Não adianta olhar para o Fórum Econômico Mundial. Por Cândido Grzybowski

do Ibase

Enquanto buscamos nos situar diante da conjuntura política brasileira, devemos também procurar entender como outras resistências se organizam diante da onda de autoritarismo e fascismo mundial e o que propõem como alternativa. Não adianta olhar para Banco Mundial, FMI, OMC, ONU, Fórum Econômico Mundial. De tais esclerosadas instituições nada a esperar com capacidade de dar algum sinal, pois todas são parte da mesma crise. É preciso ir e ver além.

Ressalte-se que a insurgência feminista não esmoreceu e, pelo contrário, poderá ser um dos movimentos de caráter planetário e de maior protagonismo em 2019.  O “8 de março” promete e dele podem surgir elementos fundamentais para um novo imaginário mobilizador da cidadania com potencial transformador. Há também o surpreendente movimento dos “coletes amarelos”, na França, que lembra as manifestações de 2013 no Brasil, mal aceitas e mal avaliadas pela esquerda no poder. E temos, ainda, os movimentos de greve de trabalhadores na China, 1.640 greves em 2018 segundo o China Labour Bulletin. Claro, a China pode balançar esse mundo globalizado. Mas, como entender tão esdrúxula situação de um governo comunista agente da mais radical globalização capitalista? Migrantes continuam chegando à Europa e sendo rechaçados, assim como na fronteira entre México e EUA.

Algo embrionário, como uma semente plantada, aconteceu em Verona, Norte da Itália, em 14 de dezembro de 2018. O economista Riccardo Petrella – um engajado desde a primeira hora no processo do Fórum Social Mundial (FSM), em 2001, animando a criação do que veio ser o primeira e mais importante coalizão planetária, a “água bem comum planetário” – propôs a realização de uma série de Ágoras pelo mundo. Trata-se de uma convocação para enfrentar a necessidade de pensar e propor novos paradigmas, capazes de superar o vazio político reinante no mundo. A de Verona foi a primeira, uma iniciativa tipo FSM, mas tentando ir além. A proposta é realizar várias Ágoras pelo mundo em 2019. Não sabemos se dará certo, mas é animador saber que mais de 200 intelectuais ativistas atenderam ao chamado de Petrella para esse evento no Norte da Itália.

Não tenho dúvidas quanto à importância de se pensar de forma planetária nesse mundo globalizado. O que acontece no Brasil, tornado um país grande ator no mundo, vai para além de nós mesmos. Temos uma responsabilidade mundial, queiramos ou não, pelo tamanho populacional e, sobretudo, por termos a gestão de um território fundamental para a integridade do planeta Terra. Mas quais são os sinais que não sejam para mais nacionalismos retrógrados e mais governos antidemocráticos ou, até, fascistas? Nesse contexto, penso que é um dever dos que se consideram partícipes de uma nascente cidadania planetária dar atenção a alguns alertas. O primeiro e talvez o mais importante é não perder ou, até, redescobrir a solidariedade como valor estratégico que pode ser o cimento de movimentos de cidadania planetária. Não é a identidade, por mais importante que seja o direito à identidade. Trata-se de nos vermos iguais no nosso direito à diversidade. A igualdade na diversidade é o cimento concreto, o pensamento estratégico e o discurso unificador. As identidades e diferenças devem ser vistas a partir da igualdade. Essa é nossa base, de esquerda. Discordo de quem acredita que as chamadas lutas identitárias nos fizeram perder o rumo. Afinal, patriarcalismo, machismo e racismo são relações de ordem estrutural definidoras de nossas sociedades capitalistas concretas. A questão central tem a ver com as desigualdades, nas diferentes formas que delas se alimentam a acumulação e dominação capitalista. Para enfrentá-las, a igualdade no respeito aos direitos de igualdade na diversidade. O cimento é  construir solidariedade política e republicana entre as muitas diversidades que nos marcamcomo gente de carne e osso.

Finalizo com um chamado de esperança: unamo-nos numa Internacional Progressista. Trata-se de uma bem-vinda iniciativa política inspirada na fundamental tradição internacionalista da esquerda nos séculos XIX e XX, algo perdido nesses tempos de globalização caminhando a passos largos para a barbárie. Figuras ícones pela sua ousadia e integridade política, como Bernie Sanders, candidato norte-americano que ameaçou as elites hegemônicas do partido Democrata nas últimas eleições, e o Yanis Varoufakis, economista grego que, como ministro, enfrentou a troika da União Européia, estão entre os líderes do apelo à cidadania do mundo. Transcrevo aqui, em tradução livre, uma parte do documento público firmado entre os participantes: “Estamos diante de uma guerra global contra os trabalhadores, contra o meio ambiente, contra a democracia, contra a decência. Uma rede de facções direitistas está se expandindo através das fronteiras para erodir os direitos humanos, silenciar a discordância e promover a intolerância. Desde 1930, a humanidade não se confronta a tal ameaça.” Além disto, afirma que “Se a extrema direita se organiza, os movimentos sociais de mudança não podem deixar de fazê-lo”.

Como sempre, cabe a nós, somente a nós, fazer nossas opções e buscar as melhores formas de viver e agir com cabeça erguida e com dignidade neste contexto um tanto sombrio.

Foto de Studio Roosegaard – Creative Commons

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