Quando se rompe a cerca de um latifúndio que não cumpre sua função social, ocupando-o de forma coletiva e organizada, estourando o cadeado de uma porteira e/ou cortando o arame da cerca que configura o latifúndio, não apenas se rompe uma cerca ou se corta um arame, mas no coletivo de camponeses sem-terra que faz esta ação pensada e planejada rompe-se interiormente o ‘arame’ que sustentava a resignação e o conformismo como estilo de vida. Cura-se a cegueira imposta pelo sistema do capital que fazia ver o latifúndio como algo natural, normal e que devia ser respeitado. Perde-se a inocência diante da trama do capital que faz o Cativeiro da Terra e engendra injustiças e desigualdades cada vez mais gritantes. Inicia-se um processo de alfabetização agrária que levará à superação de uma espécie de analfabetismo agrário, imposto pelo latifúndio e pelo modo de produção capitalista calcado na propriedade capitalista da terra, na expropriação da terra dos camponeses, na superexploração do trabalho humano e na desertificação dos territórios através do uso abusivo de agrotóxicos e pelo desmatamento irracional e devastador. Isso também é pedagogia emancipatória posta em prática não apenas fora da escola e nem apenas na escola da vida, mas na luta pela terra, luta coletiva. “Jogamos fora o medo,” diz o Sem Terra Hélio Amorim, do Assentamento Dom Luciano Mendes, em Salto da Divisa, MG. Ou: “Devagarzinho, o conhecimento foi chegando e expulsando o medo,” afirma o Sem Terra Aurelino Lopes do Nascimento. Assim, os Sem Terra, na luta pela terra, aprendem a trilhar um caminho emancipatório desobedecendo ao que é proibido pelo capital – Estado e classe dominante – e a se revoltar contra todo e qualquer tipo de injustiça. Jaime Amorim, da coordenação do MST, em Pernambuco, diz: “Os trabalhadores aprendem no dia da ocupação o que não conseguem aprender numa vida inteira” (AMORIM apud CALDART, 2012, p. 173).
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