Universidade Federal do Pará forma a primeira aluna indígena em Biomedicina

Por Elisa Vaz, da UFPA

Recentemente, a primeira mulher indígena concluiu a graduação na Universidade Federal do Pará, no curso de Biomedicina. Eliene Rodrigues Putira Sacuena, da etnia Baré, nascida em Santa Isabel do Rio Negro no Amazonas, ingressou na Universidade por meio das Políticas Afirmativas de Cotas e contou com o apoio do Núcleo de Inclusão Social (NIS/UFPA), da Pró-Reitoria de Ensino e Graduação (Proeg), para sua permanência com qualidade no ensino superior. Agora, a estudante é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Antropologia.

“Eu cursei Biomedicina com muita dificuldade, assim como qualquer outro indígena quando entra na universidade. Nós temos um problema sério no ensino fundamental e no ensino médio e, quando entramos na Universidade, sentimos essa dificuldade pedagógica e o nosso modo de viver muda completamente. Com essas dificuldades, uma grande maioria desiste dos cursos”, afirmou Eliene Sacuena.

A biomédica falou sobre as dificuldades enfrentadas durante sua graduação, como a barreira atitudinal evidenciada pelo preconceito em relação à sua cultura. “Sofri muito preconceito por parte de alguns professores, mas também recebi muito apoio de outros. Uma dessas professoras me disse que eu não iria contribuir com nada na Universidade e que o meu povo não tinha influência. A partir disso, eu reforcei a ideia de não desistir, porque esse preconceito me ajudava a estudar ainda mais, para provar que nós, povos indígenas, temos condições de estar em uma Academia”, disse Eliene.

Produção de conhecimento – A mestranda destacou a importância da Graduação em Biomedicina para a sua comunidade e o povo indígena, principalmente como um incentivo para atrair outros estudantes para a Universidade. “Eu terei que aprender até onde posso ir, como biomédica, na minha cultura, porque, para o meu povo, eu continuo sendo quem sou e não muda o fato de ser biomédica. O que muda é a questão da confiança que eles têm no meu aprendizado. Eles sabem que esse conhecimento não vai prejudicá-los. Então, agora, a sociedade pode olhar para nós de uma forma diferente”, afirmou.

alindO Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Eliene foi feito com a comunidade dos indígenas xikrin, na Serra dos Carajás, em Parauapebas. “Eu viajei com uma equipe multiprofissional da Universidade e, lá, nós percebemos que não é diferente de outras aldeias e que existe a mesma problemática. Além disso, também percebi a confiança em permitir que a coleta de material biológico seja feita por outro indígena, e eu recebi um atendimento diferenciado.”

Apesar disso, Eliene também destaca que a maior dificuldade de realizar o TCC foi buscar referências indígenas. “Nós começamos a perceber que o indígena precisa ocupar esses lugares, com mestrado e doutorado, para que os próximos não tenham a mesma dificuldade que eu tive.”, afirmou. Na pesquisa do mestrado, Eliene irá tratar do câncer em mulheres indígenas na Amazônia, por ser uma situação de necessidade. “Essa ideia surgiu da própria viagem, quando eu fiz um trabalho multiprofissional e vi a deficiência na comunidade. O projeto de mestrado busca analisar as problemáticas por meio do meu TCC.”

Apoio – Segundo a mestranda, uma das grandes influências em sua vida acadêmica foi o apoio da Proeg, que abriu o diálogo para atender às demandas indígenas quanto às necessidades formativas por meio das ações do NIS, e o apoio da Proex, com o acesso à Bolsa Permanência. Eliene afirmou que um dos principais problemas é a falta de acompanhamento.É nesse ponto que entra o NIS, que ajuda os estudantes que querem manter uma boa média. “Você consegue avançar quando começa a ouvir os estudantes indígenas. E a Universidade tem tudo para crescer a partir do momento que respeita a diversidade dentro dela.”, destacou.

Ações afirmativas – A UFPA possui o Programa de Ação Afirmativa de Cotas para Estudantes Indígenas, aplicado desde 2008. Essas ações afirmativas são atos ou medidas especiais e temporárias, tomadas ou determinadas pelo Estado, com o objetivo de eliminar desigualdades historicamente acumuladas, garantindo a igualdade de oportunidades e tratamento, assim como de compensar perdas provocadas pela discriminação e marginalização, decorrentes de motivos raciais, étnicos, religiosos, de gênero e outros.

Percebendo a deficiência dos estudantes indígenas na educação básica, a Proeg implementou um programa de tutoria para indígenas e quilombolas, o PETQI, realizado no início do curso, o qual concede os conhecimentos necessários para que eles se formem. Essa tutoria acontece no Instituto de Ciências Biológicas (ICB), já que a maior demanda indígena é na área da saúde. “O projeto busca diminuir a evasão e melhorar a permanência deles na Universidade. Não é um curso de nivelamento convencional, mas ele dá subsídios para que eles tenham um grau de autonomia”, afirmou a professora Lúcia Harada, Pró-Reitora da Proeg.

Foto: Adolfo Lemos

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