Mineração: Qual o Preço do nosso Futuro?

Por Lindomar Padilha, em seu blog

Com este tema, ocorreu nos dias 09 a 11 de outubro, no Centro de Pastoral da Diocese de Cruzeiro do Sul, um seminário para tratar do tema da mineração na região do Vale do Juruá, no Estado do Acre.

Apesar da tentativa de tumultuar o seminário, partindo de algumas pessoas ligadas à CPI/AC e à venda e negócios com carbono e das ofensas gratuitas ao Cimi, a mim e minha companheira em especial, o seminário foi considerado um sucesso. A tentativa de tumultuar, compreendemos bem, tem a ver com o desespero que assola os defensores de mecanismos como REDD por se beneficiarem com isso, ainda que seja em detrimento ou sem o consentimento explícito das comunidades. Como o tema do seminário não era REDD, as ofensas e calúnias ficaram totalmente desconexas. Mais vantagens teriam se tivessem se preocupado de fato com a mineração que tantos males causará, mas preferiram ficar nas pequenas politicagens provando, mais uma vez, que a defesa dos povos e seus territórios fica em segundo ou talvez terceiro planos.

A ideia dos defensores da política ambiental em curso no Acre é um tanto napoleônica quando pretende dividir os povos indígenas e trabalhadoras e trabalhadores em geral para, assim, melhor os dominar. Claro que para dividir valem-se de repasses de pequenos recursos quase sempre destinados apenas a pagamentos de pequenos salários. (O que sempre na natureza foi tido como “função” passou a ser “serviços” e serviço vem de servo. Assim, os donos do poder passam a ter em suas mãos a natureza, os povos e comunidades como servos. Triste né?). E ainda não querem prestar contas.

Em uma das falas, a expositora (que falava em defesa do banco alemão e do REDD ainda que o tema não fosse este) é clara e direta ao afirmar que não prestarão contas dos recursos recebidos até aqui do banco alemão KFW (cerca de 25 milhões de Euros) porque, segundo ela, não é necessário a prestação de contas, exceto para “associados”. Não entendi bem quem são os tais associados , mas, sei que são recursos que chegam via governo do Estado e, logo, sim é dever e obrigação  prestarem conta a toda a sociedade.

Particularmente nos entristeceu a todos a fala da representante da Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais que, no intuito de nos desqualificar e desqualificar o nosso trabalho, apelou dizendo que íamos às aldeias para “comer as galinhas mais gordas”. A fala nos surpreendeu porque demonstra o quanto  alguns indígenas estão se contaminando com o discurso individualista. Aprendi justamente com os povos indígenas que não devemos ser mesquinhos, ainda mais quando o tema for alimentação.

Mais uma vez  pessoas e organizações realmente comprometidas com o bem comum prestam um excelente trabalho na defesa dos interesses dos povos indígenas e das comunidades em geral. Franquia a palavra até mesmo aos opositores numa clara e inequívoca manifestação de respeito ao contraditório, ao contrário do que normalmente fazem os caluniadores e agressores.

Quanto à solidariedade a lideranças e organizações frente aos ataques,  em agosto diversas entidades do mundo inteiro assinaram uma moção demonstrando que sim, há pessoas e instituições que visam algo bom para todos e não só recursos financeiros e que estas pessoas e organizações estão sendo vítimas de perseguição e mentiras:

“Mais de 80 organizações e indivíduos do mundo inteiro mandaram a carta abaixo para autoridades no Brasil, Alemanha e Califórnia/EUA, repudiando “toda e qualquer tentativa de intimidar ou censurar as pessoas e organizações que criticam e se opõem ás políticas ambientais e climáticas que vêm sendo implementadas pelo governo do Acre”.

“Essas tentativas se intensificaram depois da realização em Xapuri no Acre do Encontro “Os efeitos das políticas ambientais/climáticas para as populações tradicionais”. Na Declaração de Xapuri, os participantes do referido Encontro denunciaram os acordos negociados pelo governo do Acre com outros países. O principal exemplo é o acordo com o banco Alemão KfW que já repassou EUR 25 milhões para o governo do Acre, sem que haja transparência na aplicação destes recursos perante as comunidades no Acre que dependem da floresta e perante a sociedade como toda.”

Ao final do seminário, para frustração dos que defendem as políticas ambientais do governo do Acre, saiu um manifesto que reproduzo aqui na íntegra:

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Cruzeiro do Sul, 11 de outubro de 2017

Nós, participantes do Seminário “Mineração: Qual o preço do nosso futuro?”, ocorrido entre os dias 09 e 11 de outubro de 2017, no Centro Diocesano de Treinamento no município de Cruzeiro do Sul, que contou com a presença de lideranças e representações indígenas dos povos Nawa, Nukini, JaminawaArara; Shawãdawa; Noke kui; Puyanawa; Ashaninka; Marubo; Huni kui; dos ribeirinhos, assim como representantes do Movimento Nacional de Luta por Moradia, CIMI, CPT, Assessoria Jurídica da Diocese de Cruzeiro do Sul, FUNAI, estudantes da Licenciatura Indígena, Licenciatura em Ciências Biológicas e Licenciatura em Letras/Inglês da UFAC, do curso Técnico em Meio Ambiente do IFAC, professores e pesquisadores de ambas instituições de ensino (IFAC/UFAC).

Vimos a público defender a importância das florestas para a manutenção dos modos de vida tradicionais e do ponto de vista ambiental. Pretendemos destacar que a mineração desmata e destrói paisagens naturais; ocasionando perdas de grandes áreas de ecossistemas e de áreas de uso humano. Trata-se de uma atividade que traz riscos: como o rompimento das barragens de contenção de rejeito. Ademais, desencadeia processos erosivos, resultando no assoreamento dos rios e igarapés.

Tal atividade demanda alto consumo de água e resulta na contaminação dos mananciais por substâncias causadoras de problemas de saúde: como alta incidência de câncer e de anomalias no nascimento. Deve-se salientar ainda a progressiva redução da qualidade da água, dos solos e do ar e seus efeitos danosos à saúde pública. Adicionalmente, a soberania alimentar também ficará comprometida em função da contaminação irreversível de peixes, bem como dos solos e dos alimentos neles produzidos.

Como muitos sabem, a cidade de Cruzeiro do Sul ainda não possui infraestrutura suficiente (moradia, saneamento básico, saúde, educação, transporte e segurança) para a população atual e certamente entraria em colapso se recebesse uma quantidade expressiva de novos habitantes. A promessa de novos empregos acarretará em problemas sociais decorrentes do aumento desordenado da população, como prostituição, alcoolismo, drogadição e violência urbana e rural.

Desta maneira os ganhos econômicos, que em geral ficam nas mãos de poucos, não compensam as perdas sociais e ambientais da atividade de mineração.

Ressaltamos a ausência das instituições governamentais convidadas: IMAC, Ministério Público Federal, Ministério Público Estadual, Câmara de Vereadores de Cruzeiro do Sul, Câmara de Vereadores de Mâncio Lima, Prefeitura Municipal de Cruzeiro do Sul e Prefeitura Municipal de Mâncio Lima. Reiteramos a necessidade destas instituições tomarem parte do debate e do processo de construção de alternativas para a região.

Nossa floresta e nosso futuro não têm preço. Têm valor!

NÃO À MINERAÇÃO NO VALE DO JURUÁ!

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Amyra El Khalili

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