A corrida armamentista e o colapso da segurança pública no Rio de Janeiro

O poder público segue apegado à estética do confronto armado e à retórica vazia da supremacia material

Roberto Uchôa de Oliveira Santos, no Le Monde Diplomatique Brasil

A dinâmica da segurança pública no Estado do Rio de Janeiro consolidou-se, ao longo das últimas décadas, como um laboratório trágico de políticas alicerçadas na militarização e no uso ostensivo da força. A recente assinatura de um contrato, superior a R$ 70 milhões, para a aquisição de um helicóptero militar bimotor modelo Sikorsky UH-60 Black Hawk por parte do governo fluminense, destinado à Polícia Militar, materializa a persistência dessa doutrina. Sob o pretexto oficial de prover equipamentos blindados que garantam o transporte tático e a superioridade em áreas conflagradas, a administração estadual reitera um fetichismo tecnológico obsoleto. Em um cenário contemporâneo onde a guerra assimétrica urbana foi radicalmente reconfigurada pela apropriação de drones pelas organizações criminosas , a aquisição de maquinário bélico pesado da era da Guerra Fria não apenas evidencia um profundo anacronismo tático, mas escancara um modelo de gestão que produz letalidade e o esgotamento fiscal do Estado.

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Sopravento: crise política e conflito social no Brasil pós-2013

Para o alto; e o que parecia corpóreo derreteu-se como um respiro no vento.
Como teria sido…” 
Macbeth, Ato 1, Cena 3 

No Blog da Boitempo

Sopravento: termo náutico que designa o lado de onde sopra o vento. Mais do que uma posição, é uma orientação: agir a partir das forças em jogo – não apenas respondendo a elas, mas tentando conduzi-las. 

Medir forças: quando, em uma comunidade política, a liberdade da forma se separa da liberdade do conteúdo, isso sinaliza ao Estado a necessidade de determinar. O Estado passa a agir como se estivesse em guerra – ainda que latente – contra si mesmo. No principado civil, a censura à “liberdade de conteúdo” é o indício dessa passagem. Junho de 2013 permanece como ponto de inflexão da crise política brasileira. O biênio 2013-2014 revelou simultaneamente a emergência do conflito social e o medo de suas consequências, em um processo marcado por sincronismo e massificação inéditos. Já em 2015-2016, esse conflito é contido e deslocado: o protagonismo das ruas passa a grupos de direita emergentes, culminando no impeachment de Dilma Rousseff – aceito sob a promessa de “esfriar as ruas”. O resultado foi um governo profundamente impopular, sustentado menos por consenso do que por exaustão. 

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Caso Master: como investigações conectam a CPMI do INSS e a CPI do Crime Organizado 

Em frentes diferentes de atuação, comissões chegam aos mesmos atores e empresas ligados ao banco de Daniel Vorcaro

Por Isabel Seta | Edição: Ludmila Pizarro, Agência Pública

De um lado, a Operação Sem Desconto, iniciada em abril de 2025, uma investigação da Polícia Federal (PF) e da Controladoria Geral da União (CGU) sobre fraudes no INSS, que levaram a desvios de pelo menos R$ 6,3 milhões de aposentados e pensionistas desde 2019. De outro, a Operação Carbono Oculto, deflagrada cerca de quatro meses depois, protagonizada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) e pela PF sobre a infiltração do PCC no mercado financeiro, que expôs o uso de postos de combustíveis e fundos de investimento para lavar dezenas de bilhões de reais em dinheiro ilícito.

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Misoginia digital: o ataque às mulheres como tática política

Por Thais Klein, no blog da Boitempo

Estamos em ano de eleição, abrimos as redes sociais e somos invadidas por inúmeras notícias de feminicídios e outras violências generificadas – isto é, violências cuja motivação atravessa a questão de gênero. Não é mera coincidência: o discurso de ódio, sobretudo contra mulheres (cis e trans), caminha lado a lado com formas contemporâneas de autoritarismo e com a própria lógica de funcionamento da internet. A internet, tal como a vivemos hoje, é um espaço-tempo visceral: o tempo se condensa em um “tempo real” contínuo, e o espaço perde atrito – de um afeto ao outro, o deslocamento é imediato. A parada se dá quando uma imagem é eleita como um alvo sobre o qual pode-se descarregar.  

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Eleições: ainda é possível salvar a Amazônia?

Com Lula, desmatamento recuou de modo sensível – mas ainda insuficiente. Pior: Congresso está a um passo de lançar blitzkrieg contra a floresta. Uma grande mobilização social pode impedi-la e livrar o Legislativo das bancadas da devastação

Por Luiz Marques*, em Outras Palavras

Um ponto de não retorno em uma floresta é o ponto em que sua resiliência é vencida pela combinação das pressões que se exercem sobre ela. No caso da Amazônia, essas pressões são a supressão, degradação e fragmentação do tecido florestal, os incêndios, a biodiversidade, o empobrecimento dos solos, as secas, as inundações, tudo isso agravado pelas mudanças climáticas. Uma vez vencida essa resiliência, a floresta transita rapidamente para a morte ou para outro estado de equilíbrio, muito adverso à sua permanência.

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6×1: A pressão que falta sobre o Congresso

Análise compara os dois projetos de redução da jornada em tramitação. Três problemas podem impedir que eles assegurem proteção jurídica para efetivar mudanças e favorecer chantagens patronais. O que aprender de experiências da França e Reino Unido

Por Edvaldo Fernandes da Silva, em Outras Palavras

Introdução

Desde o ressurgimento do movimento sindical no país nos anos de 1970, em parte como causa e efeito do exaurimento do Regime Militar deflagrado em 1964 e apeado em 1985, o número de sindicatos cresceu perto de 50% até 1989 (Cardoso, 2003).

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Cerimônia celebra formatura com mais de 30 mil alfabetizados no campo e periferias do país

Atividade acontece no próximo sábado (28), no Ginásio de Esportes Geraldo Magalhães, em Recife (PE), com a expectativa de reunir cerca de 7 mil pessoas

Por Gustavo Marinho, da Página do MST

Como parte das Jornadas de Alfabetização realizadas nos últimos meses nas áreas de Reforma Agrária e nas periferias do país, o próximo sábado (28) será marcado pelo ato simbólico de formatura de aproximadamente 30 mil educandos e educandas, representados nas 7 mil pessoas presentes no ato.

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Tem início o 15º Acampamento Estadual das Mulheres do Campo e da Cidade na Bahia

Mais de 600 mulheres camponesas, indígenas, quilombolas e trabalhadoras da cidade se reúnem em Salvador para três dias de organização, formação e luta

Por Coletivo de Comunicação do MST na Bahia, na Página do MST

Com o lema “Mulheres vivas! Enfrentando as violências, defendendo o território e a soberania”, teve início na manhã desta quinta-feira (26), o 15º Acampamento Estadual das Mulheres do Campo e da Cidade, na capital baiana. A atividade reúne mais de 600 mulheres vindas de diversos territórios do estado e segue com a programação até o próximo sábado (28).

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O amor como ética pública e resistência. Entrevista com Patricia Simón

Conversamos com a repórter internacional Patricia Simón sobre como sobreviver emocional e politicamente num mundo onde o ódio e a desumanização são impostos, e sobre o ecofeminismo como um baluarte contra a onda reacionária que busca nos destruir

IHU

Patricia Simón Carrasco (Estepona, 1983), repórter, jornalista investigativa, escritora e professora universitária, é uma das figuras de destaque do jornalismo internacional na Espanha. Especializada em direitos humanos, conflitos armados e crises humanitárias, sua carreira inclui cobertura em mais de 25 países (Palestina, Ucrânia, Irã, Colômbia, Cuba, Iraque, Moçambique, Sudão e Líbia, entre outros), e seu trabalho pode ser acompanhado em veículos como La Marea, Revista 5W, Cadena SER, El País, Al Jazeera, Univision, Il Corriere della Sera e Associated Press.

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Lideranças Pataxó e Tupinambá denunciam perseguição e violações de direitos humanos ao Alto Comissariado da ONU

Delegação presente em Brasília denuncia aumento da violência e criminalização do povo Pataxó, que luta há anos pela demarcação de suas terras no extremo sul da Bahia

Por Clara Comandolli e Tiago Miotto, do Cimi

No dia 24 de março, terça-feira, uma delegação com 81 indígenas dos povos Pataxó e Tupinambá esteve em Brasília, em audiência com representantes do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), para denunciar situações de violência e perseguição sofridas pela população das Terras Indígenas (TIs) Comexatibá, Coroa Vermelha e Barra Velha do Monte Pascoal, situadas no extremo sul da Bahia. As principais denúncias, no contexto da luta do povo Pataxó pela demarcação de suas terras, apontam violência e perseguição por parte de milícias locais, além da criminalização de lideranças por forças policiais, por meio de medidas consideradas arbitrárias.

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