Painel Debate Mudanças Climáticas e a Cidade do Rio de Janeiro

Juliana Torres – RioOnWatch

Na última semana, entre os dias 6 e 10 de junho de 2017, aconteceu a XXI Semana do Meio Ambiente da PUC-Rio organizada pelo Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente da PUC. Apresentando ciclos de palestras, debates e oficinas ligadas a sustentabilidade, todas as atividades eram abertas ao público. O evento contou com a participação de voluntários e organizações ecológicas que auxiliaram na organização e na promoção dos eventos.

O painel que finalizou a Semana do Meio Ambiente foi realizada em parceria com a Virada Sustentável Rio de Janeiro com o tema da Mudança Climática e a Cidade do Rio de Janeiro. O diálogo ressaltava o impacto nas cidades por meio de questões diversas que, apesar de ser de extrema relevância no presente e no futuro, continua sendo um tema muito pouco explorado no cotidiano pela população. Podemos observar exemplos de cidades ao redor do mundo que estão se adaptando para se tornarem mais resilientes, sustentáveis e ainda oferecer qualidade de vida e bem-estar para seus habitantes, com desenvolvimento econômico baseado em economia verde e tecnologias inovadoras. Com a realização de eventos climáticos cada vez mais intensos e frequentes, o painel abordou como o Rio de Janeiro estaria também se preparando e apresentou estudos de casos com soluções para os desafios que se apresentam: aumento das temperaturas urbanas, impactos na saúde, elevação do nível do mar, dentre outras.

Para apresentar o projeto, o painel reuniu pesquisadoras representando a cidade do Rio de Janeiro que fazem parte da Urban Climate Change Research Network, ou UCCRN (Rede de Pesquisas em Mudanças Climáticas Urbanas) que foi fundada a partir da segunda conferência da C40 Cúpula Climática de Grandes Cidades em Nova York em 2007. As participantes eram Cecilia Herzog, professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Rio; Maria Fernanda Lemos, diretora e professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Rio; Martha Barata, professora e pesquisadora da Fiocruz; e Flavia Carlone, Coordenadora de Sustentabilidade e Resiliência da Prefeitura do Rio de Janeiro.

Durante a palestra elas apresentaram o projeto em que colaboraram auxiliando representantes e indivíduos a administrar questões ambientais através da construção e do fornecimento de ferramentas públicas, como relatórios oficiais disponibilizados na página da Rede de Pesquisas em Mudanças Climáticas Urbanas da Universidade de Columbia e divulgaram os dois relatórios oficiais ARC3 que documentam cidades que realizaram ajustes para se adequar às mudanças climáticas. A organização tem como objetivo auxiliar na gestão do risco climático para a saúde da população e potencializar ações de mitigação: “possuímos um arsenal de informações, temos o bastante, mas não usamos”, disse Martha.”As cidades são diferentes apesar de haver meios de comunicação simultâneos que nos permitam interagir, mas precisa haver núcleos regionais que monitorem (as cidades) para a população local usar os dados.”

O painel teve enfoque no mal planejamento urbano que não responde às intempéries naturais relacionando o conhecimento científico sobre mudanças do clima e a saúde urbana. Ressaltaram o exemplo da enchente que ocorreu em Nova Friburgo em 2011 e que acarretou muitas mortes e desabrigados, tiveram todos os seus serviços (água, energia, transporte, telecomunicação) prejudicados e seis meses depois, foram contatados casos de dengue e leptospirose, normalmente consideradas raras na região. “Precisamos ampliar a percepção das pessoas sobre a vulnerabilidade do meio que vivemos”, ressaltou Martha. O projeto reforça que saúde é o bem estar físico, mental e social dos indivíduos, não a ausência de doença ou enfermidade. Com isso, o sistema de saúde compreende todas as organizações, instituições e recursos destinados a atuar com o objetivo de melhorar, manter e restaurar a saúde da população. Para cultivarmos cidades sustentáveis, precisamos nos basear em três pilares: social, ambiental e econômico. A saúde (física, mental e social) esta intrínseca aos três, e o clima é um fator de risco que afeta todos esses núcleos.

Flávia Carlone ressaltou que “precisamos quebrar o paradigma de que as iniciativas da prefeitura são dos governantes. Elas são do Estado para a cidade”. Segundo ela, seria árduo negociar e controlar acordos em escalas maiores como convenções internacionais, pois prefeitos e suas cidades conseguem melhor interação por questões diplomáticas. “Há diferenças sazonais dentro do mesmo território. Temos dificuldade em segmentar e agir e não podemos ser imediatistas, pois há fatores como ondas e ilhas de calor, enchentes, diferenças em relevos. E pela cidade [do Rio de Janeiro] estar situada na costa, há muitas adversidades no território. Precisamos incluir o risco climático no planejamento estratégico. Precisamos entender como as pessoas e as comunidades respondem e como a resiliência funciona em diferentes contextos: cidade, comunidade e no nível individual.”

Cecília Herzog apresentou o quadro sobre biodiversidade e ecossistemas urbanos, falando da vegetação, solo e áreas cobertas por águas que se encontram em áreas urbanas e periurbanas, em múltiplas escalas; e a ecologia urbana que busca caminhos para mitigação de cidades baseada nos ecossistemas. Para adaptar, precisamos nos adequar, reintroduzir a natureza à cidade implantando infraestrutura verde: “natureza é para se aprender a conviver, não controlar”. Podemos aproveitar as condições naturais do nosso contexto geográfico, ela insistiu que “devemos manejar e utilizar as águas da chuva, não drenar como se pensa comumente”.

Para finalizar o painel, Maria Fernanda Lemos apresentou como estudo de caso a Vila dos Atletas, conhecida como Ilha Pura, situada na Zona Oeste do Rio, um modelo insustentável e desadaptado. As tecnologias construtivas empregadas foram inadequadas para o ambiente natural, e foi prejudicado também o contexto social, pois desabrigou moradores da região. Agravou a segregação social e físico-territorial. A região onde foi implementada a Vila é de grande fragilidade ambiental, sendo uma área extremamente alagadiça que antigamente abrigava um pântano. “Na Zona Sul, foram realizados, há muito tempo, os aterramentos. Não tínhamos condições de fazer o mesmo no Centro Olímpico. As obras afogaram ainda mais a região. Foi necessário um consumo excessivo de energia e recursos para as obras.”

O painel apresentou a importância da coesão em todas as fases e diretrizes de planejamento, especialmente em comunidades e favelas, regiões fragilizadas, que muitas vezes carecem de mobilidade urbana, serviços públicos, frequentemente com alta densidade e baixa qualidade ambiental e desconectadas de outras regiões da cidade. Também apresentaram modelos de ação contra desastres naturais que ocorrem com ou sem as mudanças climáticas, que com adaptações poderiam reduzir a vulnerabilidade. Pois é possível tomar atitudes em áreas de risco sem investir muito, usando dinâmicas de construção privada.

Ao final da apresentação, foram abertas perguntas à plateia. Uma espectadora moradora de favela comunicou que “muitos estão cientes da fragilidade do ambiente em que vivem, sabem das condições, mas dependem infelizmente de esferas políticas para tomar iniciativas em relação ao mal planejamento urbano das comunidades”. As apresentadoras realçaram a importância de eventos como essa palestra, para além da Semana de Meio Ambiente e Virada Sustentável, pois para indivíduos estarem a par de soluções sustentáveis em todas as escalas, é necessário expandir o conhecimento e gerar debates e conversas, para buscar melhores soluções para a ecologia urbana.

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