Risco de câncer de pele é sete vezes maior em trabalhadores expostos a agrotóxicos

É o que mostra pesquisa inédita do Instituto Nacional do Câncer (Inca), vinculado ao Ministério da Saúde. A descoberta reforça a demanda, urgente, pela produção agroecológica

por Cida de Oliveira, da RBA

A exposição excessiva aos raios solares, principalmente entre as 10 e 16 horas, é a maior causa do câncer de pele –  o tipo de maior incidência no Brasil. No entanto, uma pesquisa concluída recentemente no Instituto Nacional do Câncer José de Alencar (Inca), vinculado ao Ministério da Saúde, sugere que que os agrotóxicos podem estar muito mais envolvidos no surgimento da doença do que se pensava.

Ainda em fase de avaliação para publicação em revistas científicas especializadas no tema, o estudo acompanhou mais de 300 agricultores de Nova Palma (RS), localizado a 308 quilômetros a oeste de Porto Alegre. A agricultura, especialmente a produção de frutas, com utilização de agrotóxicos, é a base econômica do município.

“A pesquisa detectou que 17% dos agricultores estão expostos a agrotóxicos. Mas a descoberta mais interessante é que a presença de lesões precursoras do câncer de pele é sete vezes maior entre os agricultores expostos ao Paraquat”, explica a epidemiologista da Unidade Técnica de Exposição Ocupacional, Ambiental e Câncer do Inca, Fernanda Nogueira.

O herbicida Paraquat está entre os agrotóxicos mais perigosos. Trata-se de um composto altamente tóxico, que ao ser ingerido ou inalado ataca gravemente todos os tecidos do organismo.

Exposição solar

“O dado se confirmou mesmo com o controle do principal fator de risco, que a exposição solar. Ou seja, o risco era aumentado mesmo entre os trabalhadores menos expostos aos raios solares.” Para obtenção dos resultados, foram utilizados modelos estatísticos que levaram em conta, entre as variáveis, o maior e o menor tempo de exposição.

Os pesquisadores ainda não sabem dimensionar o impacto sobre a saúde a partir da combinação desses fatores de risco, que se inter-relecionam entre si.

O câncer de pele é o de maior incidência no Brasil. Se for detectado precocemente, as chances de se espalhar e invadir outros órgãos (metástase) serão bem menores.

“A exposição solar já é um fator altamente importante. E se você acrescenta a exposição ao agrotóxico, há uma multi-exposição aos agentes causadores da doença”, disse Fernanda, que esteve em São Paulo no última sexta-feira (5), em programação da 2ª Feira Nacional da Reforma Agrária, realizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

O Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos, utilizando mais de 1 milhão de toneladas por ano. É como se cada brasileiro recebesse um galão com mais de 5 quilos de veneno para ir tomando ao longo do ano. Além do câncer de pele de tantos outros tipos, esses produtos causam malformações congênitas, alterações endocrinológicas associadas a problemas reprodutivos e, como afetam vários órgãos, causam diversas outras doenças. Estudos recentes associam agrotóxicos a quadros de depressão e até ao autismo.

Sem contar as intoxicações agudas. Como dificilmente é feito o nexo causal entre a doença e o agroquímico, o número de mortes é subnotificado. O Ministério da Saúde estima que apenas um em cada 50 casos é registrado.

Para Fernanda Nogueira, do Inca, estimular a agroecologia é a melhor alternativa de enfrentamento aos agrotóxicos – FLICKR/MST

Agroecologia

Para a epidemiologista do Inca, a saída é o banimento dos agrotóxicos, o que parece praticamente impossível devido à hegemonia do agronegócio no atual Ministério da Agricultura. A pasta, comandada pelo latifundiário Blairo Maggi, acelera a tramitação de projetos de lei reunidos no chamado Pacote do Veneno, que facilitam o registro de novos produtos, estimulando o aumento do consumo, ao mesmo tempo que revogam a atual legislação e reduzem as informações aos consumidores. É o caso da retirada do selo que informa a presença de transgênicos na formulação.

O apoio à agroecologia – uma vertente agronômica que articula técnicas ecológicas de cultivo com sustentabilidade social – é a principal saída para o enfrentamento ao atual modelo de produção com utilização de agroquímicos.

“É nosso papel também subsidiar os municípios para que façam essa transição da agricultura convencional para a agroecológica. Mas tem de ter mais pressão, mais mobilização popular. A participação é fundamental, como já preconizam os fundamentos do SUS”.

Fernanda deposita esperanças também em um grupo de trabalho (GT) dentro do Ministério da Saúde constituído para estudar os impactos da pulverização aérea de agrotóxicos. “A proposta é trabalhar em evidências cientificas para barrar. Para isso, vamos desenhar um estudo capaz de avaliar esse impacto, algo como criar uma ‘atmosfera laboratorial’. É lógico que o estudo vai demorar ainda, mas ter o GT é uma perspectiva de avanço. Além disso, temos de pensar em estratégias de comunicação, fazer vídeos, pressionar a Anvisa a banir os agrotóxicos já banidos em outros países.

Imagem: Segundo a pesquisa do Inca, a exposição a agrotóxicos aumenta o risco de câncer de pele mesmo quando o trabalhador fica por menos tempo ao sol – HARRY VANDER WUL/FAO/ONU.

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