Nega Pataxó entregou o seu peito à lança: a impunidade do crime do Invasão Zero na Bahia

Dois anos depois, a memória de Nega Pataxó não se organiza apenas em torno da violência de sua morte, mas em torno daquilo que ela continua a produzir. Sua última imagem – o corpo estendido no pasto, o maracá ainda erguido – não é apenas vestígio da violência, é um acontecimento que desloca e instaura sentidos

Por Felipe Milanez, Olivia von der Weid e Daniela Duarte Lima, Le Monde Diplomatique Brasil

Um tempo antes de ser assassinada, a pajé Nega Pataxó havia recebido um canto e transmitido aos seus familiares, também cantando este canto em alguns rituais. Ela tinha uma voz potente, aguda, alta, marcante e muito afinada. Esse canto hoje parece ser premonitório para seus parentes. Tanto pela tragédia, quanto pela coragem. Antes de morrer, em 2023, em visita à Aldeia Marakanã, no Rio de Janeiro, Nega cantou:

“Eu sou tupinambá guerreira,
mas eu trabalho é para combater,
eu entrego o meu peito à lança,
nossa batalha temos que vencer.
Eu entrego o meu peito à lança,
nossa batalha temos que vencer”

Nega Tupinambá, guerreira do povo Pataxó Hã Hã Hãe, entregou o seu peito à lança. Assassinada covardemente por um jovem filho de fazendeiro no sul da Bahia, no dia 21 de janeiro de 2024. Ao lado de seu irmão, o cacique Nailton Pataxó, que também foi alvejado, mas sobreviveu ao ataque. Sua última imagem é emblemática: o corpo caído no pasto, ao lado do irmão, com um curral ao fundo, seu braço esticado acima da cabeça, segurando o maracá, fincado na terra.

Nega, liderança histórica na luta pela demarcação dos territórios Pataxó Hã Hã Hãe na Terra Indígena Caramuru-Paraguassu há mais de 40 anos e hoje uma referência para jovens e mulheres indígenas na sua comunidade e no País, foi morta durante um ataque promovido por cerca de 200 fazendeiros do grupo autointitulado Movimento Invasão Zero, na retomada da Fazenda Inhuma, no município de Potiraguá, no Sul da Bahia, em janeiro de 2024.

O autor do disparo, filho de fazendeiro, foi preso em flagrante, mas meses depois foi liberado após pagar fiança. Exames balísticos comprovaram que o tiro que matou Nega partiu de sua arma. Até hoje, o crime não foi a julgamento, nenhuma autoridade policial foi responsabilizada, e os líderes e articuladores do grupo permanecem impunes.

A repercussão da tragédia trouxe para o funeral autoridades indígenas: a ministra Sonia Guajajara foi até a aldeia, junto da deputada Celia Xakriaba e da presidenta da Funai Joenia Wapishana. A comitiva interministerial contou com representantes de diferentes escalões do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Uma série de ações foram feitas e nesses dois anos não houve, nessa terra indígena, novos assassinatos. Entretanto, o sul da Bahia segue marcado de sangue indígena. Algumas ações que interviram no território serviram para combater violências ligadas ao narcotráfico, a prender suspeito da morte do cacique Lucas Kariri-Sapuyá, assassinado um mês antes de Nega. Essas ações após a tragédia de grande repercussão revelam que a omissão da última década foi brutal: uma violência que ceifou quase 40 pessoas, e culminou na morte das lideranças Nega e Lucas.

No sul da Bahia, a milícia ruralista Invasão Zero segue atuando com impunidade e com brutalidade. Foram pessoas ligadas ao movimento Invasão Zero que convocaram, através de grupo no WhatsApp, a ação dos fazendeiros em 21 de janeiro de 2024, quando o povo Pataxó Hã Hã Hãe fazia a retomada do território indígena sob a liderança do cacique Nailton. Depois desse grave ocorrido, em junho de 2025 o Invasão Zero ainda organizou o primeiro fórum nacional do grupo. Neste fórum, um advogado palestrante explicou aos fazendeiros como obter porte de armas e como atuar sem deixar provas de suas ações, entre outras estratégias que revelam o caráter de milícia do movimento.

É muito significativo que a Pajé Nega tenha sido assassinada em janeiro de 2024, um mês depois de homologada a lei 14.701, mais conhecida como Marco Temporal, ou Lei do Genocídio Indígena, que praticamente inviabiliza novas demarcações no país, além de abrir os territórios indígenas à exploração de grandes grupos econômicos, em especial ligados ao agronegócio e à mineração. Segundo relatório elaborado pela CPT sobre Conflitos no Campo, Nega foi a primeira indígena assassinada naquele ano e o Invasão Zero esteve envolvido logo no primeiro caso de conflito. Desde a aprovação da lei, as comunidades enfrentam ainda mais insegurança nos territórios.

Em 2025, o povo Pataxó da TI Comexatibá, no extremo sul da Bahia, sofreu uma série de graves ataques e ameaças. Em carta pública, divulgada em outubro, lideranças do território narram a ação violenta de pistoleiros encapuzados e fortemente armados que deixou indígenas gravemente feridos. Os criminosos identificados confessaram o envolvimento de um empresário do agronegócio, também ligado ao Invasão Zero, como financiador do ataque. A Força de Segurança Nacional tem sido constantemente convocada para atuar na região na tentativa de conter a onda de violência.

Nega Pataxó era uma defensora ambiental, da floresta, dos direitos humanos. Lutou com seu povo contra a devastação. Seu assassinato não pode ser tratado como caso isolado. Ele é emblemático de uma proximidade alarmante que vem se estruturando entre fazendeiros, pistoleiros e forças policiais, configurando um sistema penal subterrâneo e ilegal que opera com violência nos territórios para criminalizar as lutas sociais e manter a hegemonia do agronegócio e do latifúndio.

Entre 2023 e 2024, o relatório Na Linha de Frente, elaborado pelas organizações Justiça Global e Terra de Direitos, registrou 486 casos de violência contra defensoras e defensores de direitos humanos no Brasil, dos quais 55 pessoas foram assassinadas, em sua maioria por defender a terra, o território e o meio ambiente – com um ataque a cada cerca de 36 horas no país. Entre 1985 e 2021, dos 1.536 assassinatos registrados, apenas 147 foram julgados, o que implica que mais de 90% dos casos não chegam a um desfecho judicial.

Segundo dados que constam no documento Década da resistência, publicado em 2022 pela Global Witness, o Brasil foi o país que mais assassinou defensores da terra e do meio ambiente na última década. Foram 342 ativistas mortos, representando 20% das mortes globais no período, ficando inclusive na frente da Colômbia, país historicamente conhecido pela violência contra defensores e defensoras ambientais.

Em novembro de 2024, durante o VI Acampamento Terra Livre, em Salvador, organizado pelo Movimento Unido dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia, o Grupo de Ecologias Políticas da UFBA passou um questionário e realizou 26 entrevistas com indígenas presentes com o intuito fazer um breve levantamento da percepção da violência. Quase todos eram lideranças e caciques (85%), dos três biomas da Bahia, mas sobretudo Mata Atlântica e Caatinga. Todos se consideravam defensores ambientais, e 70% já havia sido vítima de violência na luta pela terra e 60% havia recebido uma ameaça de morte nos últimos cinco anos. Um número ainda maior afirmava que havia outras pessoas ameaçadas no território, e, o que era interessante, a maioria relatou que havia denunciado à polícia e procurado ajuda do Estado para resolver os conflitos e a ameaça. Um número parecido, 60% das respostas, as lideranças afirmavam que não se sentiam seguros dentro de seus territórios. São dados que revelam como a violência contra os povos indígenas na Bahia está internalizada, é sistêmica, constante, onde de um lado sabem do envolvimento da PM, mas por outro, não deixam de denunciar para essa mesma PM.

A luta que segue

Nestes dois anos que se seguiram ao assassinato da pajé Nega Pataxó, seus familiares têm feito o movimento de transformar a dor do luto em luta. Lutar para que este crime não vire estatística da covardia e da impunidade: mais uma pessoa indígena assassinada por fazendeiros na Bahia. Negam-se a romantizar sua morte, silenciar o trauma, preferem enfrentar a dor com indignação. Ao longo destes dois anos, os povos Tupinambá e Pataxó Hãhãhãe vêm lutando nos espaços públicos para chamar a atenção para a impunidade em torno desse crime e pressionar a justiça e o Estado a agirem, sobretudo através da Associação Paraguaçu de Mulheres Indígenas.

Desde o assassinato de Nega, mulheres da família e da comunidade movimentam-se num forte processo de luta política e espiritual. Se organizaram para manter viva a memória de Nega, para seguir com o importante trabalho de cuidado que ela fazia com as mulheres do território e para exigir justiça por esse crime bárbaro. A Associação Paraguaçu de Mulheres Indígenas, liderada por irmãs da pajé Nega Pataxó, numa aliança com o Laboratório de Pesquisas sobre Corpos, Naturezas e Sentidos (Lab. CONATUS/UFF) e com o coletivo Etinerâncias, organizou uma primeira Tenda de Cuidados em memória de Nega durante o ATL em Brasília, ainda em abril de 2024. Uma segunda Tenda aconteceu durante o ATL de Salvador, em novembro de 2024, e a mais recente na I Conferência Nacional de Mulheres Indígenas, em agosto de 2025, novamente em Brasília. Na plenária final deste evento, uma moção de protesto pela impunidade do crime foi aprovada, com a assinatura de quase 500 delegadas, exigindo a responsabilização de todos os envolvidos nesse crime.

O assassinato de Nega marcou profundamente a trajetória de luta das mulheres da Associação Paraguaçu. A brutalidade de sua morte não encerrou sua presença, dando origem a um movimento que transforma o luto em força coletiva. Irmã de Nega, Luzinete Pataxó, eleita em 2024 a primeira mulher indígena vereadora do município de Pau Brasil (BA), afirma que a associação já era um desejo compartilhado entre elas: “Foi um desejo também de Nega que a gente criasse essa associação. Ela teve participação no início”, lembra. Após a morte de Nega, a Associação Paraguaçu se fortalece como espaço de articulação política das mulheres. “A associação tem se fortalecido como luta mesmo: luta pelo território, luta pelos direitos, luta por justiça, luta por igualdade”, afirma Luzinete. Entre as prioridades, estão a incidência nas políticas públicas, a luta por justiça e a ampliação do protagonismo feminino dentro das próprias comunidades. “A gente quer estar incluída nas políticas públicas, quer visibilidade até dentro da comunidade, uma vez que todos os eventos antes eram organizados por homens.” A reorganização marca também uma inflexão nas formas de participação política. “Então, a gente decidiu que de agora em diante a gente vai lutar pelas nossas causas”, conclui Luzinete, situando a associação como um espaço de afirmação das mulheres indígenas e de continuidade da luta de Nega.

Da dor e da indignação, emergem práticas que reafirmam o cuidado como eixo político e espiritual das resistências femininas indígenas. As Tendas de Cuidado Pajé Nega Pataxó Hã Hã Hãe nasceram desse gesto de continuidade e memória. Co-criadas entre mulheres Tupinambá, Pataxó Hã Hã Hãe e aliadas, as Tendas são dispositivos ético-políticos de resistência e de honraria às mestras dos saberes tradicionais. Montadas em territórios e eventos de mobilização social e política indígena – como o Acampamento Terra Livre e a Marcha das Mulheres Indígenas –, as Tendas se tornam espaços de articulação e denúncia, onde a espiritualidade e a política se encontram na tessitura dos cuidados.

Sobrinha de Nega, Mônica Tupinambá relembra que a primeira tenda foi erguida apenas dois meses após seu assassinato. “Logo após a morte dela, dois meses, nós fomos para o ATL com essa primeira tenda de cuidados”, conta. Segundo ela, desde o início, a proposta ultrapassava a dimensão do cuidado. “Essa tenda não é uma tenda só de cuidados, nós usamos ela também como um pedido de justiça, né, pelo que aconteceu, o que fez com a minha tia.” Nos encontros e mobilizações, a tenda se consolida como um espaço de escuta, fortalecimento feminino e acolhimento. “Ali é um lugar de você ouvir, de acolher as pessoas que chegam. As pessoas que entram sempre falam: ‘eu passei aqui, eu senti de entrar’. É um lugar que te chama, é um lugar que te acolhe. E era isso que Nega era, uma mulher de acolher”, afirma Mônica.

Para ela, manter as tendas ativas é também uma forma de impedir que a morte da tia seja apagada ou reduzida a números. “A importância de nós estarmos fazendo esse trabalho é para que isso não venha cair no esquecimento, para que não vire só uma estatística. Eu não quero que a minha tia vire uma estatística”, diz. Mônica conecta o assassinato à escalada da violência contra os povos indígenas e às disputas em torno do marco temporal. “Esse marco temporal é um genocídio dos povos indígenas. É o massacre do século XXI. A partir do momento que eles aprovaram isso, foi quando aconteceu a tragédia. Aprovou, bum, mais um indígena morto”, denuncia. Para ela, trata-se da continuidade histórica da violência colonial: “Voltando ao massacre de 1500. Volta-se o massacre de 1500 para o século XXI.”

Mestra Mayá Tupinambá, irmã mais velha de Nega e professora visitante de Notório Saber na UFBA, conta que a morte da pajé não interrompeu sua atuação no território. “Nós estamos dando continuidade ao trabalho dela. Ela se foi, mas para nós ela ainda existe, ainda está aí”. Para Mayá, Nega deixou um legado de força espiritual, respeito e escuta dos ancestrais, que segue convocando o povo Tupinambá e Pataxó Hã Hã Hãe a se fortalecer coletivamente.

Ao falar da violência no campo, Mestra Mayá recorda que os indígenas não são agentes da morte, mas alvos dela: “nós nunca matamos nenhum fazendeiro e nenhum filho de fazendeiro, mas hoje jorra sangue pela terra que nós reivindicamos”. Segundo ela, grileiros, fazendeiros, madeireiros, garimpeiros e integrantes do grupo Invasão Zero têm aprofundado a violência nos territórios. A ausência de demarcações expõe cotidianamente as comunidades ao risco: “estão lá os nossos parentes morrendo, sangue jorrando como boi de corte, sendo assassinados hoje um, amanhã outro, amanhã outro, e a gente passando por agonias.”, denuncia. Ela amplia ainda o horizonte dessa luta, conectando a causa indígena a outras populações historicamente violentadas. “A injustiça ainda é muito grande com referência às nossas lutas indígenas”, afirma, lembrando que ela atravessa também quilombolas, populações negras, ribeirinhas e pessoas sem teto. “São povos que estão aí também reivindicando o seu direito, um lugar para morar.”

O Encontro de Mulheres, realizado no território Caramuru Paraguaçu, na aldeia do Ourinho, onde Nega morava, um ano após seu assassinato, constituiu outro marco nesse percurso de não deixar seu assassinato cair no esquecimento. Protagonizado por mulheres indígenas, o encontro reuniu lideranças de diferentes comunidades em um espaço de articulação política, cultural e espiritual, voltado ao fortalecimento da relação com a terra, à valorização da ancestralidade e à reafirmação do papel das mulheres na luta pelos direitos territoriais, pela memória e pela vida. Segundo Luzinete Pataxó, uma das organizadoras, a escolha do local foi também um gesto político: “A gente quis que esse Encontro de Mulheres fosse aqui justamente no território dela para que fosse, além de uma homenagem, um pedido de justiça pela sua morte”. Ela destaca que a Associação Paraguaçu de Mulheres Indígenas e a família seguem exigindo respostas do Estado: “A gente tem cobrado punição dos verdadeiros culpados pelo assassinato de Nega”.

Foi nesse encontro de mulheres, sob a atmosfera de indignação, dor e reconhecimento, que se iniciou o processo de realização do Podcast Nega Pataxó: nosso luto é luta.

Sobre o Podcast

Quais mortes nos autorizam a chorar? Quais vidas são reconhecidas em um mundo que silencia e interrompe a existência de mulheres indígenas? Que histórias serão contadas, que vozes serão ouvidas? Pronunciar nossas mortas é também afirmar suas vidas. Trazer à tona a memória viva de Nega – por meio de sua própria voz e das vozes de mulheres que a conheceram, caminharam com ela ou foram por ela tocadas – é um gesto de denúncia de sua morte e, ao mesmo tempo, de reconhecimento de sua vida.

Essas perguntas estiveram na origem da criação do podcast. Ao construir um chão feito de palavras, lágrimas e afetos, a série reinscreve Nega na memória coletiva. Ações, encontros e narrativas se trançam ao longo desse percurso como forma de sustentar a experiência, elaborá-la conjuntamente e impedir que o esquecimento se imponha. É uma proposição que é fruto de uma antropologia engajada, vivida no corpo a corpo com o mundo, no exercício de se importar com a vida umas das outras e de se implicar nos acontecimentos que testemunhamos.

Foi com esse compromisso que professoras, professores e estudantes da Universidade Federal Fluminense e da Universidade Federal da Bahia, em parceria com a Associação Paraguaçu de Mulheres Indígenas, a produtora Rádio Tertúlia e o Le Monde Diplomatique Brasil, se uniram à família para realizar a série em quatro episódios Nega Pataxó: Nosso Luto é Luta, lançada ao longo deste mês de janeiro de 2026, quando se completam dois anos de seu assassinato, nas principais plataformas de áudio, pelo Guilhotina, o podcast do Le Monde Diplomatique Brasil. A proposta recebeu o apoio do Pulitzer center através do Fundo Semear 2025.

Na COP30, a primeira escuta coletiva do Podcast foi marcada pela presença de Rita Tupinambá, pajé e irmã mais nova de Nega, com Claudelice Santos (irmã de José Claudio Ribeiro da Silva e cunhada de Maria do Espírito Santo, assassinados em 2011), Angela Mendes (filha de Chico Mendes, assassinado em 1988), Alessandra Sampaio (viúva de Dom Phillips, assassinado ao lado de Bruno Pereira em 2022) e Eliete Paraguassu (vereadora em Salvador, marisqueira e quilombola, ameaçada de morte).

Nega Pataxó: Nosso Luto é Luta se organiza em quatro episódios que articulam investigação narrativa, memória coletiva e análise política da violência fundiária no sul da Bahia. Ao acompanhar o assassinato da pajé e seus desdobramentos, a série tensiona a naturalização da morte indígena, interroga a impunidade e evidencia o protagonismo das mulheres como eixo da luta por território, por justiça e pela vida.

Eu entrego meu peito à lança (Episódio 1)

O episódio de abertura reconstrói o ataque armado ocorrido na Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu, situando o assassinato de Nega no interior de um processo histórico de esbulho territorial, judicialização dos conflitos e organização de milícias rurais. A partir de arquivos de imprensa, documentos históricos e testemunhos de indígenas que participaram da retomada e presenciaram a ação armada, o episódio desmonta a ideia de evento isolado e inscreve o crime numa economia política da violência no campo, na região sul da Bahia.

Nosso luto é luta (Episódio 2)

O segundo episódio desloca o foco para a experiência das mulheres da família e do território. Filha, irmãs, sobrinhas e parentes narram a dor da perda, mas também os modos de reorganizar a vida coletiva a partir dela. O luto aparece como prática política: memória, cuidado e mobilização se entrelaçam na construção de um campo de ação protagonizado por mulheres indígenas, no qual a luta por justiça se articula à continuidade do legado de Nega.

Eu sou Tupinambá guerreira (Episódio 3)

Conduzido pela própria voz de Nega, o terceiro episódio reúne registros realizados ao longo de sua trajetória recente. Neles, espiritualidade e política não se separam: o trabalho com mulheres, os cantos, o cuidado com a terra, os rituais e o enfrentamento da violência de gênero aparecem como dimensões de sua prática de luta. A pajé se apresenta como liderança que compreende o território como corpo vivo, e a defesa da terra como inseparável da defesa das mulheres.

Do corpo da terra (Episódio 4)

O episódio final acompanha os desdobramentos do assassinato e a emergência de uma ação coletiva sustentada pelas mulheres da Associação Paraguaçu de Mulheres Indígenas. A série percorre iniciativas de denúncia, construção de memória e articulação política, em diálogo com outras defensoras da terra. A luta por justiça se amplia e se conecta às urgências climáticas, afirmando uma política enraizada na relação entre corpo, território e cuidado – uma política que reinscreve Nega como presença ativa nos processos de organização e resistência.

Enfatizar o protagonismo das mulheres nos conflitos por terra e território, como fizemos neste podcast, é uma escolha política e epistemológica que amplia a compreensão da própria violência fundiária, tornando visíveis dimensões historicamente apagadas: o modo como a expropriação territorial e a colonização reconfiguram relações familiares, produzindo vulnerabilidades específicas que incidem diretamente sobre a vida das mulheres.

Três meses antes do assassinato de Nega, sua sobrinha Priscilla Xavier, mãe de cinco filhos, foi brutalmente assassinada dentro do território. O crime, marcado por requintes de crueldade, praticamente não teve repercussão nem investigação consistente. A sobreposição entre violência fundiária, racismo e violência de gênero atravessa os depoimentos deixados por Nega, quando ela fala de seu trabalho com mulheres indígenas e do enfrentamento cotidiano às agressões nas aldeias.

Em um dos trechos marcantes de uma entrevista que deu em 2022 para a antropóloga Olivia von der Weid, Nega afirmava: “se eu puder defender qualquer mulher, eu defendo. Com um pedaço de pau, com uma lança, com o que eu tiver na mão. Eu não vou deixar uma mulher apanhar encostada de mim, não. Ou apanha as duas, ou eu bato nele também.” Ao longo dos anos, Nega se fortaleceu como liderança espiritual e política, elaborando uma prática que aproximava a defesa do território, o cuidado com as mulheres e o enfrentamento ao patriarcado. Sua experiência ecoa formulações do feminismo indígena e do feminismo comunitário, que apontam como mulheres indígenas e camponesas enfrentam múltiplas violências enraizadas simultaneamente nos territórios, nos corpos e nas relações.

Nos encontros de mulheres, nas tendas de cuidado e nas articulações entre territórios, Nega é convocada como presença espiritual e comunitária. Sua história passa a operar como espelho e como motor da luta. A vereadora da cidade de Salvador Eliete Paraguaçu, liderança quilombola e marisqueira que esteve no Encontro de Mulheres no território de Nega, afirma que não há luta por justiça climática, por bem viver ou por território sem a centralidade das mulheres. “É pensar com as mulheres, construir com as mulheres, retomar com as mulheres.” Ao mesmo tempo, ela chama atenção para o custo desse protagonismo: “somos nós que estamos no front, somos nós que recebemos as ameaças.” Daí a insistência na construção de rodas, alianças e espaços de fortalecimento coletivo, onde a dor deixa de ser individual e passa a ser politicamente partilhada.

Dois anos depois, a memória de Nega Pataxó não se organiza apenas em torno da violência de sua morte, mas em torno daquilo que ela continua a produzir. Sua última imagem – o corpo estendido no pasto, o maracá ainda erguido – não é apenas vestígio da violência, é um acontecimento que desloca e instaura sentidos. Com um único gesto, política e ancestralidade se encontram, Nega recusa a condição de vítima, transformando a cena da sua morte em um chamado. Para Inaiê Tupinambá, sobrinha de Nega, aquele instante condensa uma mensagem que atravessa o tempo: “Quando ela morreu, que nós vimos aquela filmagem, o drone passando por cima, foi desesperador. E ela com a maraca dela pra cima. Naquele momento, eu ouvi e eu entendi a mensagem que foi passada por ela. E naquele auge da dor, do desespero, da aflição, da morte dela, ecoava uma voz dizendo: ‘não pare, continua lutando, não pare. Aqui só é o início, continue.’”

Segundo Inaiê, essa mensagem permanece gravada como impulso para seguir adiante. “E ficou guardado isso, gravado na memória, para a gente não parar. Porque, na verdade, é um luto, mas a gente nunca vai parar com essa luta. Possa ser que a gente vai adquirir novas estratégias, mas a luta não vai parar, porque ela vai estar sempre ali, entendeu? Tudo que ela passou, a dor que ela passou, tá ecoando no nosso coração, no nosso pensamento. Então, assim, não vamos parar de jeito nenhum.”

Ela relata que a morte de Nega produziu um movimento que ultrapassa o âmbito familiar e comunitário. “E foi um ímpeto. Às vezes a gente não entende e aí você vê que criou grande movimento, né? Através da morte dela. O trabalho dela, a força dela. Onde eu vou, o pessoal fala: ‘Ela era parente sua, aquela guerreira? Guerreira ela.’ Porque isso mexeu com todo mundo. Creio que foi com a humanidade, entendeu? Foi uma coisa muito grave.”

Esse movimento tem sido tecido principalmente pelas mulheres. Suas ações indicam que a luta pela terra não é apenas territorial, mas também corpórea. Ao mobilizarem memória, cuidado, espiritualidade, denúncia e organização política, elas constroem formas de resistência que não se limitam ao confronto direto, mas envolvem práticas de sustentação da vida, elaboração coletiva da dor e reinscrição da presença daquelas que seguem agindo no mundo por meio dos vivos.

A circulação da memória de Nega reinscreve sua luta em uma trama mais ampla de resistências femininas e territoriais. Presente no VIII Encontro de Pajés realizado na TI Caramuru Paraguaçu em 2025, Yashodan Abya Yala, liderança kilombola da Nação Muzunguê, afirma que a luta de Nega não pertence apenas ao passado e nem a um único povo. “Quando nasce uma mulher indígena, uma mulher quilombola, uma mulher dos territórios de enfrentamento, Nega nasce junto”, diz. Para ela, as mulheres gestam não apenas vidas, mas sonhos, coragem e futuros possíveis. “Do sul ao norte, a gente vive porque se inspira em Nega Pataxó. Ela não foi. Ela está aqui.”

Ao se encerrar neste 28 de janeiro, a série não se coloca como memorial conclusivo, ela passa a compor com esse campo de forças que foi aberto pela passagem de Nega. Uma escuta político-afetiva que desafia o apagamento, denuncia a impunidade, afirmando o protagonismo das mulheres indígenas como eixo político da luta por território, por justiça e pela vida. Em um país onde a violência contra povos indígenas se estrutura na normalização da morte e na ausência de responsabilização, trazer a voz de Nega e das mulheres que seguem com ela é interromper o silêncio. É afirmar que, onde houver resistência feminina, cuidado e luta, Nega Pataxó seguirá presente.

*Felipe Milanez é Antropólogo, professor da Universidade Federal da Bahia, coordenador do Grupo de Pesquisa em Ecologias Políticas; Olivia von der Weid é Antropóloga, professora da Universidade Federal Fluminense, coordenadora do Laboratório de Pesquisas sobre Corpos, Naturezas e Sentidos (LAB CONATUS); Daniela Duarte Lima é Psicóloga, doutoranda no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (Pós Cultura/UFBA)

Crédito: Reprodução/Uesb

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

quatro × três =