“La solidaridad no es delito. Yo también lo haría”. (A solidariedade não é crime. Eu também faria isso).
Especial para Combate Racismo Ambiental
O que nos torna humanos? Morarmos em casas? Andarmos de carro? Falarmos? Computadores, roupas? O quê? Apesar de toda a complexidade que cabe nas nossas tentativas de responder a essa questão, talvez a solidariedade – ou a nossa capacidade de sermos solidários – seja um dos parâmetros essenciais sobre a quantas anda a nossa “humanidade”.
Somos compelidos a estender as mãos para alguém passando fome na nossa frente ou a uma criança machucada, também ajudando a senhorinha caída no meio-fio ou, até mesmo, como noticiado nessa semana, salvando um cão que desmaia por conta do calor. Somos gente. Somos humanos. Porém, o que está acontecendo nesses nossos tempos, onde a mídia, governos, Estados, elegem culpados e parecerem fazer de tudo para que nos distanciemos mais e mais dessa incrível capacidade que temos de abrirmos o coração e acolhermos, buscando formas de solucionar questões e ajudar a outras pessoas? Pessoas essas como os milhares de refugiados obrigados a fugirem de seus lares por conta da violência, fugindo da morte.
Lamentavelmente, dois mecanismos estão sendo utilizados para amortecer o coração das pessoas: alçar os refugiados à condição de bodes-expiatórios e culpados de mazelas de toda espécie e a criminalização de gente que tenta ajudar gente. Esta semana (27), na Grécia, Mikelon Zuloaga e Begoña Huarte (ele da Bizkaia e ela de Navarra, na Espanha), membros do Fórum Social Permanente, foram presos sob a acusação de terem escondido oito refugiados. Eles têm 12 dias para pagarem 2 mil euros de fiança.
A promotoria grega alega que os dois auxiliaram a imigração ilegal (algumas mídias independentes noticiam que a denúncia também é feita como se os dois estivessem traficando pessoas); junto a isso, se imputa a ambos o fato de serem “negligentes” com a vida dos refugiados, que são do Paquistão, Síria, Iraque, Afeganistão e Irã. Uma das pessoas refugiadas é uma mulher transexual que fugia do Paquistão.
Os ativistas gravaram um vídeo – antes de embarcarem para a Grécia na tentativa de ajudarem refugiados – onde reconhecem a ilegalidade de sua ação e reivindicam a mesma como um ato de desobediência civil, calcado na solidariedade e na defesa dos direitos humanos, tendo caráter de denúncia das injustas políticas adotadas pela União Européia. “Nosso dever é criar pontes que rompam as fronteiras que dividem o mundo”, explicam Begoña Huarte e Mikelon Zuloaga em entrevista à Pikara Magazine.
No vídeo, Zuloaga destaca que “assume as consequências de sua iniciativa” e deixa claro que a chegada de imigrantes e refugiados nas fronteiras da União Europeia é “uma barbárie comparável a outros extermínios da história”. Ele também destaca que “os governos europeus transformaram as fronteiras em espaços de morte, prisão e desumanização para milhares de pessoas”. Zuloaga salienta que as pessoas de boa fé têm o direito de desobedecer ajudando pessoas diante do desrespeito dos governos para com os direitos humanos.
Não é a primeira vez que acontece a prisão de gente que tenta ajudar aos refugiados na Grécia. Em janeiro, três bombeiros de Sevilha (Espanha), da ONG Proem Aid, foram presos por prestarem ajuda a um barco avariado que navegava em águas internacionais. A promotoria grega acusou Manuel Blanco, Julio Latorre e José Enrique Rodriguez de tráfico humano, dentre outras coisas. Os três estão em liberdade após o pagamento de uma fiança de 15 mil euros.
Na ocasião, conforme relato dos bombeiros, eles ajudavam refugiados na praia da ilha de Lesbos (Grécia), quando receberam a notícia de que uma embarcação estava afundando mais para dentro do mar. Eles decidiram tentar ajudar e saíram em busca do bote; porém, acabaram presos pela policia portuária. Passaram duas noite na cadeia acusados de tráfico ilegal de pessoas. O processo contra os três bombeiros segue na justiça grega e eles podem ser condenados a 4 anos de prisão, caso venham a ser jugados culpados.
Existe um outro triste momento na nossa história recente (entre 1939 e 1945) onde pessoas eram criminalizadas e presas por ajudarem a “ilegais”. Oskar Schindler talvez seja um dos nomes mais emblemáticos associados a esse período tenebroso. A menina Anne Frank, “ilegal”, talvez uma das mais conhecidas.
A História é construída por todos e todas nós. Diariamente. Não podemos e nem devemos ser as pessoas que passam e viram o rosto quando alguém como Luiz Carlos Ruas é espancado e morto. Ou quando pessoas como os três bombeiros, ou como Mikelon e Bego são presos. Seres humanos não são ilegais. Estender a mão não é errado. Solidariedade não é crime. Eu também faria isso. E você?
Que a gente não repita. Que a gente não permita.
–
Fontes:
Abaixo-assinado à Justiça Grega pela liberdade de Mikelon e Bego:
https://www.change.org/p/justicia-griega-libertad-para-mikelon-y-bego-31fc8ef5-bbd1-4a87-972a-fd6e4967dfab
Entrevista com Begoña Huarte e Mikelon Zuloaga – em espanhol: http://www.pikaramagazine.com/2016/12/entrevista-bego-mikelon-activistas-refugiados/
“Los activistas detenidos en Grecia quieren convertir el País Vasco en “tierra de acogida” para refugiados”
http://www.elmundo.es/pais-vasco/2016/12/28/5863dced468aeba97c8b46b5.html
“Los tres bomberos españoles detenidos en Lesbos quedan libres”: http://politica.elpais.com/politica/2016/01/16/actualidad/1452947260_909126.html?rel=mas
“En libertad bajo fianza los dos españoles detenidos en Grecia por ocultar a ocho refugiados”: http://politica.elpais.com/politica/2016/12/30/actualidad/1483099973_542022.html
