Precisamos fazer mais que enviar nossa solidariedade a pessoas como Andréa Zhouri

Tania Pacheco

Este blog já publicou muitas vezes o nome de Andréa Zhouri, quer em artigos autorais, quer em menções diversas. Quase sempre, eram textos de alguma forma indignados, quer denunciando injustiças socioambientais e políticas públicas equivocadas, quer convocando para realizações acadêmicas com essas mesmas temáticas.

Hoje, entretanto, a denúncia que busquei de uma rede social tem outros componentes. E, embora o pano de fundo e as causas sem dúvida sejam os mesmos, a lamentável verdade é que andamos para trás. Muito. Aparentemente, a cada dia mais um pouco.

Andréa Zhouri é professora da Universidade Federal de Minas Gerais, com mestrado, doutorado, livros publicados, percurso acadêmico dos mais dignos etc e tal, mas – o mais importante! – é uma brasileira comprometida com sua gente. E foi exatamente essa qualidade que a levou ontem a deixar sua casa para se solidarizar com as vítimas da Vale em Brumadinho. Com certeza, jamais esperaria que um gesto assim pudesse redundar em algum perigo.

Não vou escrever sobre os tempos repugnantes que estamos vivendo ou (pior!) sobre a forma como chegamos a eles. Só quero questionar até quando ficaremos lamentando a morte de Marielle e de Moa do Katendê; as violências contra indígenas, quilombolas e outros povos do campo; os assassinatos de LGBTs e da juventude negra urbana; ou ameaças como as que culminaram esta semana com o exílio de Jean Wyllys. Devemos organizar uma lista interminável e a ela acrescentar, agora, o depoimento de Andréa? E depois outros e mais outros? É isso? Só isso? E depois postamos nas nossas redes sociais o “ninguém larga a mão de ninguém” e nos sentimos com o ‘dever cumprido’?

Compartilho com toda a minha força o terror e a repugnância de Andréa. E registro, abaixo, o texto postado por ela na sua página no Facebook:

***

Andréa Zhouri 

Jean Wyllys fez muito bem em deixar o Brasil. Este país está dando medo. Estamos todxs desamparadxs. Por muito menos hoje eu tive uma experiência frente a atitude fascista. Fui a Casa Branca levar minha solidariedade aos atingidos de Brumadinho. Os moradores da vila organizaram uma manifestação de luto e protesto pelo crime ocorrido em função do rompimento das barragens da Vale.

Havia um grupo de militantes do Partido Novo devidamente uniformizados com camisetas laranja aguardando o retorno da passeata na Praça. Então um senhor que usava óculos escuros e estava nesse grupo, segundo me disseram, numa comitiva de um deputado eleito cujo nome não me recordo, ficou me filmando ostensivamente com seu celular. Fiquei incomodada e me aproximei dele perguntando o que ele estava fazendo. Ele continuou gravando com um sorriso sinistro nos lábios. A intimidação declarada me indignou. Então eu disse pra ele o meu nome e falei que ia fotografa-lo e filma-lo também. Insisti: porque você está fazendo isso? Ele continuou inabalável. Perguntei o nome dele e o covarde prosseguiu da mesma forma, filmando com seu riso sinistro.

Que gente é essa, meu Deus. De onde saiu esse ímpeto fascista. Mesmo num ambiente de luto, solidariedade e justo protesto? Um outro seu companheiro nos abordou dizendo que não podíamos falar contra a mineração porque isso quebraria Minas. Ora, que despautério dito ali, naquele lugar, neste momento, onde nem conseguimos contar os mortos soterrados por essa tragédia? A mineração QUEBROU e MATOU pessoas em Brumadinho, no Rio Doce, em Macacos… que visão abstrata e desconectada do real é essa que molda o pensamento desta gente? Fotografei e filmei essas figuras. Não divulgarei imagens, mas compartilho aqui o meu terror e minha repugnância!!!!!

Destaque: Os buracos são de tiros. Foto: Bruno Itan. Fotógrafo e morador do Complexo do Alemão

Comments (2)

  1. Andrea, grande lutadora e importante pesquisadora das ciências sociais brasileiras e mundiais.
    O que vivemos é inacretitável e os facitas, realmente, saíram do armário. Nos intimidam de forma grosseira e desavergonhada! Temos que pensar urgentemente formas de autoproteção, temos que ir além da indignação!!! Por enquanto, toda solidariedade às pessoas que sofrem os efeitos criminosos da mineração e às pessoas (como Andrea) que efetivamente se empenham na busca de justiça! Vamos nos comunicando e buscando formas de enfrentar momentos tão difíceis.

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