Aplicativo Inovador Expõe a História Obscura do Porto do Rio de Janeiro

Lisa Hollenbach – RioOnWatch

Nenhuma área urbano no Rio de Janeiro mudou mais nos últimos cinco anos do que a Região Portuária. Há pouco tempo, era uma área fortemente negligenciada, com armazéns portuários e edifícios abandonados, resultado de uma desintegração característica, associada à falta de cooperação entre as três esferas do poder público –grande parte do terreno do Porto pertence ao governo federal, que por anos não esteve disposto a liberar o território para o desenvolvimento pelo município. Uma importante via expressa elevada, a Perimetral, cortava a região e era em grande parte responsável pela baixíssima qualidade do ar na região.

Esse impasse mudou durante a administração do Prefeito Eduardo Paes (2010-2016), uma administração alinhada aos governos federal e estadual e que utilizou os prazos da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016 como ferramenta para acelerar as obras de infraestrutura, tornando a revitalização do Porto sua prioridade pessoal de legado. Seu programa de revitalização Porto Maravilha gastou mais de R$8 bilhões e basicamente transformou a região em atração turística. O cais se tornou acessível novamente, o trânsito foi canalizado subterraneamente para um túnel de quase 5km, e o primeiro sistema de VLT do Rio foi introduzido. Vários museus e atrações foram abertos, incluindo o Museu de Arte do Rio (MAR), o Museu do Amanhã e o novo aquário da cidade, o AquaRio.

No entanto, nenhum nível de higienização –da renovada Praça Mauá, do atraente Boulevard Olímpico, ou dos brilhantes trilhos leves– pode mascarar a história por trás de todo esse desenvolvimento. Esse mesmo porto recebeu o maior número de africanos escravizados na história da humanidade. E os restos de muitos deles ainda estão lá, literalmente e figurativamente.

A fim de tornar acessível aos visitantes a história mais íntima do Porto assim como as intervenções na região nos últimos anos, a Agência Pública de jornalismo investigativo lançou recentemente um aplicativo para uso exclusivo na área do porto, chamado Museu do Ontem.

Usando tecnologia de Realidade Aumentada, fatos e histórias sobre a região que ninguém pode ver à primeira vista se tornam visíveis. O aplicativo combina jornalismo, arte, tecnologia e uma pitada de “Pokémon Go” para trazer ao público uma nova visão da região portuária. Como o título sugere, o foco está na rica história do bairro. Mas em vez de capturar monstros minúsculos, o usuário desbloqueia histórias ao se aproximar geograficamente.

No seu celular, você pode realmente ver onde a família real portuguesa desembarcou em 1808; onde a República foi proclamada em 1889; onde a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea em 1888, acabando com a escravidão, mas também onde operou o maior porto negreiro das Américas antes do fim da escravidão. Todos esses eventos estão marcados em um mapa a partir de 1830. Mas também há marcações relacionadas a acontecimentos dos séculos XX e XXI: por exemplo, onde o presidente João Goulart realizou o comício durante a manifestação na Estação Central do Rio, que teve como resposta o golpe militar de 1964; um prédio que serviu como centro de tortura da ditadura e que hoje é uma delegacia de polícia; e até mesmo lugares mais recentes, como locais em que ocorreram atos de corrupção investigados pela Operação Lava Jato.

Então, quando você estiver na Praça Mauá de frente para o Museu do Amanhã, um desenho do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, aparecerá na sua tela, dizendo que “as empresas que realizaram a obra do famoso Porto Maravilha tiveram que pagar R$52 milhões, ou 1,5% do valor total do dinheiro público investido para o desenvolvimento imobiliário da área (em propina)”, supostamente paga a Cunha, que está agora na prisão.

No Largo da Carioca surge outra história da Operação Lava Jato, ainda menos conhecida pelo público: em 2012, um homem andava por aí com uma mala com R$100.000, que de fato era propina. Ele foi assaltado e chamou a polícia. Eles pegaram o ladrão que foi preso, enquanto o homem com o dinheiro do suborno foi liberado.

Ambas as histórias fazem parte de um passeio inteiro dedicado aos escândalos de corrupção, com duração de mais de uma hora. Além do Tour da Corrupção, existem quatro outros: o Tour do Samba, que começa nos primeiros terreiros de Candomblé e leva o participante a várias escolas de samba famosas; o Tour dos Fantasmas, que compartilha momentos importantes e tristes da história brasileira que raramente são ensinados, mas que assombram o Centro até hoje, como a chacina da Candelária; o Tour da História, que se concentra nos eventos históricos mais importantes da região; e o Tour do Terror, que revela histórias aterrorizantes dos tempos da escravidão e da ditadura. Pode não ser por coincidência que o último é, infelizmente, o mais longo.

“No Brasil, pouco valor é dado ao nosso passado histórico e também há poucas ferramentas para descobri-lo”, diz Mariana Simões, gestora da Casa Pública, centro de referência da Agência Pública no Rio de Janeiro. Essa falta de conhecimento ou apreciação se aplica ainda mais à história dos negros no Brasil. Durante as obras de construção do projeto Porto Maravilha, mais e mais partes desta herança esquecida apareceram, sendo o cais do Valongo a mais famosa delas. O cais foi o maior ponto de chegada de africanos escravizados do Brasil –e do mundo. Neste mês, os realizadores desta história estão comemorando a conquista do status de patrimônio mundial da UNESCO. Segundo a UNESCO, o cais do Valongo é “(…) o vestígio físico mais importante da chegada de escravos africanos no continente americano. Do ponto de vista histórico, é um testemunho de um dos episódios mais brutais na história da humanidade”. Apesar da sua importância, o local é insuficientemente cuidado, com apenas uma placa que explica algumas informações básicas. No entanto, o cais traz, pelo menos, mais informação aos visitantes do que outros lugares que também fazem parte da significativa história africana da região.

O aplicativo Museu do Ontem não pode alterar a invisibilidade inerente em uma história insuficientemente documentada, mas serve para tornar a região mais visível e fornece informações que estimulam a reflexão. Para Gabriele Roza, da Casa Pública, que ajudou a realizar pesquisas para o aplicativo, uma das partes mais traumáticas pode ser ouvida na Praça dos Estivadores, local onde os escravos também eram vendidos. Uma voz lê anúncios de escravos em um jornal, pessoas sendo descritas como mercadoria.

Em outro lugar do passeio, os visitantes descobrem que a famosa Pedra do Sal, onde o sal era vendido –e que agora abriga um quilombo, além de ter se tornado famosa nos últimos anos devido ao samba de rua de toda segunda-feira e por outros eventos– era, na verdade, três vezes maior.

Outra história narra a origem dos chamados “tigres”: “como o lençol freático não era muito profundo, construções de fossas eram proibidas. A urina e as fezes dos moradores, coletadas durante a noite, eram transportadas pela manhã para serem jogadas no mar pelos escravos que levavam grandes barris de esgoto nas costas. Ao seguirem o caminho, um pouco do conteúdo desses barris, cheios de amônia e ureia, penetravam na pele e ao longo do tempo deixava listras brancas na pele preta de suas costas. Esses escravos eram, portanto, conhecidos como ‘tigres’. Como não havia sistema de esgoto, esses ‘tigres’ continuaram suas atividades no Rio de Janeiro até 1860”.

No total, cerca de 160 pontos no antigo Centro do Rio são cobertos pelo aplicativo. Os usuários também podem clicar e fazer sugestões para que mais lugares sejam incluídos. “Para nós, a área do porto é como um (pequeno) aquário. É um reflexo do que é a história brasileira”, diz Mariana. É por isso que a Casa Pública não pretende incluir outros bairros do Rio. Em vez disso, seu objetivo é expandir o alcance do aplicativo, especialmente para os estudantes. Eles também trabalham com guias turísticos alternativos como Cosme Felippsen, da Providência, primeira favela do Rio, que também fica na Região Portuária. Cosme usa o aplicativo em seus passeios.

Mas, mesmo sem mais divulgação, a Casa Pública está feliz com o crescente número de downloads: “nós não tínhamos um objetivo específico em mente… esperávamos obter pelo menos 1.000 downloads. Nós superamos esse número há muito tempo. Em apenas um mês, mais de duas mil pessoas baixaram o aplicativo”.

A ideia em si surgiu há um ano no Laboratório de Inovação da Casa Pública. Foi criada por jornalistas que trabalham para a Casa Pública em parceria com o desenvolvedor holandês Babak Fakhazadeh, com ilustrações da artista paulistana Juliana Russo e narrações da cantora Anelis Assumpção. Além disso, o historiador Laurentino Gomes permitiu o uso do conteúdo de seu premiado livro de história “1808”. Sua contribuição é uma das razões pelas quais a Casa Pública escolheu 1830 como data para o mapa histórico incluído no aplicativo. “Além disso, não queremos voltar tanto no tempo, a ponto de não reconhecermos a região”, diz Mariana.

Baixe aqui o aplicativo no Google PlayE aqui na Apple Store.

Saiba mais sobre o Museu do Ontem:

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