Governo trata o índio com a sanha dos primeiros colonizadores

Precisamos de mais Rondon e Villas-Boas para contrapor esta política predadora que remete à outrora fúria dos bandeirantes

Por Chico D’Angelo, na Carta Capital

Relacionada ao meio ambiente, a situação dos povos indígenas é dos temas mundiais mais relevantes do século 21. Em relação ao Brasil, cujo atual governo choca a opinião pública internacional ao violar protocolos, desafiar acordos, omitir dados da devastação, a discussão torna-se ainda mais urgente.

O samba da Mangueira para o carnaval deste ano diz em verso sobre a chegada dos portugueses ao Brasil que “desde 1.500 tem mais invasão do que descobrimento”.

A Verde e Rosa tem razão, já que as estimativas dão conta de que por volta de cinco milhões de indígenas habitavam o país no desembarque dos colonizadores há mais de cinco séculos.

Doenças trazidas da Europa, confrontos armados e a escravização provocaram ao longo do tempo a dizimação de milhões de nativos. O avanço da colonização em direção ao interior do país gerou mais devastação, em virtude do confronto entre os nativos e os bandeirantes. Diversas bandeiras se dedicavam ao apresamento do indígena para o trabalho escravo.

Além de mortos e escravizados, os indígenas também foram submetidos ao processo de catequese pela ação dos jesuítas. Desde então, consolidou-se em setores mais conservadores da nossa sociedade a visão míope de que a solução para a sobrevivência do indígena é transformá-lo em não-índio pela assimilação da cultura ocidental.

Na contramão da lógica do extermínio se destacou o Marechal Cândido Rondon, que em expedições pelo país demarcou fronteiras, mapeou doze rios e corrigiu o traçado de outros tantos.

Rondon entrou em contato com inúmeros povos indígenas, como os Nhambiquara, Karipuna, Macurape, Jaru, Botocudo e Caingangue. Articulou a criação, foi diretor do Serviço de Proteção ao Índio e elaborou a proposta de criação do Parque Nacional Indígena do Xingu; tarefa levada adiante pelos irmãos Villas Boas.

O sertanista Orlando Villa Boas costumava definir de forma simples e incisiva a importância do desbravador. Para ele, se não fosse o marechal Rondon, a população indígena do Brasil estaria extinta.

Durante a ditadura militar, após os anos de 1970, houve uma expansão nas atividades produtivas na Amazônia. A construção da Transamazônica, as hidrelétricas, a pecuária e a pressão latifundiária expulsaram indígenas de suas terras e geraram milhares de mortes por doenças e conflitos.

A Constituição Federal de 1988 firmou o direito indígena sobre as terras que tradicionalmente ocupam, com respeito à identidade e organização social, costumes, línguas, crenças e tradições dos povos originais.

Setenta por cento da população indígena vive na região da Amazônia Legal. Da população atual, 57% estão em terras oficialmente reconhecidas. Há ainda famílias que moram na zona rural e em cidades, a maioria em situação de pobreza. A Funai (Fundação Nacional do Índio) estima que cerca de quarenta povos estejam isolados, sem contato com o branco.

O atual governo trata o índio com a sanha dos primeiros colonizadores: a lógica do extermínio, expulsão de suas terras, imposição de padrões culturais não-indígenas, etc. Precisamos de mais Rondon e Villas-Boas, para contrapor esta política predadora que remete à outrora fúria dos bandeirantes.

Que possamos, portanto, lutar nas ruas e no parlamento, reconhecendo e legitimando o protagonismo dos próprios indígenas, em defesa do meio ambiente e das populações originais do nosso Brasil.

Foto: Wilson Dias /Agêrncia Brasil

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