Ela não é mulher – tem pênis! A agressão à parlamentar, pela suposta ausência de um órgão definidor do seu ser, reitera um dos elementos estruturantes da misoginia: definir a mulher pela vagina. Aqui, machismo e transfobia, mais uma vez, caminham juntos
Por Berenice Bento*, em Outras Palavras
Desconheço um momento em nossa história em que uma pessoa trans tenha sido vítima de tamanha violência simbólica como a deputada federal Erika Hilton. O jornalista, com ares de dono da verdade, diz: “Ela não é uma mulher. Não tem útero. Não tem vagina. Não procria.” O apresentador falastrão repete. O cientista político, usando seu título de doutor, reitera. A deputada estadual teatraliza e potencializa a violência. Do doutor ao apresentador sem formação acadêmica, todos atearam fogo na imensa fogueira pública contra a deputada. Quando nos movemos em debates morais, esqueçam da formação acadêmica, da classe social e outros marcadores sociais. As questões morais atravessam transversalmente as relações sociais e borram fronteiras entre direita e esquerda.
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