Kaiowá sofrem quatro ataques em menos de um mês na Reserva de Dourados/MS, último ocorreu durante visita da Cidh

Ataques resultam em 19 feridos por tiros de bala de borracha e gude, sendo que 1 indígena foi baleado duas vezes, em datas diferentes e com munição letal

por Michelle Calazans, em Cimi

O histórico de violência na Reserva Indígena de Dourados/MS tem se agravado ano após ano. Os povos indígenas dessa região são vítimas do colapso social que a área centenária está submetida, que reflete o contexto de negligência territorial por parte do Estado brasileiro, da falta de medidas protetivas eficazes, das relações exploratórias que os indígenas estabeleceram com não-indígenas para sobreviverem e da situação de confinamento humano que permite uma descontrolada gama de violências. Atualmente, a reserva indígena de Dourados possui a maior população indígena do país, somando mais de 16 mil pessoas. 

Por essa razão, nos últimos anos surgiram no entorno da reserva diversas ocupações de pequenas áreas, algumas, inclusive, que restaram fora do delimitado à época e que agora são reivindicados por estas famílias, por meio de confrontos violentos à luz do dia.  Os meses de outubro e novembro foram emblemáticos na escalada dessa violência, quando indígenas da aldeia Bororó, ocupantes de uma pequena área sitiante à reserva, denominada pelos indígenas de Avate’e foi atacada, nos dias 07, 28, 31 de outubro e 07 de novembro, por grupos armados, ora em caminhonete ou bloqueios nas estradas, ora se utilizando, inclusive, de tratores modificados que destruíram mais de 20 barracos e efetuando diversos disparos com bala de borracha, de gude e com munição letal, ferindo mulheres e crianças que, por sorte, não resultaram, ainda, em mortes.

Ataque 07 de outubro: diversos feridos por bala de borracha, barracos destruídos e um baleado

No dia 07 de outubro os indígenas foram surpreendidos por uma grande movimentação de caminhonetes e tratores modificados que destruíram barracos, atearam fogo e efetuaram disparos contra a comunidade, causando desespero nas famílias e pelo menos 15 feridos.

Segundo os indígenas, duas caminhonetes chegaram a se chocar e um dos para-choques destruído foi deixado para trás. Recolhidos pelo indígenas, o MPF investiga os autores e proprietários. Utilizando de balas de borracha, de gude e letais diversos indígenas ficaram feridos nestes ataques. “Toda semana tem ataque aqui. Normalmente quinta e sábado. Já tiros são direto. Eles fecham também a estrada e não deixam ninguém passar. Também disseram que vão atropelar quem passar aqui, inclusive as crianças”, assegurou Ava Kunã Te’e, que não quis de identificar por segurança.

Ataque 28 de outubro: 15 feridos com balas de borracha e de gude

O ataque no dia 28 foi extremamente agressivo. Pistoleiros abordaram os indígenas Kaiowá com tiroteio com balas de borracha e de gude. Segundo lideranças da comunidade, as agressões foram originadas por fazendeiros locais e não havia qualquer tipo de manifestação por parte do povo Bororo, no momento do ataque.  Cerca de 15 indígenas foram feridos com o ataque.

O indígena Ava Te’e (nome em Guarani), explicou que pistoleiros chegaram por volta das 6h e começaram a atirar, no dia 28. “Nós não estávamos fazendo nada, só tomando mate. Eram caminhonetes e trator. Davam tiros para todo lado, aqui eram mais de 20 barracos, destruíram tudo. As crianças saíram correndo lá pro mato”.

Em depoimento, o indígena Ava Yvyruaja (nome em Guarani) esclarece, também: “Esta marca de bala (mostrou os ferimentos) é do primeiro ataque que sofremos (7), ainda nem sarou direito. A bala está aqui dentro. Este outro foi do dia 28 de outubro, a bala não atravessou. Não posso ir no hospital porque corro perigo. Não quero ir lá sozinho”.

Outro indígena que não faz parte da comunidade e estava apenas passando pelo local no momento do ataque, no dia 28, também foi atingido: “Eu nem sou da comunidade, estava só passando na estrada, indo abastecer minha moto para ir votar. Quando cercaram e deram tiros em mim. O tiro pegou no meu pé e atravessou” explicou Ava Yvy.

Ataque 31 de outubro: intimidação e barracos derrubados

O cenário de violência seguiu também no dia 31. De acordo com informações das lideranças indígenas, fazendeiros invadiram a Reserva de Dourados/MS e começaram a derrubar os barracos, sem qualquer abertura para diálogo. As lideranças indígenas prestaram denúncia acerca da situação na Fundação Nacional do Índio (Funai) e no Ministério Público Federal (MPF), e aguardam providência junto aos respectivos órgãos. Felizmente, a comunidade conseguiu se proteger na mata e não houve feridos.

Ataque 07 de novembro: violência à comunidade indígena há 2km do local de vista da CIDH

Durante a visita da comissária Antonia Urrejola Noguera, integrante da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da OEA (Organização dos Estados Americanos)  aos indígenas Guarani-Kaiowá no município de Caarapó e à Reserva Indígena de Dourados, uma comunidade próxima 2km sofreu, entre 9h e 12h, ataque de fazendeiros locais, com tiros de bala de borracha.

De acordo com informações de lideranças indígenas, o tiroteio resultou em três pessoas feridas e diversos barracos derrubados. Além da agressão, os fazendeiros também derramaram veneno nas crianças e adultos, que ficaram com diarreia e vômico por dias após o ataque. Os fazendeiros locais, inclusive fecharam a estrada que dava acesso ao local onde a delegação da CIDH estava. Devido a esse ocorrido, as lideranças indígenas não conseguiram participar da reunião com a comissária Antonia Urrejola Noguera.

Povo Bororo na Reserva Indígena de Dourados/MS. Foto: Comunidade Bororo

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