Futuro Incerto: A chaminé da antiga Fazenda Pião do Barreiro, em Belo Horizonte, está tombando…

por Alenice Baeta para Combate Racismo Ambiental

Apesar de ainda muito imponente na urbana paisagem da região do Barreiro, sudoeste da capital mineira, a grande chaminé de tijolinhos[1] da olaria da antiga Fazenda do Pião apresenta claros sinais de degradação, tais como, frestas e rachaduras, sendo que sua extremidade já se encontra parcialmente desabada.  Uma das braçadeiras metálicas remanescentes se quebrou recentemente e se encontra balanceando, podendo cair a qualquer instante, arrastando talvez alguns degraus da escadinha de ferro ali cravados que ainda acessam a sua porção superior.

A antiga chaminé foi o que restou de um extenso conjunto de estruturas da olaria, pedreira, barracões e oficinas dos colonos italianos Gatti, que adquiriram terrenos da Fazenda do Pião, originalmente propriedade do escravagista Coronel Damaso da Costa Pacheco, segundo consta em documento datado de 1855 (APCBH, 2008) denominada a grande Fazenda do Barreiro (que englobava ainda glebas do Jatobá, do Cercado e do Morro do Pião-esta última, adquirida pela Mannesman).

Muitas famílias de imigrantes italianos, portugueses, alemães, japoneses, espanhóis, dentre outras nacionalidades, se instalaram inicialmente na ‘Colônia Agrícola Vargem Grande’ no final do século XIX, onde se dedicaram a atividades agrícolas e produção de alimentos, abastecendo a região do Curral Del Rey, aproveitando a fertilidades do solo e abundância de córregos (Clemente, Capão das Posses, Antônio Francisco, dentre outros), muitos deles com suas nascentes situadas atualmente nas unidades de conservação Parque Estadual do Rola Moça e Parque Municipal das Águas (ou Parque Roberto Burle Marx – Barreiro). Posteriormente, as gerações seguintes dos primeiros colonos, passam a investir na infraestrutura de Belo Horizonte e de Contagem.

A olaria dos ‘Irmãos Gatti’, empregou por decênios muitas pessoas e se tornou importante referência no início do século XX, inspirando o nome do bairro: ‘Olaria’, abrangido ainda pela Vila Marieta. O Sr. ‘Chico’ Deusdete Miranda, 76 anos,  líder comunitário, que pertenceu à associação ‘Flor de Maio’, natural de Bonfim, MG, informa que a preservação da ‘Chaminé da Olaria’ é muito importante para a comunidade local e para a história da construção da cidade e de seus trabalhadores. Informou que a argila extraída, que ocasionando grandes barrancos a beira do córrego Olaria (pertencente à bacia do rio Arrudas, Vale do São Francisco) era muito boa, fornecendo excelentes telhas francesas e tijolos para a construção civil, sobretudo na Cidade Industrial e arredores, onde as fábricas e galpões foram se implantando, além de  vilas operárias e conjuntos habitacionais. O Sr. ‘Chico’ em entrevista lamentou muito a chaminé estar neste ruim estado de conservação, externando grande preocupação com o seu incerto futuro. “Foi o que restou do passado daqui. Não queremos que ela desapareça, mas tá caindo mesmo…Ela está muito frágil e vai exigir serviços especializados. E agora?

Esta chaminé faz parte de importante categoria de bem cultural pertencente ao patrimônio Industrial. Em 2003, foi elaborado pelo Comitê Internacional para a Conservação do Patrimônio Industrial documento de interesse mundial ratificado pela UNESCO e ICOMOS (Conselho Internacional de Monumentos e Sítios) que o define: “Compreende os vestígios da cultura industrial que possuem valor histórico, tecnológico, social, arquitetônico ou científico. Estes vestígios englobam edifícios e maquinaria, oficinas, fábricas, minas e locais de processamento e de refinação, entrepostos e armazéns, centros de produção, transmissão de energia, meios de transportes (…),” dentre outros.

Mais que nunca urge a necessidade premente de se pensar o patrimônio industrial e seu magnífico acervo espalhado em Belo Horizonte, Contagem e tantos outros municípios de Minas Gerais. Dar visibilidade a este tipo de memória ainda muito desvalorizada e incompreendida, seja em contexto urbano, seja em ambiente rural, é um grande desafio. O próprio nome do estado nos exige tal reflexão e debate. E já estamos ficando para trás nesta célere corrida, sempre muito desigual.

Nota:

[1] Endereço: Av. Levindo Coelho defronte ao número 370 , no Bairro Olaria/Barreiro, Belo Horizonte.

Bibliografia Consultada:

APCBH/PBH História de Bairros – Regional Barreiro (Coords. ARREGUY, C. C. & RIBEIRO, R. R.) Belo Horizonte: Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte-APCBH/Prefeitura de Belo Horizonte-PBH, 2008.

CARTA de Nizhny Tagil sobre o Patrimônio Industrial, TICCIH, 2003. (www.ticcih.org)

MIRANDA, M. P. de S. Tutela do Patrimônio Cultural Brasileiro. Belo Horizonte: Del Rey, 2006.

PENNA, O. Notas Cronológicas de Belo Horizonte. Fundação João Pinheiro-Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1996.

SOUZA, A. A. de Barreiro: 130 anos de História. Belo Horizonte: Mannesman S.A., 1986.

Imagem: Sr. ‘Chico’ Miranda,  líder comunitário da Vila Marieta, preocupado com a preservação do Sítio Histórico Olaria da Fazenda Pião. Região do Barreiro, Bairros Olaria e Vila Marieta, Belo Horizonte.MG.  Foto: Alenice Baeta

Comments (4)

  1. A história do Barreiro é riquíssima, e deve ser preservada e conhecida.

    Seria uma lástima se um remanescente dessa história se perdesse.

    Assim como as chaminés da Companhia de Cimento Portland Itaú foram preservadas como um marco de Contagem, a Chaminé do Olaria deveria ser recuperada e preservada para a posteridade.

  2. O problema de nosso Barreiro é que grande parte dos que aqui moram e tem raízes aqui estão preocupados em ostentar aquilo que não são, ou seja são indivíduos que acham que são Burgueses e na verdade não são. Esquecem que sua História é mais relevante que sua vida fútil. São divorciados da História e que não valorizam o papel histórico de seus antepassados em nosso bairro. Caso haja algum projeto para preservá-la me disponho a ajudar.

  3. Lembro de quando era criança a olaria funciondo, bom seria que pudessem restaurar a chaminé como as da fábrica de cimentos itau onde hoje é o shopping itau

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