Bispo rebelde da Patagônia visita um dos maiores conflitos por água e terra no Chile

“Nunca imaginei este nível de depredação”, assinalou Luis Infanti, Bispo da região de Aysén (Patagônia Chilena), em visita na província de Petorca, onde há mais de uma década camponeses sofrem pela falta de água para seus cultivos e para o consumo humano, causada pela ação expropriatória do agronegócio nesse território

Por Alexander Panez Pinto* – CPT

O Bispo Luis Infanti tem sido reconhecido no Chile como um firme defensor das causas do povo da Patagônia. Foi um forte opositor do projeto “HIDROAYSEN”, que pretendia alagar 5.910 hectares para a construção de uma usina hidrelétrica com capacidade de 2.750 MW, com impactos sociais e ambientais devastadores para o território. Infanti também acompanhou e defendeu o povo patagônico que se levantou no ano 2012 contra a exclusão territorial que historicamente tem vivenciado e que levou a uma dura repressão por parte do Estado. Seu compromisso com as lutas socioambientais ficaram registradas na carta pastoral “Danos Hoy el Agua de cada día”.

Esse compromisso levou o Bispo Infanti a visitar outras lutas sociais que estão acontecendo no Chile. Na semana passada, o Bispo esteve na província de Petorca, um dos epicentros dos conflitos por água e terra no país. Petorca, uma província rural localizada no centro do país (a 250 km de Santiago), há mais de uma década vivencia uma “escassez” de água, politicamente produzida e economicamente conveniente.

Milhares de famílias durante anos têm sido abastecidas do elemento vital através de caminhões pipa e são impossibilitadas de cultivar seus alimentos e criar animais pela falta de água. Os principais responsáveis são os empresários do agronegócio (principalmente produtores de abacate para exportação), que não só se conformam com acumular os direitos de outorga da bacia dos rios Ligua e Petorca, e, além disso, constroem poços e drenos ilegais para incrementar a acumulação de água.

Este roubo de águas, que inclusive envolve políticos nacionais, é amparado pelas autoridades e justificado pelo modelo mercantil de águas que existe no país a partir da ditadura civil-militar. Vale lembrar que no Chile, os particulares que têm direitos de água outorgados pelo Estado são reconhecidos como proprietários desses direitos, o que dá a possibilidade de que eles possam vender, comprar ou alugar direitos de água como se fosse qualquer outra mercadoria.

O Chile é o único país do mundo que tem privatizado não só as empresas de grande impacto na dinâmica hídrica (hidroeletricidade, abastecimento de água potável e saneamento), mas também a propriedade das fontes de água. Uma grave consequência dessa legislação é que estabelece uma separação entre propriedade da terra e propriedade da água.

Nesse contexto, o Bispo Infanti, acompanhado pelos militantes do Movimento de Luta pela Água e a Terra (MODATIMA), constatou a gravidade da situação que atinge o povo desse território. “Nunca imaginei este nível de depredação”, foi o que Infanti comentou logo depois de andar por rios sem água, hectares de terras camponesas secas e sem cultivos e de escutar os dramáticos depoimentos das famílias. Mas o paradoxo foi mencionado pelo próprio Bispo ao visitar as piscinas acumuladoras de água do agronegócio: “há abundante água neste território, só que está mal distribuída”.

A visita do Bispo foi um reforço para a luta cotidiana que os movimentos e comunidades fazem contra o despojo. Uma das reflexões do Bispo que marcou os vizinhos e camponeses foi que “a realidade não é casualidade, que existam povos marginalizados, que se roube a água ou que se use a água tirando a possibilidade da vida a muitos povos, não é casualidade… É fruto de um sistema muito planejado, friamente calculado”. É contra esse sistema que continuamos em pé de luta.

*Integrante do Movimento de Luta pela Água e a Terra (MODATIMA, Chile) e membro do Coletivo Laboratório de Estudos de Movimentos Sociais e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense (LEMTO-UFF).

Foto: Piscina acumuladora de água, no município de Petorca. E dreno ilegal construído pela empresa agrícola Liguana, no município de Cabildo, Petorca. Crédito: Arquivo MODATIMA.

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