Carta de uma brasileira para as hermanas argentinas

Por Luanna Marley*

Queridas Hermanas,

A onda verde argentina veio como tsunami de esperança que afetou nossas mentes e corações na América Latina. A reivindicação, que na realidade é uma necessidade urgente para nós mulheres pelo aborto legal e seguro, seja na Argentina ou em qualquer lugar, alimenta nossa luta pela vida das mulheres.

Há anos seguimos alertando acerca da importância de políticas públicas voltadas para a saúde, o planejamento familiar, políticas de prevenção e da garantia da decisão e autonomia das mulheres. Ao passo que também denunciamos o quanto este sistema penal, que criminaliza as mulheres que vivenciam a angustia na decisão – por diversos motivos – pela não maternidade, silencia nossa voz e nos extermina. A decisão das mulheres não pode ser tratada como uma questão de polícia.

Mesmo diante de pesquisas que comprovam que criminalizar o aborto somente contribui para o aumento do número de interrupções clandestinas e de mortes das mulheres, eles – sim, eles, a maioria esmagadora de homens que estão no poder decidindo sobre nossas vidas – insistem, propositadamente, em nos tornar alvos de julgamentos e condenações por rompermos, criarmos fissuras neste violento sistema, ao subvertermos a ordem que nos aniquila.

Parte da sociedade se nega a perceber que o silenciamento das histórias das mulheres acerca do que elas vivenciam quando decidem abortar é torturador e, ainda, representa um risco de vida, uma eliminação de existências. Parece que o mundo vem perdendo a empatia e seguimos para uma sociedade movida, cada vez mais, pelo ódio. A materialização deste ódio – seja pelo feminicídio, seja pelas outras formas de mortes promovidas pelo próprio Estado penal – não falha com aquelas que recusam, ou ensaiam recusar, a receita machista que impõe a submissão e o controle enquanto projeto político.

Ainda que brasileira, me reconheço em vocês e em suas lutas. Por isso que a onda verde mexeu tão profundamente comigo. E com muitas mais. Aqui no Brasil, estamos diante de um cenário preocupante, onde a política se movimenta no sentido do ataque às mulheres, negros e negras, quilombolas, indígenas, LGBTI, em uma ofensiva dentro do nosso Congresso Nacional, bem como em outras instâncias de poder (sistema de justiça e Executivo), que se configura por um lado como esvaziada de conceito e sentido, mas que se sustenta em slogans políticos visando a retirada e revogação de direitos.

A gravidade deste momento é que não se trata apenas de uma mobilização política, a atuação dos conservadores dentro dos parlamentos, por exemplo, desenvolve políticas da morte. Sim, hermanas. Na ordem do discurso da gramática do ódio, os verbos da política brasileira se sustentam em “silenciar”, “retirar”, “proibir”, “tornar crime” tudo que for relacionado a direitos sexuais, direitos reprodutivos e gênero, impondo a aniquilação do outro, das outras, especialmente, como política de Estado.

Acreditamos e lutamos por outros verbos políticos: esperançar, resistir, libertar, expressar, democratizar, enegrecer, decidir, legalizar, acolher, respeitar… Existir. Estamos aqui juntas disputando estas gramáticas, a disputa das gramáticas é uma disputa, sobretudo, de projeto político de sociedade. Sabemos que nos mobilizamos sob uma outra ética, e sobretudo, nos mobilizamos pela justiça. E como diz a escritora Claudia Piñeiro: “não permitamos que nos roubem a palavra vida!”.

*Luanna Marley é advogada feminista, Integrante da Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares (Renap) e Pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Diversidade Sexual e Gênero –NEDIG/UnB

Foto: Jorge Saenz.

Enviado para Combate Racismo Ambiental por Rodrigo de Medeiros Silva.

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