A canalhocracia e os direitos sociais

Por Wagner Giron de la Torre, no Justificando

Como bem salientado pelo jornalista Kiko Nogueira, o ambiente de deboche, canalhice saltitante e impunidade foi bem representado na dancinha, sob a música “tudo está no seu lugar” de Benito Di Paula, pelo deputado federal do PMDB, Carlos Marun, um dos baluartes da defesa mercenária em prol da manutenção de Michel Temer no poder nesta última semana.

Causa espanto – e essa sensação tem de ser objeto de reflexão – a frouxidão de ânimo, a letargia da grande massa popular em relação ao escárnio triunfante no país nestes tempos de destruição das estruturas básicas dos direitos sociais como saúde pública, educação, previdência, direitos trabalhistas, direitos dos servidores públicos, enfim.

Há muito pouco tempo, e por muito menos, a classe média, recoberta com o manto “impoluto” das camisas da CBF e seguindo o grande pato amarelo da FIESP e MBL, bateram panela, esbravejaram de elevadores às avenidas de Brasília, passando por todas as capitais nas passeatas dos domingos, exigindo o “fim da corrupção”.

No tocante ao governo oligárquico que substituiu o deposto pelas manifestações mencionadas, ainda que notoriamente atolado no pântano da corrupção que caracteriza boa parte da cúpula empresarial brasileira, e, em que pese o cenário de escancarado deboche aos anseios populares, não se ouve mais os panelaços e apitos da horda que seguia, tão feliz, o pato da FIESP e MBL.

Quais serão os motivos para se esquecer as panelas nos desvãos dos condomínios fechados?

Como é possível aceitar de maneira tão mansa esse processo de golpes e aniquilação aos direitos sociais implementado pelo governo oligárquico e em tão pequeno espaço de tempo, a ponto de mandar para o espaço direitos trabalhistas mínimos como jornada de 8 horas, direito a ao menos 1 hora de almoço, 13º salário e tantos outros, ou mesmo aceitar, tão impassivelmente, um governo enfronhado em denúncias graves de corrupção propor projetos, diga-se de passagem repetidamente defendidos pela mídia empresarial, que visam destruir o sistema previdenciário conquistado, com muito sacrifício, pelas gerações passadas.

Pela ótica dos pobres, nunca houve no Brasil um governo que, em tão pouco tempo, conseguisse destruir tantos direitos básicos, ligados visceralmente a uma promessa de existência digna de vida às massas trabalhadoras em tão curto espaço de tempo.

Para justificar a destruição do sistema previdenciário, tanto governo como grande imprensa alegam déficit fiscal, falta de recursos públicos, entre outros mitos, Todavia, no consumo de bilhões de reais na compra escancarada de votos na Câmara esta semana, não se percebe, principalmente nos ex-paneleiros, a indignação que destilavam em meio a seus perdigotos no tempo das “pedaladas fiscais”, justificantes de seus berros pela deposição do governo anterior.

Além de vermos, abestalhados, o desenrolar de um duro golpe nas estruturas democráticas do país, assistimos, com a mesma estupefação, a aniquilação dos direitos sociais fundamentais nesse ambiente de escárnio.

Todo o esforço investido nesse processo de flexibilização de aportes estruturais do Estado de Direito empreendido, como correia de transmissão do golpe, por segmentos significativos do Judiciário, Ministério Público e grande mídia, a pretexto de “extirparem o mal da corrupção”, levou o País a um cenário de ruína, de pioras democráticas e destruição de setores importantes da economia.

Resta-nos a imagem da dança infame do deputado pemedebista Carlos Marun como ponto de reflexão necessária para tentarmos compreender como foi possível chegarmos tão baixo em termos de utopias republicana e civilizatória, e pensarmos em não votar jamais em políticos ligados a partido algum que tenha emprestado seu voto na manutenção desse quadro de menosprezo pela democracia nas próximas eleições. Mesmo no escombro, nosso voto ainda é uma das armas mais preciosas que nos sobraram.

Wagner Giron de la Torre é Defensor Público no Estado de São Paulo, atuando na Defensoria Regional de Taubaté.

Destaque: Tempestade de raios na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Raio cai no prédio do Congresso Nacional, após uma forte chuva no centro da capital. 06/03/2009. Foto: Dida Sampaio, AE

 

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