Por Cláudio Luiz Pereira, em A Tarde
Duas ou três questões são fundamentais para se pensar o Brasil, seja para a reflexão inquiridora dos intelectuais nacionais, seja para o senso comum quando lastreia o pensamento mais primário sobre nós mesmos: Quem somos? Como viemos a nos tornar o que somos? Que sorte de projeto temos para pensar o que nos tornaremos?
Questões-chaves, que fazem de fato que o Brasil não seja assunto para amadores, mas tema daqueles que amam questões complexas e de difíceis resoluções.
A exposição “Índios: Os Primeiros Brasileiros”, que no momento o Museu de Arqueologia e Etnologia, por ocasião dos setenta anos da Universidade Federal da Bahia, traz a seu público, nos leva a estas indagações, e nos conduz a um entendimento acurado sobre a nação que pretendemos construir.
A exposição, cuja curadoria cabe a uma das maiores autoridades sobre a questão indígena brasileira, o professor João Pacheco de Oliveira, foi originalmente elaborada no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Ao chegar a Bahia ela avança na sua quarta itinerância, tendo passado antes por Natal, Fortaleza e Recife, além de Córdoba na Argentina. A Bahia, basta lembrar, faz dos índios – o caboclo e a cabocla do 2 de Julho – um de seus símbolos fundamentais e, certamente, muito ansiava pela chagada da exposição aqui.
Do ponto de vista conceitual, devo dizer, “Os Primeiros Brasileiros” propõe uma nova equação, frente aos índios do litoral, justamente aqueles que mantiveram contato com as hordas de homens que chegavam de além mar, e que traziam a ideia de um Estado colonial a ser construído, vez que ainda não se descortinava a astúcia que definiria, posteriormente, as nações modernas.
Foram estes primeiros povos, que se situavam numa densa fronteira, a um tempo simbólica (que faziam com que estes índios fossem moralmente outros, culturalmente incompreensíveis, etnicamente diferenciados) e a outro tempo real (considerando-se a intransponibilidade das florestas, dos ambientes inóspitos, da necessidade de outras formas de adaptabilidade).
Sobre estes povos se compôs toda uma sorte de iconografias, de registros que prevaleceram ocultos ou laterais (ainda que fossem o óbvio!), de marcas inolvidáveis da memória (ainda que sofrêssemos de uma amnésia cultural seletiva, e ingrata), e que a exposição busca dar relevância.
São estes os primeiros índios, que sendo índios são também os primeiros brasileiros: que se puseram no contato, que experimentam as diferenças, e que mataram e morreram nos seus embates e nas suas lutas – e que sobreviveram muito além do horror genocida, ou de um silencioso terror etnocida.
A exposição busca uma compreensão sobre estes povos – são Pataxó, Potiguar, Tupinambá, Fulniô, etc…- e serve bem ao propósito de dar inteligibilidade a presença destes grupos na nossa atualidade, com suas novas emergências identitárias, suas novas demandas sociais, suas novas proposições étnicas e culturais.
São os primeiros brasileiros sim, e sendo primeiros são primordiais, queiram um não alguns – assim como são efetivamente brasileiros, este povo que formado por tantos, e por tão diversos, traz uma contribuição notável a uma humanidade que ousamos moldar.
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Cláudio Luiz Pereira é Diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Ufba.
Destaque: Cartaz ruralista, defendendo a violência contra os Tupinambá. Foto: Edson Silva (setembro de 2013).