Historiadora fala sobre a riqueza do patrimônio imaterial indígena

Por Sucena Shkrada Resk/ICV

O Instituto Centro de Vida (ICV) inicia uma série de entrevistas com o objetivo de apresentar o universo indígena, no recorte cultural e de direitos, que dialogam com a justiça socioambiental, em um momento político e em um cenário com um modelo econômico, nos quais existe uma pressão cada vez maior sobre estes povos. Só no Estado do Mato Grosso, são mais de 42,5 mil indivíduos de 43 povos, segundo o Censo Indígena de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A historiadora Thereza Martha Presotti, do Departamento de História/ETRÚRIA-Laboratório de Estudos da Memória, Patrimônio e Ensino de História da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em entrevista especial ao ICV, explica a importância do respeito ao patrimônio imaterial destes povos, com destaque a etnias que vivem na Bacia do Rio Teles Pires, na região norte mato-grossense divisa com o Pará, e explica o efeito da destruição das corredeiras de Sete Quedas. Ela é responsável pela “Exposição Itinerante do Patrimônio Imaterial de Mato Grosso: diversidade cultural e educação patrimonial”, em cartaz até 13 de junho, no Centro Cultural, na Praça do Avião, em Alta Floresta, no norte mato-grossense. O evento é um projeto de extensão de ação afirmativa da Pró-Reitoria de Cultura, Extensão e Vivência e Coordenação de Extensão (PROCEV/CODEX) da instituição e tem acervo do Museu Rondon de Etnologia e Arqueologia da instituição.

Thereza destaca: “…Apesar de todo o desrespeito ao patrimônio imaterial dos indígenas, que se sustenta na terra e águas onde convivem, é impressionante a capacidade de resistência e sobrevivência destes povos diante das situações de contatos e projetos colonizadores, que a cada dia invadem e causam impactos socioambientais….”.

Confira a íntegra da entrevista:

ICV – O que significa patrimônio imaterial indígena?

Thereza Martha Presotti – Na definição da UNESCO, órgão mundial promotor da Cultura, patrimônio imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados e que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos, reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural.  Cecília Londres, estudiosa do patrimônio cultural, em publicação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), também destaca que são as práticas e os objetos por meio dos quais os grupos se representam, realimentam e modificam a sua identidade e localizam a sua territorialidade. O que se chama popularmente de raiz de uma cultura.

Já a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha também esclarece que o patrimônio imaterial se compõe de recriação permanente que tem a ver com um sentimento de continuidade em relação às gerações anteriores, ou seja, que ele é ao mesmo tempo dinâmico e histórico; e que suas condições de reprodução, dependem entre outras coisas, do acesso a território e a recursos naturais. (Revista do IPHAN, nº 32, Patrimônio Imaterial e Biodiversidade 2005: 15).

O patrimônio imaterial abrange as dimensões da complexidade das culturas, nas suas diversas cerimônias com seus cantos e danças, nos rituais cotidianos dos modos de preparar e obtenção de seus alimentos (caças, pescas e roças), as línguas e tantos outros saberes; as dimensões do sagrado que mantêm essências de ser e de se expressar, os diversos lugares como cachoeiras e pedras míticas que remetem às cosmologias de origens. Os animais e plantas são seres míticos e mágicos, conectados nesta rede da vida e da cultura.

ICV – Qual o peso cultural do patrimônio imaterial para um povo (etnia)?

Thereza Martha Presotti – Como podemos perceber, este patrimônio tem uma grande importância, sim, para os povos indígenas, sendo condição primeira as suas terras e os recursos que nela existem, pois é a própria expressão da vida dos povos indígenas! É tudo que se materializa nos artefatos e práticas com as danças, as pinturas corporais, os rituais, os modos de preparar os alimentos; enfim, tudo está ligado ao imaterial, ao simbólico, à espiritualidade e identidade destes povos.

A terra indígena com seus rios e cachoeiras e lagoas, as florestas ou cerrados e pantanal, toda a biodiversidade nestes ambientes (que foi, inclusive fruto de manejos milenares); as montanhas, os animais e o próprio céu, ventos e demais manifestações da natureza têm dimensões que vão além da percepção da sociedade capitalista, que vê a terra ou toda a natureza somente como recursos ou bens materiais.

ICV – Você pode dar um exemplo?

Thereza Martha Presotti – Um cesto cargueiro do povo Nhambiquara, por exemplo, que para um olhar superficial parece ser um simples cesto, é elaborado por todos que aprendem a fazê-lo desde crianças. Expressa a medida ideal do que a cada pessoa pode ter na vida e consegue carregar, demonstrando que precisamos do essencial para viver.  Este cesto é “o ápice da imaterialidade indígena”, assim expressou um jovem aluno de escola pública de Brasília que fez o curso de guia de educação patrimonial, quando montamos a EXPOIMAT em parceria com a UnB, (agosto, 2015), e ele mediava uma visita a seus colegas, na Exposição itinerante no Centro de Cultura da América Latina (CAL) da UnB.

ICV – Com o passar do tempo, então, estes patrimônios são ressignificados?

Thereza Martha Presotti – Estas práticas e saberes sobrevivem e resistem. Mesmo que com algumas atualizações ou ressignificações, devido às dinâmicas históricas; são vigentes nas raízes das diversidades culturais indígena e brasileira, em especial nas comunidades tradicionais ribeirinhas e sertanejas, que também hoje estão nas periferias das cidades. Portanto, costumo dizer que para os povos indígenas, o patrimônio cultural imaterial é a própria vida das comunidades, as expressões de suas culturas que fundamentam e dão sentido e significado à identidade dos indivíduos e coletividades em suas terras e aldeias.

São muitos os jeitos de ser e viver de ancestralidade indígena, que sequer nos damos conta. Basta lembrar da mandioca e do milho tão importantes na dieta alimentar da população; e o preparo de beiju, tão ‘na moda’ nos dias atuais, que desde épocas iniciais da colonização, salvou muitos (e ainda salva) grande parte da população da fome. Também o modo de fazer as canoas e pescarias e receitas de preparar os peixes são patrimônios preciosos aprendidos com os indígenas. Estas práticas e saberes sobreviveram ou resistiram.

ICV – No Norte mato-grossense, na Bacia do rio Teles Pires, vivem povos Munduruku, Apiaká e Kaiaby. Pode dar exemplos de patrimônios imateriais dessas etnias?

Thereza Martha Presotti – Nesta região, há um rico conjunto diversificado de patrimônios imateriais próprios de cada etnia, fruto de experiências bem antigas naquelas terras e águas, de épocas de seus ancestrais míticos e bem anteriores das frentes colonizadoras extrativistas da borracha, madeiras, minérios e mais recentemente as usinas hidrelétricas. Estes povos vivem neste ambiente natural e social, produzindo suas culturas, seus modos de viver, diretamente ligados ao rio Teles Pires e outros menores rios formadores e afluentes, bem como toda biodiversidade associada às águas e florestas.  

Com relação aos Munduruku, povo de tradição guerreira, que vivem nas fronteiras das águas do Teles Pires e Tapajós, segundo estudos de Marcelo Manhuari Munduruku na Universidade Intercultural Indígena (UNEMAT, 2015), podemos destacar as pinturas corporais, formas de expressão de beleza especial que são como roupas sob suas peles, identificando grupos clânicos e familiares, além dos significados simbólicos em contextos rituais ou lutas políticas.

Dos Apiaká, todo um acervo de saberes e práticas ligadas ao rio e aos peixes, desde a própria origem mítica deste povo associada a um peixe. O modo de fazer a canoa e as pescarias são um saber importante, pois além da sustentabilidade alimentar, permite o entrelaçamento pelo rio entre as aldeias em suas trocas solidárias e festividades coletivas.

Para os Kaiaby a floresta e o rio e igarapés estão entrelaçados, também compõem uma rede de lugares fundamentais de onde tiram suas sementes, plantas medicinais e fibras para os lindos trançados.

Com certeza, o rio Teles Pires, que não por acaso ganhou o nome de um militar que fazia estudos geográficos em fins do século XIX e representante da colonização, tem nomes que remetem a significados ‘outros’.

ICV – Todos estes povos destacam a importância das corredeiras de Sete Quedas, que não existem mais, após a implementação da Usina Teles Pires. O que pode dizer a respeito?

Thereza Martha Presotti – As corredeiras que conhecemos como ‘Salto das Sete Quedas” deveria ser profundamente respeitada, reverenciada como um lugar de patrimônio imaterial, por ser espaço sagrado onde vive a “mãe do peixe” e enterravam seus mortos. Apesar de toda sua relevância, este lugar mítico e de sustentabilidade fundamental foi destruído, após a implementação da Usina Teles Pires, restando a memória de uma grande dor e perdas imensuráveis para a continuidade da vida de todas as comunidades que ali vivem.

ICV – Quais são as possíveis consequências, quando um patrimônio imaterial é destruído?

Thereza Martha Presotti – As consequências destrutivas para o rio Teles Pires (neste trecho), que afetam diretamente as comunidades indígenas e ribeirinhas, já vinham sendo anunciadas desde o início dos empreendimentos hidrelétricos que estão sendo implementados. Além da UHE Teles Pires, a São Manoel, em fase de construção. Sem dúvida, já se apresentam catastróficas e podem piorar. Junto ao profundo desrespeito que desconsiderou por completo a importância de Sete Quedas como um lugar de patrimônio imaterial, um espaço sagrado, sendo ali a morada da “mãe do peixe”; o que se desconsiderou foi todo um modo de viver dos povos Apiaká, Kayabi e Munduruku. 

Além de profanação de um lugar sagrado, onde também enterravam seus mortos e reverenciavam os ancestrais, este lugar é uma base mítica de sustentação de toda uma relação imaterial e material com o rio. O impacto atingiu a ‘alma’ destes povos.  Sabe-se ser lá também local para desova dos peixes, e não é por acaso que é considerado o lugar da “mãe do peixe”. Ao “matá-la”, se mata a continuidade de se ter este alimento no sentido material e imaterial! É muito grave o que está sendo feito em nome do “desenvolvimento energético” na Amazônia, entendem?

Segundo Darlisson Apiaká, estudante indígena que participou tanto do debate a respeito do Complexo Teles Pires e questões relacionadas aos povos indígenas na Semana dos Povos indígenas na UFMT, em abril deste ano, e que foi convidado para proferir palestra no curso de Patrimônio Imaterial Indígena, os peixes estão sendo decepados nas usinas, já não tem mais onde desovar e procriar. As aldeias vão ficando vazias.

ICV – Como o homem ‘branco’ pode auxiliar na preservação dos patrimônios imateriais indígenas? Por favor, dê exemplos.

Thereza Martha Presotti  – Apesar de todo o desrespeito ao patrimônio imaterial dos indígenas, que se sustenta na terra e águas onde convivem, é impressionante a capacidade de resistência e sobrevivência destes povos diante das situações de contatos e projetos colonizadores, que a cada dia invadem e causam impactos socioambientais.

O que os “brancos” ainda podem fazer? Poderíamos começar imaginando se um povo invasor chegasse e destruísse as nossas igrejas ou templos evangélicos e nossos cemitérios. Importante se colocar no lugar dos “outros”. Esta pode ser uma maneira de refletir e sentir o que esses empreendimentos fazem, como neste caso da destruição do salto de Sete Quedas.

Podemos ter esperança de um futuro de respeito verdadeiro à diversidade das culturas que habitam o território brasileiro? Creio que está na hora de parar com a invasão e destruição das terras indígenas, e construirmos relações de respeito com as nações, algo como construir uma política de relações interculturais, respeitando as fronteiras das terras e saberes indígenas.

Como estou na atuação do campo educacional, na formação de professores de história, creio que um caminho fundamental e importantíssimo é a conscientização de nossa história e realidade de maneira crítica e sensibilizadora. Conhecer o patrimônio imaterial dos povos indígenas é um caminho sensibilizador. Se aprendêssemos a respeitar e ouvir seus cantos, seus mitos, suas sensibilidades nas relações com a natureza, seria diferente? Ainda tenho esperança de achar caminhos de tocar os corações das pessoas pelo respeito às diferenças. Na construção deste respeito, é preciso conhecer outros projetos de vida sustentáveis, outras formas de uso da energia que vão bem além da satisfação material, acessar a imaterialidade e a espiritualidade da vida.

ICV – Professora, então, tem esperança?

Thereza Martha Presotti – Sim, tenho esperança na educação sensibilizadora, sendo ela uma porta importante para contribuir em sensibilizar profundamente os educadores que educam as gerações atuais e futuras. Será que se os engenheiros, empreiteiros e governantes que tomam decisões em nosso país, tivessem sido sensibilizados quando crianças quanto ao respeito aos saberes e formas de viver dos indígenas, poderia ser diferente hoje?

Importa saber ainda, que apesar de nossas diferenças, somos uma mesma humanidade, temos um futuro comum, e que estamos todos no mesmo grande barco: o Planeta Terra! O conteúdo deve ser no sentido de mobilizar urgentemente o respeito à diversidade cultural; e neste caso, a educação patrimonial que sensibiliza a respeito ao patrimônio imaterial tem muito a contribuir para esta nova consciência.

 

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