Uma cidade onde as mulheres negras possam respirar

Historicamente, as mulheres negras, para além da resistência, representam a possibilidade de outros projetos de existência

por Claudia Adão*, em CartaCapital

Como assim respirar? Você está me pedindo para respirar, é isso mesmo que eu estou lendo? Sim, minha irmã, é isso. Pare! Olhe para o seu corpo, sinta a sua respiração. Pensem em alguma ancestral sua, pode ser sua avó, mãe, tia… Tente ir mais fundo, pense nas ancestrais delas. Se você for mais fundo ainda na sua imaginação, talvez consiga visualizar as praias da África, os reinos, as terras de onde elas foram arrancadas. Porque aquelas ancestrais existiram e resistiram, você, de certa forma, está aqui hoje com a oportunidade de escrever outra história nesse tempo, nessa terra, aqui, agora. Um dia você também será lembrada e deixará a sua marca. Daí resistir não acaba sendo uma opção, mas uma condição de existência.

O feminismo pode ser entendido como “resistência das mulheres em aceitar papéis, situações sociais, econômicas, políticas, ideológicas e características psicológicas que tenham como fundamento a existência de uma hierarquia entre homens e mulheres, a partir da qual a mulher é discriminada”, como aponta Lélia Gonzalez – intelectual e feminista negra brasileira. Como teoria e prática, o feminismo desempenha um papel fundamental ao questionar e propor uma nova forma de ser mulher. A crítica ao capitalismo patriarcal demonstrou as bases materiais e simbólicas da opressão das mulheres e desencadeou um debate público acerca de questões inéditas como os direitos reprodutivos e a sexualidade. No entanto, apesar dessas contribuições fundamentais para a discussão da discriminação de gênero, crítica ao patriarcado e ao papel subalternizado dado a mulher na sociedade capitalista, o mesmo não contemplou a discriminação racial.

Bell Hooks, teórica feminista estadunidense, considerada uma das principais formadoras do pensamento feminista hegemônico, ao se referir ao livro Feminine Mystique, de Betry Friedan, destaca a ausência da dimensão étnico e racial, adotando uma perspectiva unidimensional das mulheres, abordagem que se tornou uma característica marcante do feminismo hegemônico. O feminismo pode ser encarado como teoria em formação a qual se deve criticar, reexaminar, questionar e explorar novas possibilidades. É nesse cenário que se apresenta o feminismo negro.

A origem do feminismo negro contemporâneo está na realidade histórica das mulheres afro-americanas e sua luta por sobrevivência e libertação. A declaração do Combahee River Collective (A Coletiva do Rio Combahee) é considerado o marco do feminismo negro contemporâneo e ecoa até hoje. Nomeada em homenagem a ação guerrilheira organizada e dirigida por Harriet Tubman em 1863 na região do Port Royal do estado da Carolina do Sul, que libertou mais de 750 escravos, sendo a única campanha militar na história americana planejada por uma mulher, a coletiva influenciou mulheres negras de todo mundo, inclusive no Brasil, onde entidades como Criola, Geledés e Fala Preta foram criadas no final da década de 1970 por mulheres negras que não se viam representadas no Movimento Negro e no Movimento Feminista.

Talvez, para entender melhor o que é o movimento feminista, seja necessário recuperar o conceito de discriminação interseccional de raça e gênero de Kimberle Crenshaw, ativista norte-americana na área dos direitos civis e do feminismo. A interseccionalidade sugere que nem sempre lidamos com grupos distintos de pessoas, mas grupos sobrepostos: grupos de mulheres, negras e pobres. É necessário identificar o que acontece quando há a combinação de diversas formas de discriminação e de que forma ela afeta a vida de determinadas pessoas. No caso das mulheres negras, existe a confluência da discriminação contra grupos específicos e a que combina raça e gênero, o que provoca a marginalização dessas mulheres.

No Brasil e na América Latina, as mulheres negras e também indígenas são vítimas históricas dessa discriminação interseccional. Contudo, as mulheres da América Latina participam também de processos de resistência e insurgência aos poderes estabelecidos. Foi Lélia Gonzalez, que já citei nesse artigo, que criou no final dos anos de 1980 a categoria Amefricanidade para se referir às experiências de mulheres negras e indígenas.

Historicamente, as mulheres negras, para além da resistência, representam a possibilidade de outros projetos de existência. Essas mulheres, citando novamente Bell Hooks, têm uma experiência que desafia a estrutura racista, classista e sexista, o que possibilita que tenham uma posição incomum, já que não são do grupo socializado para assumir o papel explorador/opressor, essa visão de mundo especial pode conferir uma perspectiva de crítica à hegemonia racista, classista e sexista.

Falar a partir da perspectiva das mulheres negras, recuperar suas histórias, denunciar violações às quais estão submetidas, valorizando e resgatando os seus saberes é essencial para, além do prosseguimento da luta feminista, podermos vislumbrar outros projetos de existência, mais justos e plurais. Falar a partir da perspectiva das mulheres negras é essencial para que possamos respirar.

*Doutoranda da FAU-USP, assistente social no Centro Social Marista Ir. Justino e colaboradora da rede BrCidades.

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