Lideranças indígenas globais firmam pacto contra mineração predatória e em defesa de povos isolados

Encontro na Indonésia reuniu comunidades da Amazônia e do sudeste da Ásia para a criação de rede internacional de proteção territorial

No Cimi

Representantes de povos indígenas de diferentes continentes reuniram-se, entre os dias 26 e 29 de janeiro, na capital da Indonésia, Jacarta, para o International Indigenous Knowledge Exchange and Solidarity Gathering on Nickel Mining, Territorial Defense, and Indigenous Peoples in Voluntary Isolation (Encontro Internacional de Intercâmbio de Conhecimentos Indígenas e Solidariedade sobre Mineração de Níquel, Defesa Territorial e Povos Indígenas em Isolamento Voluntário).

O evento, organizado pela Aliansi Masyarakat Adat Nusantara (AMAN), maior rede indígena da Indonésia, contou com a participação de delegações da América do Sul, incluindo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), por meio de sua Equipe de Apoio a Povos Livres (EAPIL).

O objetivo do encontro foi construir uma frente comum de resistência aos impactos da expansão global da mineração de níquel (estratégica para a transição energética) e reforçar mecanismos de defesa dos territórios tradicionais, com foco especial na proteção dos povos indígenas em isolamento voluntário.

Presente no evento, Gilderlan Rodrigues,  coordenador da EAPIL, destacou a importância do diálogo direto entre comunidades afetadas.

“Não se trata apenas de trocar experiências, mas de tecer uma rede de solidariedade que ultrapasse fronteiras. O que ocorre na Indonésia com a mineração de níquel tem espelho na pressão sobre as terras indígenas na Amazônia”, afirmou.

Participaram ainda organizações como a GTI-Piaci, rede sul-americana de proteção aos povos isolados e de recente contato, da qual o Cimi faz parte, e outras instituições internacionais parceiras.

Mineração e paradoxo da transição energética

Um dos eixos centrais do encontro foi a crítica ao modelo de transição energética baseado na intensificação da mineração em terras indígenas. Com a demanda global por níquel – usado em baterias de veículos elétricos –, nações como a Indonésia têm aberto novas fronteiras de exploração, muitas vezes em áreas protegidas ou de ocupação tradicional.

“Falamos de um mesmo roteiro de violação: concessões feitas sem consulta prévia, desmatamento, contaminação de rios e a ameaça direta a povos que escolheram viver isolados”, relatou uma liderança da AMAN.

Proteção aos isolados vira prioridade global

A situação dos povos em isolamento voluntário foi tratada como emergência internacional. Participantes relataram que, tanto na Amazônia quanto nas ilhas da Indonésia, a pressão mineral coloca esses grupos em risco iminente de genocídio e contato forçado.

A atuação conjunta de redes como o GTI-Piaci e a EAPIL buscou consolidar protocolos de proteção territorial que possam ser adotados por governos e organismos multilaterais. “A defesa desses povos é a medida da nossa humanidade. Se não garantirmos seus territórios, estaremos compactuando com sua eliminação”, enfatizou Rodrigues.

Carta de Jacarta e próximos passos

Ao final do encontro, as organizações presentes elaboraram uma declaração conjunta, chamada Carta de Jacarta, que será levada a instâncias como a ONU e a Organização dos Estados Americanos (OEA). O documento reforça a exigência de consentimento livre, prévio e informado para qualquer projeto em terras indígenas, a moratória de mineração em áreas de povos isolados e a criação de fundos internacionais para a vigilância territorial comunitária.

O grupo também aprovou a formação de uma força-tarefa indígena transcontinental, que dará continuidade ao intercâmbio de informações e apoiará campanhas de incidência política nos países envolvidos.

Para o Cimi, a participação no evento consolida um eixo de atuação internacionalizado. “Estamos fortalecendo alianças concretas na luta pelo Bem Viver, que só é possível com território protegido e justiça socioambiental”, concluiu Rodrigues.

Imagem: Representantes de povos indígenas de diferentes continentes reuniram-se, entre os dias 26 e 29 de janeiro, na capital da Indonésia, Jacarta. Foto: Divulgação/Cimi

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