinar embaixo.
O dinheiro apareceu; a conta não fecha
Enquanto a negociação da seca patinava, o dinheiro entrava pela outra porta — e o contraste entre as duas coisas é a chave para entender a conferência.
Os anúncios somaram um bilhão e trezentos milhões de dólares para restauração de terras, distribuídos por vinte e três países de cinco continentes. O Banco Africano de Desenvolvimento prometeu quinhentos milhões em cinco anos para oito países africanos. A Espanha comprometeu vinte milhões de euros, a União Europeia outros vinte, a Alemanha onze. Luxemburgo lançou, junto com a Convenção, a primeira facilidade global de financiamento dedicada à resiliência à seca, com meta de mobilizar até quatrocentos milhões de dólares. E a iniciativa sobre pastagens reuniu um bilhão e duzentos milhões em quarenta e cinco projetos — a maior mobilização para pastagens na história do tratado.
Agora ponha esses números ao lado da conta. Para cumprir o que o mundo prometeu até 2030 seriam necessários trezentos e cinquenta e cinco bilhões de dólares por ano. Investe-se hoje cerca de setenta e sete bilhões. A lacuna é de duzentos e setenta e oito bilhões anuais — número que a delegação brasileira repetiu em plenário, falando pelo grupo da América Latina e do Caribe. Tudo o que foi anunciado em Ulaanbaatar, somado, equivale a menos de meio por cento da lacuna de um único ano.
E há dois dados que completam o quadro. O principal fundo ambiental multilateral do planeta teve seu novo ciclo anunciado em três bilhões e novecentos milhões de dólares — vinte e sete por cento abaixo do ciclo anterior. E o capital privado, tão citado nos discursos como a solução, responde hoje por cerca de seis por cento do investimento global em restauração. O dinheiro que se pede ao mercado é justamente aquele que o mercado ainda não põe.
Isso quando os números do próprio negócio são bons. Num painel da conferência, dois dados foram ditos quase de passagem e mereciam manchete: restaurar terra rende oito para um, e o custo de não fazer nada é três vezes maior que o custo de restaurar — oitocentos e setenta e oito bilhões de dólares por ano de prejuízo, contra benefícios que podem chegar a um trilhão e oitocentos bilhões. Não é um problema de rentabilidade. É um problema de quem paga a conta agora para que outro colha depois.
O índice que mede a preparação, não o estrago
O produto mais concreto que saiu de Ulaanbaatar não é uma decisão. É uma ferramenta, e ela merece ser explicada com calma, porque tem consequência prática para quem trabalha com seca no Brasil.
No dia 26 de agosto, o Observatório Internacional de Resiliência à Seca entrou em sua segunda fase e apresentou o primeiro Índice de Resiliência à Seca do mundo. O observatório é iniciativa de uma aliança internacional que reúne mais de setenta países e organizações, copresidida por Espanha e Senegal, com secretariado na própria Convenção e desenvolvimento a cargo da Universidade Yale. O protótipo havia sido lançado em Riade, em dezembro de 2024. Agora virou plataforma utilizável.
A ideia por trás dele inverte a lógica habitual. Quase todo sistema de monitoramento de seca mede o estrago: quanto choveu, quanto o açude baixou, quanto a safra caiu. Esse índice mede outra coisa — a capacidade de um território de antecipar, preparar-se e adaptar-se. É uma matriz de três capacidades por quatro áreas. As capacidades são antecipar, que significa ter alerta precoce funcionando; preparar, que significa diversificar fontes de água e adotar manejo sustentável antes que a seca chegue; e adaptar, que significa ajustar-se de forma duradoura, com variedades resistentes e gestão flexível da água. As áreas são o ambiente construído, o ambiente natural, as comunidades e a economia. Para cada cruzamento, o sistema escolhe um ou dois indicadores críticos, tirados de bases globais validadas pela ONU, e os converte em escores. Escore baixo é sinal de alerta.
Os dados vêm do programa europeu Copernicus, da NASA, da agência atmosférica norte-americana, da Organização Meteorológica Mundial e do monitor de seca dos Estados Unidos, somados ao que cada país envia. E aqui está a parte que interessa: os próprios desenvolvedores declaram a limitação da ferramenta — a disponibilidade de dados varia muito de uma região para outra. Onde o dado local é bom, o índice é bom. Onde é escasso, o satélite decide sozinho.
É exatamente essa a brecha. O semiárido brasileiro tem décadas de dados de chuva, de açude, de safra e de convivência, acumulados por instituições de pesquisa, universidades e pelas próprias organizações que operam no território. Uma ferramenta global que admite não enxergar bem certas regiões é uma ferramenta que está pedindo dados. Ao fecho desta reportagem, a plataforma exibia publicamente quatro estudos de caso — Austrália, Arábia Saudita, Senegal e Espanha — e uma categoria latino-americana prevista na arquitetura do site e ainda vazia.
E há um número que resume duas décadas de política internacional de seca e quase não circulou: mais de setenta países têm hoje plano nacional de seca. Em 2013 eram três.
Quando uma palavra é uma decisão política
Aqui chegamos ao ponto que este texto quer deixar com você, porque é o menos noticiado e o mais decisivo.
Numa COP, a disputa central não é sobre metas nem sobre dinheiro. É sobre vocabulário. O que entra no texto vira mandato: gera relatório, gera linha de financiamento, gera projeto. O que fica de fora simplesmente não existe para efeito prático.
Em Ulaanbaatar houve dois episódios que ensinam isso melhor que qualquer manual.
O primeiro foi no texto sobre tempestades de areia e poeira. É preciso ser preciso aqui, porque a questão tem uma armadilha. Tempestades de areia são, na origem, fenômeno natural: desertos produzem poeira, e sempre produziram. Os próprios países reconheceram isso e concordaram que enfrentar tanto as fontes naturais quanto as humanas seria prioridade. A disputa era mais estreita e mais interessante: num parágrafo que listava os fatores que agravam essas tempestades, uma delegação propôs descrever o fator climático como variabilidade climática, e não mudança climática.
A diferença não é de estilo. Variabilidade descreve uma oscilação que sempre existiu, que ninguém causou e por isso ninguém responde. Mudança implica ação humana e, portanto, responsabilidade — e, atrás da responsabilidade, a conta. O impasse foi resolvido do modo mais revelador possível: as Partes apagaram todos os fatores agravantes. Não decidiram se a intensificação é natural ou humana. Decidiram não falar de causa.
O segundo episódio foi no texto sobre posse da terra. Um país recusou nomear povos indígenas, comunidades locais, pessoas de ascendência africana, mulheres, juventude e pessoas com deficiência, preferindo a fórmula genérica todas as pessoas. Parece mais inclusivo dizer todas as pessoas. É o oposto: quando o texto não nomeia, ninguém pode cobrar em nome de ninguém. A lista sobreviveu, mas deslocada para o preâmbulo — a parte do documento que declara intenções e não gera obrigação.
A frustração com esse método chegou a tal ponto que um delegado propôs uma saída inédita: inserir notas de rodapé isentando o país bloqueador dos parágrafos que ele recusava. O resto do mundo seguiria em frente; ele ficaria de fora, por escrito, com nome e tudo. O Secretariado foi consultar os advogados para saber se havia precedente. Até o encerramento da conferência, o resultado dessa consulta não foi divulgado, e nenhuma nota de rodapé desse tipo apareceu nos textos conhecidos. A ideia ficou onde nasceu: no corredor.
O que o Brasil escreveu
E chegamos ao ponto que dá título a esta reportagem — o momento exato em que uma palavra passa a valer um bioma.
Nos textos de negociação que circulam nessas salas, várias inserções trazem a sigla BR. São as emendas brasileiras ao texto sobre aridez, seca e a articulação entre as convenções ambientais.
O Brasil propôs incluir, na lista de respostas que os países devem adotar diante da aridez e da seca, os seguintes termos: abordagens de bioeconomia; agroecologia; sistemas integrados de lavoura, pecuária e floresta; abordagens baseadas em ecossistemas; tecnologias sociais e medidas de adaptação de base comunitária. E, no meio dessa lista, esta expressão: a restauração de florestas sazonalmente secas e outros ecossistemas.
É a Caatinga, escrita em linguagem de tratado. E escrita de um jeito que merece atenção.
Repare no que o Brasil não escreveu. A expressão depositada foi florestas sazonalmente secas — sem o adjetivo tropical. A omissão não é descuido: é a parte mais hábil da emenda. Um termo que carrega o nome de uma região tende a ser lido, na sala de negociação, como pedido daquela região — e pedidos regionais são os primeiros a cair quando o texto precisa encolher. Já uma categoria ecológica descreve um tipo de floresta que existe no Nordeste brasileiro, no norte do México, no oeste da Índia, na África Oriental, no sudeste asiático. Não pertence a ninguém em particular, e por isso tem muito mais chance de sobreviver.
É assim que se coloca um bioma num tratado internacional: não pelo nome próprio, mas pela descrição do seu funcionamento. Quem defende a Caatinga defendendo florestas sazonalmente secas não está diluindo o pedido brasileiro — está construindo uma categoria que protege a Caatinga e, de quebra, obriga o mundo a enxergar todas as outras florestas que fazem a mesma coisa. O Sertão deixa de ser exceção e vira exemplo.
A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro. É uma floresta sazonalmente seca: perde as folhas para atravessar o verão e reverdece em poucos dias quando chove, num fenômeno que impressiona quem vê pela primeira vez. Ela não se comporta como as terras secas do hemisfério norte, que foram o modelo a partir do qual a Convenção construiu seus conceitos. Medir a Caatinga com a régua desenhada para a estepe temperada é como medir febre com trena. Por isso a delegação brasileira quis a categoria escrita — porque, na prática das instituições internacionais, o que não tem nome não tem linha de financiamento.
E o que aconteceu com esse texto? Ele não foi rejeitado. Também não foi aprovado. A decisão sobre aridez, seca e sinergias entre as convenções foi uma das que ficaram travadas pelo bloqueio de agenda, patinou nos parágrafos iniciais e acabou sendo empurrada, ao fim dos doze dias, para a COP18.
Ou seja: as palavras brasileiras continuam lá, entre colchetes, esperando 2028.
A história, porém, teve um capítulo a mais. No penúltimo dia, ao discutir a agenda da próxima conferência, uma delegação propôs incluir um subitem sobre bioeconomia sustentável. O boletim especializado não a nomeia, porque a cena se passou em reunião fechada, e a atribuição precisa ser confirmada com a delegação brasileira. Mas a proposta reproduz, palavra por palavra, o pedido que o Brasil fez na abertura da conferência, teve de retirar diante da objeção de outro país, e reiterou em plenário no quinto dia. Se for isso mesmo, o tema barrado na entrada voltou pela porta da agenda de 2028.
E é justo registrar que o maior anúncio brasileiro da conferência não saiu de nenhuma sala de negociação. O Brasil apresentou em Ulaanbaatar sua meta voluntária de neutralidade da degradação da terra para 2030: dezessete submetas vinculadas a políticas e programas nacionais, cobrindo cerca de três milhões e seiscentos e setenta mil quilômetros quadrados — aproximadamente quarenta e três por cento do território nacional. São mais de cento e sessenta e três mil quilômetros quadrados de recuperação e restauração, incluindo vegetação nativa e sistemas agroflorestais, e três milhões e meio sob medidas de prevenção da degradação. É o maior compromisso nacional desse tipo anunciado na conferência, e a própria Convenção o destacou em seu comunicado de encerramento. Vale dizer com todas as letras: o país que não conseguiu emplacar uma palavra num anexo técnico foi o mesmo que depositou o maior compromisso territorial da COP17.
O que isso muda na forma de contar a história
É tentador escrever que a Caatinga foi ignorada em Ulaanbaatar. Seria mais fácil e seria falso. O que houve foi diferente, e mais instrutivo.
Nos documentos públicos da conferência — aqueles que qualquer pessoa baixa no site da ONU, com os vinte e quatro projetos de decisão que o Secretariado propôs como ponto de partida — não há uma única menção a florestas sazonalmente secas em cento e vinte e cinco mil caracteres. Nem a esse tipo de ecossistema, nem a qualquer categoria equivalente. Mas esses documentos são o começo da conversa, não o fim. As emendas dos países entram depois, em textos de trabalho que não são publicados.
É por isso que uma busca apressada nos arquivos oficiais leva à conclusão errada. Quem procura pela palavra tropical não encontra nada — e nem encontraria, porque nem a própria emenda brasileira a utiliza, pela razão estratégica que já vimos. O que existe é uma categoria ecológica depositada em texto de trabalho, viva e entre colchetes.
E é aí que o Brasil aparece. A categoria foi proposta. Está registrada, com sigla e data. Sobreviveu à primeira noite de negociação. E foi para a fila de 2028 junto com a decisão inteira que a carregava.
A lição, portanto, não é sobre ausência. É sobre continuidade. Uma proposta que fica entre colchetes não morre — ela hiberna. Mas só volta a viver se alguém estiver na sala, dois anos depois, para defendê-la de novo. E é aí que a coisa aperta: entre uma COP e outra há eleições, trocas de governo, mudanças de delegação, orçamentos que não saem. A palavra fica no texto; a memória de por que ela está ali, nem sempre.
O que aprender com isso
A COP17 entregou arquitetura e dinheiro, e adiou política. Criou um fundo global para resiliência à seca, o primeiro índice mundial que mede não o estrago da seca mas a preparação dos países para ela, um fundo comum para cerca de setenta nações vulneráveis, e a maior mobilização já feita para pastagens — um bilhão e duzentos milhões de dólares. Ao mesmo tempo, empurrou sete temas para 2028.
Note a assimetria, porque ela é a lição principal. Tudo o que avançou é voluntário e foi feito por coalizões de quem quis. Tudo o que travou é multilateral e dependia de consenso. Quando o consenso vira instrumento de veto, a ação migra para fora do sistema — o que resolve no curto prazo e enfraquece a instituição no longo.
A segunda lição é sobre o que significa estar presente. O Brasil escreveu suas palavras no texto porque tinha alguém na sala com mandato para escrever, no momento em que o parágrafo estava aberto. Não é pouco: em conferências assim, a diferença entre um país que aparece e um país que participa é medida em emendas depositadas. Mas depositar é metade do trabalho. A outra metade é estar lá quando o parágrafo reabrir, daqui a dois anos, em outro continente.
A terceira é para todos nós. A Secretária Executiva da Convenção encerrou a conferência dizendo que Ulaanbaatar não será julgada pelo que foi anunciado ali dentro, mas pelo que acontecer depois. É uma frase que serve de régua. Daqui a dois anos, quando a caravana desembarcar no Egito, a pergunta não será quanto foi prometido. Será se o açude está mais cheio, se o solo segura mais água, se o homem que olhava o chão rachado ainda está lá — ou se virou mais um retirante.
Entre uma coisa e outra há doze dias de negociação, um martelo às duas e trinta e seis da madrugada, e uma frase entre colchetes esperando quem a defenda.
Como esta reportagem foi apurada
Os fatos aqui relatados vêm de fontes públicas e dos textos de negociação distribuídos às delegações durante a conferência. Entre as públicas: os onze relatórios diários e as doze páginas de destaques do Earth Negotiations Bulletin, publicação especializada que cobre negociações ambientais multilaterais desde 1992; o Journal oficial da conferência; e os comunicados e documentos oficiais da Convenção, quarenta e nove arquivos consultados.
Três afirmações foram conferidas diretamente no texto oficial: o desfecho da negociação sobre a seca, a definição do Egito como sede da COP18 e a renovação do grupo de trabalho sobre o quadro estratégico.
As decisões numeradas da COP17 ainda não haviam sido publicadas quando esta texto foi fechado, em 29 de agosto de 2026. Por isso, o que se relata sobre supressões e deslocamentos de texto refere-se ao processo de negociação registrado pelo boletim especializado, e não à redação final adotada.




