O desconforto com as cotas é patente e emerge um racismo de reação

Por Angela Alonso*, na Folha

O Brasil agora gosta de se definir como multicultural. O nome antigo era “democracia racial”, mas o sentido permanece: não temos conflitos étnicos. A harmonia na diversidade é um mito nacional e, como todos os mitos, encobre e revela. Encobre a desigualdade entre os grupos étnicos e revela a dificuldade coletiva em tratar do assunto.

O mito passou a ser denunciado. A Flip deste ano é exemplar. Não por eleger escritor negro (Machado de Assis já foi homenageado), mas por ter 30% dos conferencistas de sua cor.

A ação tem impacto simbólico, mas as artes sempre patrocinaram a ascensão dos negros. Habilidades (“talento”) e esforço (“mérito”) individuais lhes facultaram galgar o pódio –em música (Gilberto Gil), dança (Ismael Ivo), artes plásticas (Emanoel Araújo). Mas chegar ao topo é excepcional. Negros como protagonistas de novela são recentes. E raros. Comuns são representações que os associem aos trabalhos subalternos, à pobreza e à criminalidade.

Nos esportes, onde corpos e aptidões natas são fator de distinção, as possibilidades se abrem, mas restritas a áreas de baixo investimento inicial. Faltam negros nos esportes de elite: esgrima, equitação, iatismo, automobilismo. Até o futebol, esporte coletivo mais democrático, vem restringindo o ingresso. A profissionalização impôs adestramento precoce do corpo, e aí o que se come, onde se treina limita a ascensão apenas pelo “talento”.

Se nessas carreiras periféricas a desigualdade se impõe, nas que concentram o mando social, o abismo se alarga. Dos Poderes da República, o Legislativo é o mais poroso aos negros, mas a Câmara dos Deputados nunca foi presidida por um. Um país de maioria negra nunca teve presidente negro. No Judiciário, a exceção Joaquim Barbosa confirma a regra.

A democracia racial faz mais água onde está o dinheiro. Além da disparidade de renda, a supremacia branca é patente nas posições de comando de recursos públicos e privados. E se reproduz. O direito de herança transmite um patamar básico de superioridade econômica dos brancos de uma geração a outra. Filhos de negros saem da maternidade em desvantagem.

Mas desigualdade não é apenas vício de origem. Repõe-se ao longo da vida. A escolarização deveria anulá-la, mas a reforça. Filhos da elite social se beneficiam de terapias corretivas, formação complementar e frequência a instituições privadas de qualidade superior às públicas. Escolas –e as famílias que as frequentam– se declaram contra discriminações, mas basta entrar nelas para ver de que cor são seus alunos.

Estes herdeiros, bem preparados a vida toda, se tornam maioria nos cursos superiores de maior prestígio: engenharia, medicina, direito. Assim, a escolarização superior repõe o privilégio da elite social branca.

O debate sobre cotas nas universidades, que causou barulho recente na USP, precisa ser entendido à luz desse padrão de reprodução da desigualdade étnica.

Argumentos liberais, em favor de talento e mérito, ignoram que negros sempre largam atrás e sofrem mais obstáculos no percurso. Os que chegam ao vestibular são grandes maratonistas sociais. Mas por mais “talentosos” e “esforçados” que sejam, poucos cruzarão por si a linha de chegada dos cursos concorridíssimos, como a medicina.

As cotas não compensam a escravidão –é impossível. Tentam garantir aos negros de hoje chances genuínas de ascender a posições de prestígio e poder social.

Se as cotas vierem a ser mesmo efetivas, vão pôr em xeque os mecanismos de hierarquização étnica ativos aqui e agora. E também a propalada harmonia interétnica. Ou se crê que tudo seguirá como dantes quando o cirurgião, o empresário, o governante forem negros?

O desconforto com as cotas é patente. Contestações se fazem em nome do universalismo (há brancos pobres) e da livre competição (como se ela existisse).

Junto emerge um racismo de reação. Os negros que acessam as escolas públicas de elite vêm sendo expulsos por mecanismos de rebaixamento, via humilhação. Outra alternativa extrema, já aplicada ao ensino básico, seria o abandono da universidade pública pela elite social. A existência de cursos privados de excelência em direito (FGV), engenharia (Insper) e medicina (Einstein) aponta a exequibilidade desse caminho.

A mera existência de celeuma em torno das cotas desmente o mito da democracia racial. A desestabilização desse regime sólido e longevo de reprodução da desigualdade étnica não virá sem reações. O racismo explícito é apenas uma delas.

*Professora do departamento de sociologia da USP e presidente do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).

 

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