‘O feminicídio é uma questão cultural’, afirma Mônica Francisco

‘O feminicídio é uma questão cultural’, afirma Mônica Francisco

Por Alexandre Braz, O Dia

Em novembro do ano passado,o Instituto Igarapé divulgou dados de uma pesquisa sobre a violência contra a mulher. No Rio de Janeiro – segundo o estudo -, entre os anos de 2016 e 2018, houve aumento de 317% nos casos de feminicídio, com 167 vítimas. Das mulheres vitimadas, a maioria, ou seja, 62% eram negras. Na contramão do preconceito, do racismo e da discriminação, a deputada Mônica Francisco, do PSOL, iniciou seu primeiro mandato em 2019 tendo a defesa dos direitos humanos e das mulheres como duas de suas principais plataformas de trabalho. “O feminicídio é uma questão cultural, atravessada pela questão econômica, e também pela questão racial”, afirma a carioca nascida no Morro do Borel, na Tijuca, destacando também que “a sociedade de alguma maneira legitima, consente, a mulher como propriedade do homem”. Confira abaixo outros trechos da entrevista.

ODIA: Por que os casos de feminicídio aumentaram tanto no Rio de Janeiro?
MÔNICA: O feminicídio é uma questão cultural, atravessada pela questão econômica, e também pela questão racial. A questão racial amplia esses casos. As mulheres negras morrem mais. Principalmente pela construção social do Brasil. Há muito pouco tempo atrás os negros deixaram de ter um papel apenas de servidão no Brasil. As mulheres dentro desse contexto eram vistas como objetos de reprodução e iniciação sexual. A maioria dos casos de feminicídio envolve e vitima mulheres negras e pardas. O corpo negro é o corpo do nojo, da abjeção. E temos o machismo, o discurso do ódio, de inferiorização, que contribuem também. Isso associado ao patriarcado. A sociedade de alguma maneira legitima, consente, a ideia da mulher como propriedade do homem.

A dependência econômica em relação ao homem é um dificultador para emancipação da mulher?
A emancipação das mulheres ainda não é completa. Esses problemas passam pela questão econômica. É importante que a mulher tenha autonomia econômica. A dependência econômica atrela a mulher para além das questões emocionais, , e a uma relação violenta muitas vezes.

Como e quando a sociedade legitima esses crimes contra a mulher?
Ainda temos muito arraigado na sociedade brasileira a questão da defesa da honra. Isso está muito introjetado. A mulher está sempre culpabilizada. Temos pessoas dizendo que as mulheres serem assediadas é muito bom para o ego delas. Isso não precisa ser dito formalmente. Quando alguém diz que uma mulher saiu com uma determinada roupa à noite e com isso assumiu o risco de ser estuprada, é uma maneira da sociedade legitimar essa ação. A sociedade brasileira lida tranquilamente com essas situações contra as mulheres. As transsexuais são mortas e espancadas com requintes de crueldade. As lésbicas são estupradas como ações corretivas, para que elas aprenderem a gostar de homem. E a sociedade aceita e aprova direta ou indiretamente essas práticas.

Qual a identidade do mandato da senhora?
Precisamos aliar a nossa prática com o discurso. Temos um mandato majoritariamente feminino e feminista. Temos um mandato formado por 63% de mulheres em nosso gabinete, 27% de homens. Nós temos um mandato negro e periférico. Mais de 40% das pessoas do nosso mandato são negras e pardas, da Baixada Fluminense e vindas das favelas.

Mas por que um gabinete formado em sua maioria por mulheres e negras?
Foi algo pensado? Para nós foi uma surpresa. Fizemos uma pesquisa interna para ver a nossa cara, a cara do nosso mandato, tivemos essa constatação. Por isso digo que temos que unir discurso e prática. E temos que ter em nossas composições a cara do povo, principalmente nós que somos progressistas e de esquerda. Se eu sou uma mulher negra, que venho das camadas populares, e cheguei a esse lugar de decisão, de poder, com muita resistência, temos que dar ênfase nisso. Pessoas como nós temos a responsabilidade – não a obrigação -, de unir esse discurso com a prática.

Em quais projetos a senhora trabalhou em 2019 e que poderia destacar?
Nós fizemos um projeto de Lei 8561, de 2019, que garante que as empresas contratadas pela administração estadual, que elas tenham comprovadamente 10% de jovens aprendizes em seus quadros de funcionários. Isso é importante para gerar emprego e dar oportunidades para a juventude. E lutei para que fosse garantida a presença também de jovens regressos dos programas socioeducativos. Isso gerou polêmica. Tivemos o cuidado de colocar uma medida de que esses jovens – para terem esse direito -, não tenham cometido crimes contra a vida. Mas temos jovens que cometeram infrações menores, que ficam marcados e que não conseguem oportunidades.

Como surgiu a ideia de a senhora se candidatar ao cargo de deputada estadual?
Quem pensou na minha candidatura foi a Marielle Franco, com quem trabalhei. Eu mesma nunca havia pensado, nunca quis participar desse processo. Eu tinha muita resistência. Mostramos a força da mulher.

A senhora mencionou a Marielle Franco. O que pode falar do tempo em que conviveram?
A Marielle era uma mulher negra, trabalhadora. E é uma referência na forma de fazer política, de uma outra forma de se fazer política olhando para as pessoas, ouvindo, entendendo a nossa responsabilidade com as pessoas de onde nós viemos, com a nossa militância em direitos humanos. Entender a importância de defender essa pauta, de defender a vida, de fazer política com afeto, mas não é um afeto com beijinho e abraço, mas é uma maneira de fazer junto com as pessoas, uma construção coletiva. Não é construir para as pessoas, mas construir com elas. Era alguém que sorria sempre e se importava com as pessoas.

A senhora é pastora evangélica. Onde se encontra o discurso cristão com as políticas públicas defendidas pela senhora?
Não tem figura mais subversiva do que Jesus Cristo. Estamos falando de uma pessoa que te fato existiu, cuja a história fala de sua existência. E que tinha uma relação com a pessoas mais bem favorecidas do meio dele. Isso é uma coisa que precisa estar marcado. O Jesus do qual falamos é um Jesus histórico, que vinha de um lugar pobre, de um lugar de pobreza, e que convivia com as pessoas mais invisíveis e mais violadas. Era frontalmente contra as autoridades religiosas da época e ao pode opressor. O discurso autoritário, que submete as pessoas mais humildes a um poder violento e supressão de direitos é totalmente ao Cristianismo, que é resultado da vinda de Jesus. Temos um discurso que prioriza a morte. É impossível um cristão ter esse tipo de discurso de ódio às pessoas. O amor de Jesus é um amor revolucionário e da prática. Ele não fazia segregação.

Imagem: Ddeputada estadual Mônica Francisco (PSOL-RJ) – Foto: Rafael Wallace

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