Do Programa Mais Médicos à Campanha pelo Prêmio Nobel da Paz aos médicos cubanos

Atualmente, cerca de 45 brigadas Henry Reeve atuam em 38 países, independente da posição ideológica de seus governos

Por Carmen Diniz*, no Brasil de Fato

Em 2016, não se imaginava que o Programa Mais Médicos no Brasil iria acabar dali a dois anos. Tudo caminhava (ainda, apesar do golpe) relativamente bem nesta área e o povo brasileiro era atendido pelos médicos e médicas de Cuba que aqui chegaram e trabalhavam nos locais mais longínquos do país.

Em novembro de 2016 o Comitê Carioca de Solidariedade a Cuba foi convidado pelo Vereador Leonel Brizola Neto para participar da cerimônia de entrega da Medalha Pedro Ernesto aos médicos cubanos na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

Naquela ocasião, nós, integrantes do comitê, decidimos fazer também uma homenagem àqueles profissionais da saúde cubanos como uma espécie de desagravo às atitudes ofensivas de algumas pessoas na chegada dos referidos profissionais nos aeroportos do país em 2013. Nossa ação era quase que como uma retratação ou pedido de desculpas por aquelas deploráveis “recepções” onde, inclusive, os médicos cubanos foram chamados, em altos brados, de “escravos”, dentre outras ofensas do gênero.

Não imaginávamos, naquela época, que cerca de quatro anos depois estaríamos em plena campanha pela indicação da Brigada Henry Reeve de médicos cubanos ao Prêmio Nobel da Paz. Uma merecida campanha. Merecida indicação e acima de tudo, merecido prêmio a quem trabalha pelo mundo por solidariedade sem pedir nada em troca, “somente” pelo princípio da solidariedade e afirmando que “nenhuma vida é estrangeira”. Se sairmos da atual pandemia com esses princípios, já caminhará melhor a humanidade. As palavras ‘máscara’, ‘distanciamento social’ ‘covid’ ‘respiradores’, ‘álcool em gel’ ficarão no passado. E a palavra que nunca mais será esquecida será ‘solidariedade’.

Mas cabe aqui ressaltar o resultado do fim do referido Programa Mais Médicos (PMM) no Brasil. Neste nosso país já tão desigual, onde contabilizamos cerca de 50 milhões de pessoas na pobreza (23% da população), 34 milhões sem qualquer saneamento básico, 87 milhões de pessoas em idade economicamente ativa sem emprego formal e 5,1 milhões em 13.000 favelas em 734 municípios, o fim do Mais Médicos já previa à época o cenário que se avizinhava.

Assim, lamentavelmente,  as previsões  se confirmaram ao longo do tempo. Aqui chegamos a ter 14.000 médicos e médicas cubanas que, ao final de 2018, tiveram que voltar a seu país por questões ideológicas que aqui nem sequer cabe discutir. O fato é que mesmo sabendo do custo social que isso acarretaria (e acarretou), não havia nenhum argumento para qualquer crítica ao governo de Cuba em relação ao fim do Programa Mais Médicos a que aquele país não deu causa. Não há como criticar a decisão de retorno dos profissionais.  Voltaram a Cuba deixando aqui amigos – especialmente entre seus pacientes -,  que até hoje lamentam por não contarem mais com a medicina humanizada ou, como dizia Fidel:

Aqui formamos médicos com ciência e com consciência 

vazio aqui deixado pelo Mais Médicos se traduz em 63 milhões de brasileiros sem atendimento médico algum, 700 municípios sem qualquer assistência médica, 4 em cada 10 cidades brasileiras sem médicos; somente em 2019, houve um aumento de 12% da mortalidade infantil em comunidades indígenas (um ano só após o fim do programa de cooperação).

Nos 5 anos em que atuaram no Brasil, os cubanos  fizeram 113.359.000 atendimentos em 3.600 municípios, segundo dados da Rede Nacional de Médicos e Médicas Populares. Imaginem quantas mortes por covid-19 seriam evitadas no país se o programa tivesse permanecido, já que em Cuba a pandemia está controlada de uma forma impressionante, sem nenhuma mágica: trata-se especialmente da medicina preventiva, da atenção primária que evita a piora dos quadros da doença, poupando as internações. 

Sobre o controle da pandemia em Cuba, um jornalista perguntou ao presidente Díaz-Canel:  – “É um milagre, presidente?”. Ao que ele respondeu placidamente: – “Não, não é milagre, é socialismo.”

Pequeno resumo da atuação da Brigada Henry Reeve

Criada em 2005 pelo Comandante em Chefe Fidel Castro, a brigada tem o nome oficial de Contingente Internacional de Médicos Especializados no Enfrentamento de Desastres e Graves Epidemias Henry Reeve (de forma mais simplificada, Brigada Henry Reeve). Ela surgiu com uma finalidade internacionalista e solidária e atua em locais afastados, precários ou até mesmo inóspitos, nos quais os médicos e médicas arriscam a própria vida, levando esperança às populações mais pobres do mundo.

Em 2014, a África Ocidental, em meio à pandemia de ebola, foi o local no qual a atuação da Brigada Henry Reeve se tornou mais evidente, sobretudo nos países Serra Leoa, Guiné e Libéria, onde perderam dois de seus profissionais. A atuação da brigada no continente africano foi premiada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2017 – sendo que  ali perderam dois de seus profissionais.

Antes disso, entre 2005 e 2010 a brigada de médicos cubanos atuou na Guatemala, Paquistão, Bolívia, Indonésia, Peru, México e China, além de Chile e Haiti após grandes terremotos. Em 2015, no Nepal, também após um terromoto. Em Dominica, após a tempestade Érika.Em 2016, esteve no Equador após o terremoto no Equador e no Haiti, após a passagem do furacão Mattew. Em 2017, chegou ao Peru para atender a população afetada por fortes chuvas no Peru e no México após mais um terremoto.

Até a última quinta-feira (30), em números que são alterados diariamente, cerca de 45 Brigadas Henry Reeve estão atuando em 38 países ao redor do mundo – independentemente da posição ideológica de cada governo. As brigadas contam com 3.772 integrantes dos quais 2399 são mulheres (66%) e atendeu mais de 255 mil pacientes de covid-19, salvando 8.099 vidas. Além disso, existem 28 mil agentes de saúde que, em 58 países, se incorporaram a esforços nacionais e locais no combate à pandemia, atendendo 83.268 pacientes e salvando as vidas de 13.636 pessoas.

Por esses motivos e por muitos outros, seguimos em campanha e se o Prêmio Nobel da Paz realmente foi criado com essa finalidade, não é possível antever outra pessoa ou grupo mais merecedor da premiação do que a Brigada Henry Reeve, que leva paz e esperança, sem nada pedir em troca, a quem mais precisa em meio a essa pandemia na qual a humanidade pede socorro.
Um prêmio, enfim, à solidariedade. Pois, como dizia José Martí, “pátria é humanidade”.

Participe da campanha

*Carmen Diniz é coordenadora do capítulo Brasil do Comitê Internacional Paz, Justiça e Dignidade aos Povos.

Edição: Luiza Mançano

Nos 5 anos em que atuaram no Brasil, os médicos cubanos fizeram 113.359.000 atendimentos em 3.600 municípios. Karina Zambrana /ASCOM/MS 27.09.2013

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