Vamos depositar as esperanças em Lula e lutar para que ele vença as eleições no primeiro turno. Mas devemos cobrar do próximo governo que crie as condições para que as armas se tornem uma mercadoria prescrita e indesejável e a “escala F”, um modelo ultrapassado e sem utilidade para pensar o país.
Em A Terra é Redonda
Em seu mais recente livro, Scorched Earth, Jonathan Crary comenta que, com a ascensão da extrema-direita nos Estados Unidos, a mercadoria mais cobiçada do mercado passou a ser a arma de fogo. Lembro-me que quando participei de algumas ações do movimento “vira-voto” em São Paulo em 2018, além da famigerada “mamadeira de piroca”, a questão da liberalização das armas era um dos pontos que mais aparecia nas discussões com as pessoas na rua, tanto em bairros de classe média, quanto em bairros mais populares. Era difícil argumentar. Diversas pessoas, mas principalmente homens jovens, diziam apoiar Jair Bolsonaro devido a essa pauta. Eu, então, perguntava: “mas quanto custa uma arma?”. As pessoas respondiam “5 mil reais, 10 mil reais, muito caro”. E eu replicava: “você que é a favor dessa pauta, conseguiria comprar uma arma?”. A maior parte das pessoas respondia que “não”. Mesmo assim, quando inquiridas pela razão de sua escolha, hesitavam. Uma outra tática que eu e outros colegas adotamos foi a seguinte: perguntávamos para os homens que defendiam o armamento da população se eles já haviam tido uma briga feia com alguma companheira alguma vez; todos respondiam que sim. Então, perguntávamos: “e se, nessa ocasião, você tivesse uma arma em casa?” E, mais uma vez, a maioria respondia: “é, ainda bem que não tinha”. Desde então, permaneci me perguntando como pessoas que não conseguem possuir essa mercadoria (e, ao menos num nível consciente, sequer a desejam realmente) insistiam em apresentar essa pauta como a principal razão de sua escolha eleitoral. Continue lendo “A última garantia. Por Bruna Della Torre “