O caminho do ouro e o lamento dos pajés

Lançamento de Povos Indígenas do Brasil 2011-2016, do ISA, reuniu Davi Kopenawa Yanomami e Ailton Krenak em (triste) celebração na Livraria Cultura, em São Paulo

Texto e foto de Helio Carlos Mello* – Outras Palavras
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São 252 povos, 154 línguas, 705 terras formando o quebra-cabeça do novo Povos Indígenas no Brasil, que o ISA (Instituto Socioambiental) lança neste mês em São Paulo e Brasília. Cobrindo o período de 2011/2016, a 12ª edição do livro traz 160 artigos, 745 notícias extraídas e resumidas a partir de 156 fontes, 243 fotos e 27 mapas que sintetizam, em 828 páginas, a situação atual dos povos indígenas no Brasil durante um período marcado por grandes mobilizações contra os retrocessos em seus direitos coletivos. Essa edição também destaca, pela primeira vez, os pensamentos de doze mulheres indígenas na seção que abre o livro, chamada “Palavras indígenas”. A publicação pode ser comprada na loja do site do ISA 
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Antigamente olhava-se o mundo grande e o horizonte refletia o céu, tal um espelho da verdade. Certo dia Cunhã pôs o inhame no pilão, como fazia todos os dias no preparo do alimento. Cunhã levantou muito a mão de pilão em seus amassamentos e partiu o espelho, que aos pedaços caiu do céu e a verdade de cada um se fez aos cacos.

O que está acontecendo? Talvez tenha sido essa a primeira questão que aos nativos ocorreu na visão das caravelas vindo nas águas sem fim. A verdade nunca mais seria a mesma, o martírio se apresentava à terra tão vasta. O senhor se anunciara ao índio que andava na praia em labor e graça. Campo fértil para malícias, o colonizador logo aqui fez sua morada.

Há um rio que começa na Amazônia e tem sua foz na Avenida Paulista, o caminho do ouro, onde toda riqueza encontra um dono. Desembarque pelo lado esquerdo do rio, esses tempos não são para boas palavras, é tempo de espanto e tristeza.

Acomodar a sabedoria se faz necessidade única nesses tempos de cão. Desencanto é palavra árida e o auditório da grande livraria está com a lotação esgotada e trava-se a porta; muitos têm sede entre as mentiras rompendo a lógica das coisas. Tom Zé entra pelo palco mesmo, urge ouvir certos homens. O sal da terra interpõe-se entre o preto asfalto e os livros, escandaliza a alma e o poeta apropria-se da cunha anunciando que o sertanejo é antes de tudo um índio.

Davi Yanomami está triste e com raiva dos governos, pois os garimpeiros voltaram ao Rio Uraricoera com suas dragas e bateias. Davi traz as notícias do fim do mundo: negociam a terra, colocam boi, tiram os peixes do rio, cortam a cabeça da Funai, tiram-lhes os braços, quebram-lhes as pernas.  Davi Yanomami, recém chegado de Genebra, onde foi denunciar seus desencantos com os ouvidos moucos daqui, sabe que o presidente não é honesto e segue hoje a Brasília para expor o mapa do garimpo.

Ailton Krenak lembra da discrepância entre o projeto de desenvolvimento perpetrado pelo Estado brasileiro, incapaz de solucionar as demandas das populações tradicionais ou propor alternativas, preservar aquilo que é limpo e puro em terras demarcadas. Seguindo a tradição dos cacoetes recorrentes, lembra ele, sem saber o que fazer com os povos indígenas, sedimentando um trauma a todas as etnias. O Estado vai escrevendo seu conto: matam o rio, comem a montanha, derrubam a floresta e algum tarado faz mineração por aí. Em equívoco de português nos deram o apelido de índio e seguimos existindo por pura persistência, conclui.

Mais um dia do índio se anuncia nesse abril, mais um volume da coleção Povos Indígenas do Brasil é lançado. Como Tom Zé em sua Moda do Fim do Mundo, seguimos nos desencantos, martírio e falsas soluções, cantando: Cumpadi em brasília, espaiaram um boato muito chato, que o mundo vai se acabar.

*Fotojornalista do Projeto Xingu/Unifesp há 16 anos. Atua na documentação do cotidiano de vários povos tradicionais do país.

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