Como uma megaoperação legitima a morte, ou mais ainda, as vidas que não podem ser consideradas ou perdidas, se não forem primeiro, consideradas como vida
por Marcelo Campos, Patrick Cacicedo e Paulo César Ramos, em Le Monde Diplomatique Brasil
A cor da dor, que deu origem ao título deste texto, é um artigo científico de livre acesso publicado em 2017 em uma das revistas mais conceituadas da área da saúde, a revista Cadernos de Saúde Pública da Fiocruz. A pesquisa analisa as iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil com foco nas influências da raça/cor no tocante à experiência de gestação e parto, sendo inédita a análise de abrangência nacional. Com base populacional representativa de todo o território brasileiro, com entrevistas e avaliação de prontuários, o estudo totalizou 23.894 mulheres. Em suma, o artigo identifica as inúmeras disparidades raciais no processo de atenção à gestação e ao parto evidenciando um gradiente de pior para melhor cuidado entre mulheres pretas, pardas e brancas. Dos resultados mais relevantes: i) há piores indicadores de atenção pré-natal e parto nas mulheres de cor preta e parda, em comparação às brancas; ii) mulheres pardas e pretas sofreram menos intervenções obstétricas no parto que as brancas; iii) mulheres pretas recebem menos anestesia local quando submetidas à episiotomia; e iv) há um menor uso de analgesia nas mulheres pretas. Continue lendo “A dor da cor: a maior chacina da democracia brasileira e o Rio de Janeiro”