“Tiririca dos Crioulos: um quilombo-indígena”: para nós, presentes; para a comunidade, reconhecimento e justiça

“Sempre a gente teve história pra contar, mas não tem quem ouvir” (Vera de Manoel Miguel).

Tania Pacheco – Combate Racismo Ambiental

Como isso acontece cada vez mais raramente, sinto um prazer especial quando me deparo com um texto, seja ele de que tipo for, e simplesmente não consigo parar de ler. Pois isso acaba de acontecer com relação a um livro lançado esta madrugada: Tiririca dos Crioulos: um quilombo-indígena.

A escolha do horário, meia-noite, tem explicação: é a hora em que a comunidade do quilombo que fica em Carnaubeira da Penha, interior de Pernambuco, dá início ao ritual do Toré e da Gira, toda última sexta-feira de cada mês. Hora de homenagear os Encantados e de pedir que eles “guiem a Tiririca de um buraco [como dizia a comunidade] para um mundo de possibilidades e direitos inerentes”. E assim está sendo feito. 

O livro pode ser baixado AQUI

O livro tem 60 páginas, com fotos, mapas e desenhos coloridos, começando por um sumário que já nos faz ter vontade de quero mais. Promete que o texto vai falar de território (‘rodeado de serras e com jeito próprio de se organizar’), de cultura, do bem precioso que é a água, das trocas e partilhas, do trabalho coletivo. Situado o presente, é hora de enveredar pelos caminhos da história: falar das origens dos primeiros moradores, das raízes e “troncos velhos.  E aí buscar a sabedoria dos Antigos, dos Mais Velhos. Ouvir das rezas, benzedeiras e benzedores, partos e parteiras, até a história dos rituais, do toré e da gira. É quando se dá a volta ao hoje, para as festas e celebrações, o terreiro e o artesanato.

Dito assim pode parecer pouco, mas garanto que é um presente pra gente não se arrepender de baixar. Aliás, para quem sente também a necessidade do meio físico, impresso, há uma promoção que pode ser acessada AQUI e que promete sorteio dos volumes para o 21 de março, Dia Internacional Contra a Discriminação Racial.

Mas tem mais! O problema (ou a vantagem?) é que, à medida que fui lendo, descobri outras riquezas, algumas das quais este blog havia inclusive anunciado, mas que confesso deixei de verificar. Perdi! Há diversos vídeos com depoimentos curtos das pessoas da comunidade, registro de gravações de cantos e pelo menos um com a equipe da Universidade da Paraíba que participou dessa beleza de trabalho. Alguns postarei abaixo, outros poderão ser acessados a partir de links.

Há ainda outro presente especial, lançado (e por nós timidamente anunciado) no ano passado: a documentação sonora de Tiririca dos Crioulos. São dois CDs, acompanhados de um encarte com informações preciosas, registrando, respectivamente, os Benditos dos Santos e as Linhas de Toré e Gira. incluindo os pífanos que acompanham as novenas. Os links para eles estão já aqui:

Reconhecimento e justiça

Mas o mais importante não é nada disso, apesar das informações socializadas e da beleza que esses conhecimentos nos trazem. O que importa mesmo é resultado desse trabalho para a comunidade, em termos de conscientização de seu valor cultural, da importância de seus conhecimentos e de suas heranças e identidades. Seu próprio valor. Antes, era o ‘buraco’, como eles diziam. Agora, as coisas, mudaram. Segundo Alecsandra dos Santos Sá, coordenadora local do projeto, isso fez com que as pessoas se valorizassem mais: “Depois dele, as pessoas [dizem]: ‘Ah, eu sou é negra. Eu sou é quilombola mesmo!’ As  pessoas perderam o medo de dizer que era negro”.

Tudo isso num momento de negação de direitos, exclusão e ameaças aos territórios indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais, como destaca Nivaldo Aureliano Léo Neto, que coordena o projeto junto com Larissa Isidoro Serradela, ambos da Universidade Federal de Paraíba. Diz ele que “a população do quilombo, que sofreu décadas de marginalização, passou a se valorizar e a enxergar o potencial de suas tradições. O próprio nome do projeto sugere uma mudança de ‘estado de espírito’ em que os membros do quilombo viviam antes do início da ação e como se sentem agora”. (…) “A gente vê os jovens com um fôlego tremendo. Daqui a alguns anos, vamos perceber os grandes impactos que esta mudança terá na localidade”.

Mas em meio à festa do lançamento e a tantas vitórias, ele lamenta: pouco disso será visto pela comunidade. A internet não chegou ainda a Tiririca dos Crioulos. A exclusão também é digital.

De qualquer forma, vale registrar que o projeto, que tem página também em rede social (Do Buraco para o Mundo), não acabou. Novas demandas surgiram e, já em janeiro, a equipe deu início a uma nova etapa: a da “Museologia Social”. A comunidade quer agora destacar os dois Museus que mantém: o Centro Espírita Preto-Velho Canzuá do Velho Xangô e o Museu do Futebol. Como disse Vera de Manoel Miguel, “Sempre a gente teve história pra contar, mas não tem quem ouvir”. Agora tem!

E antes de mostrar os dois vídeos prometidos e o link para a página do projeto, vale checar as palavras de Alecsandra através de um pequeno texto da própria comunidade, se apresentando no livro:

Tiririca dos Crioulos

O nosso território está situado no pé da Serra do Arapuá, a 20 quilômetros da sede do município de Carnaubeira da Penha, sertão pernambucano.

Nossa comunidade é formada por cerca de 60 famílias, ligadas umas às outras através da história, do parentesco e da relação afetiva com o nosso território, que é coletivo.

O nosso território é um quilombo, pois os primeiros habitantes daqui, nossos ancestrais, eram negros e negras que viveram a escravidão no sertão do São Francisco, forçados pelos brancos a trabalhar em suas terras, cuidar de seu gado e de suas casas. Esse território tem uma origem distante, há mais de cem anos, contada pelos nossos mais velhos a partir da chegada de Pinto Madeira e Helena. Falaremos dessa história mais para frente.

Nossa comunidade se chama Tiririca dos Crioulos por dois motivos: o primeiro nome, Tiririca, tem origem no capim da região, que possui esse nome. O capim Tiririca, assim como nós, é forte, fica sempre verde mesmo nas épocas mais secas e difíceis. E o segundo nome, Crioulos, era o nome dado pelos brancos aos negros. Nossos vizinhos brancos, como forma de preconceito, sempre nos chamaram de “negro da Tiririca”, como se fosse uma coisa ruim. Hoje afirmamos nosso nome, Tiririca dos Crioulos, como forma de combater essa discriminação, esse racismo.

Além do povo negro, nossa comunidade também traz em sua origem o povo indígena. Ao longo dos anos, nossos vizinhos Pankará da Serra do Arapuá foram se casando com negros e negras da Tiririca, por isso nos identificamos como um quilombo-indígena.

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Maria de Ginu aprendeu com…. from Do Buraco ao Mundo on Vimeo.

 

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A página do projeto na internet é esta: Tiririca dos Crioulos: um quilombo-indígena. Nela podem ser encontrados outros vídeos, os cds e o livro, além de informações e links para contatos com a equipe.

 

 

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