A região do Juruá, que faz fronteira com Bolívia e Peru, é lar de muitos povos indígenas, como os Huni Kui, Nawa, Nukini e Puyanawa, além de alguns grupos isolados. Não bastassem as ameaças que estas populações já sofrem, como a invasão de seus territórios e a extração de recursos naturais por madeireiros e garimpeiros, e conflitos recorrentes com narcotraficantes, a exploração de petróleo e gás de xisto veio piorar a situação de vulnerabilidade e descaso por parte do Estado.

“Qualquer tipo de exploração minerária na região irá impactar severamente e de forma irreversível todas as formas de vida ali presentes”, ressaltou o fundador da COESUS e coordenador de Campanhas Climáticas da 350.org Brasil, Juliano Bueno de Araujo. Como exemplo da dimensão do dano, o aquífero Içá, um dos principais mananciais subterrâneos da Amazônia, corre o risco de contaminação pelo descarte de águas carregadas com substâncias químicas utilizadas no processo do fracking, além de vazamentos de metano, sem contar o próprio volume de água a ser utilizado na atividade.

Batalha jurídica

O lote AC-T-8 foi arrematado pela Petrobras em leilão realizado pela ANP em 2013. Ele atinge o Rio Juruá, um dos principais afluentes do Rio Solimões, que forma uma bacia única que vai do Peru até o Maranhão.

Apesar do desconhecimento generalizado da população ante os riscos que a técnica do fracking pode trazer à região. Não menos impressionante é o fato de estes lotes estarem justamente em cima do Aquífero Juruá, o mais importante da Amazônia Ocidental.

Em dezembro de 2015, uma decisão da Justiça Federal de Cruzeiro do Sul já havia acatado pedido do MPF para suspender e cancelar todas as atividades decorrentes de licitação para exploração e produção de petróleo e gás de xisto no Vale do Juruá.

Além do Acre e Amazonas, mais 13 estados brasileiros podem ser impactados pela exploração minerária do gás de xisto. Nos estados do Paraná e Piauí, a Justiça suspendeu a concessão dos lotes, após intervenção do Ministério Público Federal, para priorizar a preservação do aquífero Guarani (Paraná) e da bacia do Parnaíba (Piauí).

A decisão do MPF do Acre leva em conta diversos estudos que apontam para os enormes riscos que a atividade traz, seja para os recursos hídricos, minerais, para a fauna, a flora, e também para a vida humana.

A ação determina que a Petrobras suspenda em até 10 dias todo e qualquer ato decorrente da arrematação do bloco AC-T-8 e do contrato que se refere à produção de hidrocarbonetos na Bacia Sedimentar do Acre, sejam recursos convencionais ou não convencionais, sob pena de multa diária de R$ 100 mil, sem prejuízo das demais sanções legais cabíveis.

Além disso, até que seja realizada a Avaliação Ambiental da Área Sedimentar (AAAS), prevista na portaria interministerial N° 198/2012 do Ministério de Minas e Energia, e a consulta prévia, livre e informada aos povos indígenas da região a serem impactados pela atividade, nos termos da Convenção N° 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Petrobras fica temporariamente proibida de realizar qualquer atividade, incluindo sobrevoos, pesquisas, vistorias in loco ou qualquer outra medida relacionada à exploração e produção de hidrocarbonetos na mesma área.

A União e a ANP também ficam temporariamente proibidas de realizar qualquer outro procedimento licitatório com finalidade de exploração ou produção de hidrocarbonetos na Bacia Sedimentar do Acre. O Ibama, por sua vez, fica proibido de licenciar qualquer tipo de atividade ligada à exploração e produção de hidrocarbonetos na região.

Imagem: O Vale do Juruá abriga diversas populações indígenas, que serão diretamente afetadas caso o lote AC-T-8 seja explorado (Foto: Gabriel de Angelis).

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Juliano Bueno de Araújo e Silvia Calciolari.