Ensp: Aula inaugural analisa consequências das decisões brasileiras no enfrentamento à pandemia

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Até que ponto o negacionismo é um empecilho para o avanço da ciência? De que forma as escolhas estratégicas dos países para combate à Covid-19 têm impacto no desenvolvimento da doença? E o Brasil, como o país é visto hoje no mundo e quais são as ações necessárias para interrupção da pandemia? Em busca das respostas sobre como as decisões de um país refletem no comportamento da sociedade e no elevado número de casos e mortes provocadas pelo coronavírus, a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca convidou dois epidemiologistas e um especialista em relações internacionais para a abertura do ano letivo (19/4). Dentre todos os discursos, uma certeza: a conduta do governo brasileiro muito se afastou das recomendações da ciência, propiciando para tornar o país epicentro mundial da pandemia no atual momento.

O epidemiologista Pedro Hallal, ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas, detalhou como o negacionismo compromete os avanços da ciência no enfrentamento à pandemia. Para ele, há uma inversão de conceitos. “Na ciência, as perguntas são mais importantes do que as respostas. Uma grande pesquisa científica tenta responder a grandes perguntas. O negacionismo chega com um modelo de ciência que parte das respostas, e vimos isso em relação ao lockdown e à cloroquina. Esse grupo já tinha respostas para todas as dúvidas científicas, e partiu em busca de evidências para comprová-las fazendo uma ciência inversa daquela que aprendemos, ou seja, há uma seleção intencional de estudos”. 

Ele exemplificou. “Se há 500 publicações mostrando que o tabagismo aumenta o risco de câncer de pulmão, pode ser que dez estudos, seja por flutuação amostral ou erro metodológico, não mostrem essa associação. Os pesquisadores que adotam o modelo negacionista dão uma ampla publicidade a esses poucos estudos ignorando toda a literatura que mostra esse risco”, afirmou.

Seguindo a linha de expor como o pensamento negacionista é um obstáculo para a ciência, o ex-reitor apresentou outros pontos. “Tivemos grande avanço na oferta de conteúdo científico durante a pandemia, por exemplo. Fizemos muito. Mas o outro lado do muro, o do negacionismo, continuou produzindo informações falsas, e essa rede de disseminação prejudicou a consolidação das informações científicas”. 

As recomendações de lockdown e distanciamento também foram contestadas. Segundo ele, por uma estratégia traiçoeira do governo, a população não “comprou essa pauta” e foi estimulada por um dilema falso entre economia e saúde. “O lockdown tem que ser curto e intenso, mas no Brasil ele é longo e flexível. Além disso, não existe um sistema de proteção social que garanta a segurança alimentar e nutricional da população durante esses períodos. Dados de todo mundo mostram que não existe o dilema entre economia e saúde, mas essa narrativa colou aqui e há resistência mesmo em situações altamente necessárias”.

O quarto aspecto citado diz respeito aos medicamentos. Apesar de criticar a falta de um protocolo de tratamento para os pacientes com Covid-19, lamentou o estímulo à utilização de medicamentos ineficazes como a cloroquina e a ivermectina. O doutor em epidemiologia continuou mostrando o impacto das ações negacionistas em medidas como a utilização das máscaras, a importância da testagem e rastreamento de contato para aprimorar ações de vigilância e a adoção de modelos eficazes de enfrentamento ao vírus, como o da China. “O Brasil teve tempo para se programar para enfrentar a pandemia, mas se baseou no modelo que mais deu errado no mundo: o sueco (o país não implementou medidas de distanciamento social no início da pandemia)”.

Os três últimos pontos revelados citam a desvalorização dos negacionistas no que tange aos dados epidemiológicos produzidos pelo país, ao tempo recorde de desenvolvimento das vacinas e ao impedimento da produção de vacinas em larga escala, principalmente pela má condução das relações diplomáticas com países produtores de ingredientes farmacêuticos. “Todas as evoluções científicas foram boicotadas pelo negacionismo. O negacionismo é representado não só por uma parcela da sociedade, mas pelo Palácio do Planalto E isso causa um dano gigantesco. Se tivéssemos um desempenho na média mundial de combate à pandemia, três de cada quatro pessoas que faleceram poderiam estar vivas”.

Respostas à pandemia

Pesquisador do departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos da ENSP e do Instituto de Medicina Social da UERJ, Paulo Nadanovsky explicou os modelos de intervenção disponíveis para os países darem respostas efetivas a uma pandemia. As ações, segundo ele, consistem no controle das fronteiras, testes e rastreamento de contatos, isolamento de casos e quarentena de contatos, melhora no comportamento da higiene e uso de máscaras, distanciamento físico, restrições de movimento, lockdown, oferta de vacinas, proteção a populações vulneráveis, reorientação dos serviços de saúde e apoio social e econômico do governo.

A fase seguinte é a da implementação das estratégias. Conforme apresentado durante a aula inaugural, os países podem optar pela eliminação da transmissão comunitária, modelo utilizado por China, Taiwan e Nova Zelândia; a supressão ou controle da pandemia, que visa reduzir substancialmente o número de casos e surtos, e foi o modelo adotado na maioria dos países da Europa, grande parte dos EUA e Canadá, além de uma outra medida de mitigação, cuja ação visa apenas achatar o pico e evitar sobrecarregar o serviço de saúde (o que aconteceu na Suécia inicialmente). A não realização de nenhuma estratégia substancial, onde a pandemia é largamente descontrolada, foi citada em relação aos países de baixa renda.

Os caminhos de saída

Com base nas estratégias implementadas, os caminhos para a saída do estágio de emergência sanitária são três, de acordo com o pesquisador. “A saída para os países que optaram pela eliminação da transmissão comunitária é de um novo normal, muito parecido com o que estamos habituados, mas cuidadosamente gerenciado, com necessidade de uma quarentena nas fronteiras até as vacinas (leva de dois a três meses). Para a estratégia de supressão, há necessidade de medidas de controle mais prolongadas até que haja vacina ou tratamento efetivo, com um tempo de saída de 12 a 18 meses. Já no caso das estratégias de mitigação, a pandemia se espalha pela população até que haja uma imunidade de rebanho ou alguma outra forma de estabilidade, vacinas ou tratamentos efetivos, o que é uma medida longa e pode variar de 12 até mais de 18 meses para a retomada”, explicou.

O Brasil, segundo o epidemiologista, alternou entre não realizar nenhuma estratégia substancial e adotar medidas de mitigação, apenas para evitar sobrecarga de serviços de saúde. “Nesse caso, pessoas, políticos, a mídia e até mesmo os especialistas se assustaram quando houve a sobrecarga dos hospitais. Ainda assim, o país relaxou muito rápido com os primeiros sinais de melhora, sem adotar qualquer sistema de vigilância robusto”.

Em seguida, Nadanovsky apresentou um modelo, implementado com base no conhecimento dos coronavírus endêmicos – que circulam entre os humanos – , que entende a imunidade como um dimmer, ou seja, aumenta de forma gradual. A característica da imunidade em relação aos coronavírus, segundo o modelo, revela que a imunidade que bloqueia a transmissão míngua rapidamente, tem curta duração, que não deve chegar a um ano, enquanto a imunidade que reduz a doença tem uma vida mais longa. “As questões principais que precisamos saber é se as reinfecções (ou infecções pós-vacinação) em adultos serão brandas, quantas infecções ou doses de serão necessárias para uma imunidade forte e duradoura contra a doença e se as novas variantes também serão brandas em crianças pequenas?”

No final da apresentação, o palestrante fez algumas considerações sobre o Brasil. “Para saber o que é ou não viável se fazer para combater a pandemia, existe um pré-requisito de o Governo Federal e a maioria da população estarem engajados no combate ao vírus e isso não acontece. Além disso, é necessário que a população tenha confiança nas autoridades políticas, mas pesquisas mostram que há desconfiança. Muito provavelmente pela omissão e orientações erradas durante a pandemia. Precisamos torcer para que as vacinas sejam 100% efetivas e evitar casos graves e mortes. Se isso for verdade, e parece que é, a vanização, sozinha, conseguirá acabar com a pandemia no Brasil”.

O coordenador do Centro de Relações Internacionais da Fiocruz, Paulo Buss, lamentou o fato de o país, que já teve uma presença muito assertiva perante à comunidade internacional, estar em uma posição negacionista, fechada e extremamente associada ao governo Trump. Ex-diretor da ENSP, Buss traçou um panorama mundial da covid-19, que já possui mais de 140 milhões de casos, com mais de 3 milhões de mortes, e chamou atenção para a região das Américas, que concentra, hoje, 48% das mortes no mundo.

Buss falou sobre as respostas dos sistemas das Nações Unidas à pandemia e criticou os interesses da indústria farmacêutica e o nacionalismo da vacina. “Cerca de 14% da população mundial já comprou 75% das 8.6 bilhões de doses disponíveis”.

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