2019: que país será esse?

A RBA ouviu gente das mais diversas áreas sobre expectativas, receios e anseios para o ano que se inicia. De nossa parte, continuaremos na trincheira do jornalismo em defesa da democracia

Por Cláudia Motta, da RBA

O ano de 2019 promete, só não se sabe bem o quê. Como em toda virada de ano, a expectativa é grande, mas nesta, especialmente, os receios também são muitos. A eleição de Jair Bolsonaro, diante de suas promessas de campanha e da composição da equipe com que pretende governar o Brasil, provoca temores em setores essenciais para o país e para qualquer sociedade que se pretenda civilizada, moderna, desenvolvida.

RBA ouviu profissionais e pessoas atuantes nas mais diversas áreas para saber o que esperam para este ano que se inicia. Confira aqui essa chuva de ideias, propostas, críticas e, claro, de esperança para que a vida siga em frente e seja boa para todos. 

A equipe da RBA – ao lado das parceiras Rádio Brasil Atual e TVT – continuará na trincheira da comunicação de qualidade, com informação voltada à defesa da democracia, dos direitos dos trabalhadores, dos movimentos sociais, de um país forte, soberano e socialmente justo. Que venha 2019!

Comunicação

“Bolsonaro, ao longo da sua trajetória, sobretudo nos últimos anos, tem reiterado as declarações de desapreço pela liberdade de expressão, tem buscado se estabelecer como um concorrente aos atores jornalísticos, tem se colocado numa mediação direta com o público. Nesse sentido, ele busca concorrer tanto com a imprensa tradicional quanto com a imprensa independente. E tem tido um histórico junto com seus seguidores de perseguição aos jornalistas”, diz o jornalista Rodrigo Ratier, professor na Faculdade Cásper Líbero, e colunista do blog Universa, do UOL

“Não vejo também boas perspectivas no sentido do uso republicano dos recursos públicos para os veículos de comunicação, muito menos para o fortalecimento de uma imprensa independente. Acho que vamos ter um retorno a práticas clientelistas. Já temos visto privilégios a determinadas emissoras de TV como Record, SBT e Rede TV no sentido de exclusivas e de possibilitar a entrada com mais facilidade em coletivas. Acho que existe uma tendência a ele montar um biombo de veículos que são confiáveis a ele com postura chapa branca”.

Ratier observa que toda cobertura minimamente crítica a Bolsonaro e seu grupo tende ser retoricamente tachada de fake news. “Isso o liberaria para criar suas próprias versões, a tal realidade alternativa, que tem sido trabalhada por exemplo pelo Trump, a quem atribuo a inspiração para o Bolsonaro”, define. “Assim, há um desafio gigante que é cobrir o Bolsonaro e lidar com suas cortinas de fumaça para desviar o assunto do que realmente precisa ser coberto, do principal. Vai ser importante identificar essas estratégias, de que maneira ele constrói seu discurso, explicitar isso e não se deixar capturar por essa lógica.”

Para o professor, o Brasil entra num período em que o discurso jornalístico volta a ganhar relevância. “O jornalismo sério, independente, que não seja hiperpartidarizado, esses veículos vão ser beneficiados pela busca por uma maior sobriedade, independência, multiplicidade de fontes e devem ser reconhecidos pelo público que buscar informação.

Ainda na seara da mídia, o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, Paulo Zocchi, concorda que fazer jornalismo será um dos grandes desafios de 2019. “Há uma grande pressão contra a liberdade noticiosa, contra o trabalho jornalístico sério, contra a própria liberdade de expressão”, diz.

Zocchi acrescenta ainda uma forte preocupação com o futuro da profissão. “As entidades sindicais já se preparam para aumentar sua capacidade de organização para defender o exercício do jornalismo e para defender o jornalismo contra a violência tanto institucional quanto a oriunda dos conflitos que o governo Bolsonaro promete promover socialmente”, afirma o dirigente sindical, que teve entre os principais enfrentamentos do ano a situação da editora Abril.

A empresa que edita Veja e Exame, depois de fechar mais de uma dezena de revistas, promoveu um série de demissões em massa e deixou centenas de famílias de trabalhadores sem receber seus direitos – momentos antes de recorrer a um processo de recuperação judicial que culminaria com a sua venda. “Defender os jornalistas é também defender o jornalismo, porque o jornalismo profissional só é feito se o jornalista tem condições materiais concretos de desenvolver um trabalho tendo uma vida digna.” 

Presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, entidade que ao lado dos Metalúrgicos do ABC mais investiu em democratização da comunicação e do acesso à informação na última década, a bancária Ivone Silva acredita que a Rede Brasil Atual, a Rádio Brasil Atual e aTVT terão grande importância na promoção de uma imprensa livre, de esquerda, em defesa da democracia, dos movimentos sociais e também do movimento sindical.

“Na atual situação, diante um presidente eleito que defende não termos democracia, liberdade, muito próximo aos militares, de já beirar o fascismo por suas declarações contra minorias, é fundamental ter uma imprensa livre que mostre o outro lado. Que mostre que os movimentos sociais são organizações dignas ao organizar o povo para lutar por seus direitos. O MST está lutando pela terra, agroecologia, manejo sustentável da terra e segurança alimentar. O pessoal do movimento de moradia quer ver a função social da propriedade, o direito à moradia e à cidade serem respeitados conforme determina a Constituição. E o movimento sindical precisa exercer seu papel histórico de defender os trabalhadores”, afirma.

Arte e cultura

“Sinto meio que entrando numa nuvem de fumaça, sem uma visão exata do que tem nessa virada de ano. Não é um ano que está muito claro na minha cabeça em relação a tudo; em relação ao trabalho, porque agora provavelmente o audiovisual vai sofrer. A cultura vai sofrer, a gente está ciente disso. Não estou conseguindo ter uma clareza no que vai vir”, diz a atriz Pally Siqueira, 26 anos, conhecida pelo trabalho em Malhação, da Rede Globo.

“É muito louco, até pela minha juventude, por ser jovem, por querer ter essa pressa de ter um futuro logo, claro, na frente. Nem parece que vai ter virada de ano. Até com meus amigos, conversando, todo mundo fala a mesma coisa: vai ser um ‘ano incógnita’. Um ano em que a gente tem de se unir, se organizar. Principalmente o pessoal da arte, da cultura, para que as coisas possam fluir de alguma forma.”

Os abalos previstos para o setor de audiovisual também estão entre as preocupações da cineasta Tata Amaral, diretora do recém-lançado longa-metragem Sequestro Relâmpago, e de mais de duas dezenas de trabalhos aclamados, como Antonia, Trago ComigoHoje e Céu de Estrelas. “O que eu espero para 2019 é que a gente consolide e garanta a diversidade no audiovisual. Essa diversidade e pluralidade cultural, o fato de o Brasil ter muitas cores, muito sotaques, é uma das nossas maiores riquezas. Expressar isso através da nossa cultura, e em especial do nosso audiovisual, tem sido um dos maiores desafios”, acredita.

Além disso, é preciso assegurar o acesso ao público, seja por meio de quais veículos, as “janelas”, esses trabalhos cheguem. “O grande desafio do audiovisual no ano que vem é garantir e consolidar as políticas que já foram implantados e tornar o VoD (o video sob demanda em plataformas como Youtube e Netflix) uma nova janela para nossa cultura. A gente quer contar nossas histórias para o nosso público.”

O sambista carioca Tomaz Miranda vê os desafios de um processo de resistência também como uma oportunidade de evolução e fortalecimento. “Acho que vai ficar mais aguda a tentativa de apagamento, de desconstrução da cultura popular, principalmente ligada às origens africanas, às manifestações culturais, religiosas e sociais verdadeiramente populares do Brasil”, acredita o autor do samba-enredo História pra Ninar Gente Grande, que será defendido pela Mangueira no Carnaval de 2019. “Mas acho que ao mesmo tempo essas manifestações vão ter papel fundamental para poder driblar todo autoritarismo e o conservadorismo que a gente vai enfrentar nesses próximos anos.”

Para ele, nada é uma coisa só, tudo é contradição, e as coisas não são monolíticas. “Você tem frestas nas estruturas. E é justamente nessas frestas que a gente vai fazer a festa. Essa coisa de fazer a festa na fresta quem fala é um amigo meu que é historiador, o Luiz Antônio Simas, é uma metáfora bem bonita. A gente tem que fazer mais festa ainda a partir do ano que vem, e a gente não faz festa porque a vida é boa. A gente faz festa porque a vida é dura. E a gente precisa da festa justamente por causa disso.”

O carnaval, para Tomaz, é uma das maiores expressões populares do brasileiro e tem um papel fundamental. “Acho que o samba da Mangueira em especial e o desfile da Mangueira, o enredo, vão ter um papel fundamental de propor um diálogo importante com a sociedade e a gente está muito na expectativa. Orlando Vieira, que é o carnavalesco, é um cara muito sensível, um cara genial e acho que o desfile tem tudo para ser impactante, histórico.” Tomaz admite que o carnaval tem seu lado conservador. “As escolas de samba não são uma coisa só. E a gente vai tentando jogar dentro desses espaços de contradição.”

Mulheres

A escritora, artista plástica e professora de Filosofia Marcia Tiburi está escrevendo um livro sobre a sua campanha ao governo do estado do Rio de Janeiro e sobre o momento político do Brasil e considera que a primeira questão a ser posta é debater o que considera “uma guinada para o autoritarismo consentido”. “O autoritarismo que implodiu com a democracia em função de ter sido ele mesmo uma escolha democrática”, diz.

“Em que pese o fato de que uma grande parcela da população não tenha eleito a proposta autoritária, essa proposta venceu. Então vejo um país que continuará vivendo as tensões que já vinha vivendo nos últimos anos, mas agora com a novidade dessa autorização em nível de Estado”, observa. “Nesse sentido, imagino que por mais que haja muitas pessoas que vão continuar lutando pela democracia, entre as quais eu me incluo, a maior parte da população deve realmente se sentir responsável. E imagino que haverá muita gente também se sentindo culpada diante do que será promovido no Brasil em função desse autoritarismo consentido e contraditoriamente democrático.”

Marcia ressalta que, além de autoritário, o eleito é machista e racista. “Todas as demonstrações de preconceitos por parte desse governo já foram dadas: a misoginia, a homofobia, as ameaças em relação às pessoas que vivem diferenças sexuais ou de gênero. Assim, haverá, de uma maneira muito mais acirrada, manifestações de violência e de abuso e de controle, e de matança de pessoas LGBTs, mulheres, homossexuais, simplesmente pelo fato de que tudo isso agora se torna consentido. Ou seja perde-se o limite cultural para evitar mais violência em relação a pessoas que sejam marcadas pelas diferenças de gênero e sexualidade.”

A escritora pondera que essa nova realidade deve levar as mulheres a se apoiar umas nas outras. Para ela, em que pese o terrorismo de Estado que vai crescer e se aprofundar, assim como machismo estrutural, deve ocorrer um fortalecimento de redes de apoio e proteção. “Eu acredito na capacidade feminina de solidariedade. Acredito no crescimento dos movimentos sociais mesmo que eles precisem se dar na clandestinidade. Do meu ponto de vista o Brasil vai viver tempos infinitamente mais sombrios do que viveu até agora.”

Esporte

“Em 2019 o Palmeiras será favorito em todos os torneios que disputar. E a seleção brasileira será obrigada a ganhar a Copa América. Caso contrário, Tite correrá riscos. Mas é capaz que Lionel Messi não concorde.” A previsão é do jornalista Juca Kfouri, que em 2018 reforçou a programação da TVT no comando do programa Entre Vistas, e ainda prosseguiu com seu blog no UOL e sua participações como comentarista da rádio CBN e do canal ESPN. 

Para Juca, as perspectivas para os chamados esportes olímpicos são piores. “Já vimos no final do governo Temer – se é que se possa chamar que tenha havido um governo Temer – o corte ao respaldo a esses esportes olímpicos. E tudo que se promete são mais cortes, fim do patrocínio de estatais. Ou seja, o Brasil que sediou os Jogos Olímpicos em 2016 deve voltar a ser um enorme deserto no que diz respeito às praticas poliesportivas.”

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MUNDO DO TRABALHO

Vagner Freitas, presidente da CUT encara desafios históricos, aumentados pela eleição de um presidente que tira trabalhadores na agenda

“Em 2019, a luta em defesa de uma previdência pública e solidária vai ser prioridade. Conjuntamente, o combate à retirada de direitos será intensificado, porque os patrões e esse governo já anunciaram que consideram necessário fazer mais reformas para aproximar a legislação da informalidade e, portanto, da precarização do trabalho e da vida da classe trabalhadora.

A esses desafios históricos, agora aumentados por conta de um presidente eleito que não colocou os trabalhadores na agenda presidencial, soma-se o desafio de defender a organização sindical e a manutenção dessa organização a partir de novas formas.

Também a defesa da democracia em 2019 seguirá ainda mais premente, porque quem mais sofre as consequências dos ataques à democracia é o trabalhador, por esse ser um valor fundamental para a organização da sociedade, a defesa da organização sindical e dos movimentos sociais contra qualquer tipo de perseguição e criminalização.” 

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MOVIMENTOS SOCIAIS

Kelli Mafort, da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)

“Nossa expetativa é que o MST e os movimentos populares possam continuar cumprindo sua missão histórica de organizar as pessoas mais simples, mais pobres, as pessoas da classe trabalhadora em torno das necessidades básicas da vida. Nós lutamos por terra, moradia, trabalho, comida. Lutar por essas coisas não pode ser considerado crime.

O movimento sem terra, o movimento sem teto e tantos outros movimentos estão sendo citados como principais alvos da ofensiva de Bolsonaro e seus correligionários. Isso não é um crime contra os movimentos só, mas na realidade é um atentado contra a vida humana. Esses movimentos lutam por questões fundamentais de necessidades humanas e por isso existem movimentos populares.

Minha maior expectativa como integrante do MST é que esses movimentos possam continuar cumprindo com essa missão histórica, essa luta tão importante por necessidades básicas dos brasileiros e brasileiras.”

Guilherme Simões, da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)

“Para o MTST, 2019 será um ano de grandes desafios. Vivemos um momento delicado no que diz respeito às garantias democráticas  e, com o governo Bolsonaro, os direitos sociais estarão cada vez mais ameaçados. No entanto, não seremos intimidados. Os movimentos sociais cumprirão o papel de manter as lutas por direitos sociais e políticos, não aceitando nenhum tipo de desmando ou autoritarismo.

Para isso seguiremos realizando ocupações, manifestações nas ruas e também nos articulando junto a quem defenda os direitos democráticos em instituições do Estado, como o Congresso Nacional, organizações não governamentais, organismos internacionais, entre outros. A partir de 2019, a luta dos sem-teto, mais do que nunca, será também a luta do povo brasileiro, pela sobrevivência e por direitos.”

Jessy Dayane da Silva Santos, vice-presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE)

“A universidade persiste como território de resistência democrática, das liberdades individuais, da diversidade, do conjunto das ideias. Espaço de debate e de diálogo. Não é à toa que educação e universidade estão entre os principais territórios atacados pela ascensão das ideias fascistas, pela figura do Bolsonaro e de quem constrói com ele esse projeto. E também não será fácil para eles. Onde se produz conhecimento, onde se confrontam as ideias, eles têm tido mais dificuldade de se desenvolver e ter hegemonia.”

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EDUCAÇÃO

Daniel Cara, cientista político, integrante do Conselho Universitário da Universidade Federal de São Paulo e coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação

“A área de educação terá de resistir à implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e à reforma do Ensino Médio de Temer e seus cúmplices empresariais. Ao mesmo tempo, terá de enfrentar a sanha privatista de Paulo Guedes e Bolsonaro, bem como não ceder à concepção autoritária de educação de Ricardo Vélez Rodrigues, futuro Ministro da Educação, que parece acreditar que um militar é melhor educador do que um professor – o que é um absurdo.

Como nunca antes no Brasil, a Educação à Distância também se aproxima de uma implementação radical, colocando em risco os professores e, por consequência, a qualidade da educação.

Mas não basta resistir. Em 2019 o Plano Nacional de Educação (PNE) completa cinco anos sem ter avançado. É preciso retomar a agenda do plano. Ao mesmo tempo, terá de caminhar a votação do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e Valorização dos Profissionais da Educação). Ele deve ser mais robusto, pois hoje financia mal as 40 milhões de matrículas públicas. E o Fundeb deve ser capaz de viabilizar o Custo Aluno-Qualidade Inicial (Caqi), criado pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação e demandado pelo PNE.

O Caqi é essencial. Ele traduz em valores o quanto o Brasil precisa investir por aluno ao ano, em cada etapa e modalidade da educação básica pública, para garantir, ao menos, um padrão mínimo de qualidade do ensino. A ideia central é que a garantia de insumos adequados é condição necessária – ainda que não suficiente –, para o cumprimento do direito humano à educação e para a qualidade do ensino. Isso exige a indicação de quais insumos são esses e quais são seus custos para cada etapa e modalidade da educação básica.

Ou seja, enquanto Bolsonaro quer Educação a Distância, nós queremos escola pública de qualidade. Portanto, a cada ação de resistência, nós apresentaremos uma ação de existência de um projeto de educação pública, gratuita, laica e de qualidade. E vamos fazer isso até que o Brasil retome o bom senso e a normalidade democrática, sem a sanha autoritária que nos assola.”

SAÚDE

Mário Scheffer, professor de Política e Sistema de Saúde na Faculdade de Medicina da USP

“A expectativa é que o SUS seja preservado. O SUS completou 30 anos e nesse tempo todo passou por muitos desafios, muitas ameaças. Com todos os problemas e as dificuldades, esperamos que ele seja mais importante, mais relevante que os governos. A trancos e barrancos o SUS tem conseguido se viabilizar ao longo de governos de diversos partidos, com diversos golpes e ameaças que tem sofrido.

Claro que o cenário atual é de risco, de ameaça, retrocessos, mas o que a gente espera é a preservação do SUS constitucional. Por enquanto nós desconhecemos qual a proposta para a saúde. Isso não apareceu em programa de governo, nem desde que o nome do ministro foi anunciado, então é uma expectativa total.

A grande questão de fato será o financiamento: como o SUS vai manter suas obrigações apenas com recurso do ano anterior acrescido da inflação. Os recursos já são insuficientes. É algo que esperamos que possa se reverter. Não haverá milagre, não é possível apenas com boa gestão economizar recursos a ponto de serem suficientes para tudo aquilo que o SUS precisa.

Nos preocupam algumas questões mais ligadas a moral, costumes, religião que podem interferir em algumas políticas específicas e precisamos estar atentos a essa visão mais conservadora. Programas como de HIV/Aids e a questão da prevenção para populações vulneráveis; programas que tratam o aborto como problema de saúde pública; a saúde mental; o uso de álcool e drogas. Esperamos que não haja contaminação das políticas de saúde por questões de moral, de religião. Há riscos de retrocessos nessa área. Vamos ver. Na saúde o ministro é da área, os secretários, o segundo escalão são do ramo e talvez seja possível um diálogo.”

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Nina Orlow, ambientalista e urbanista do Aliança Resíduo Zero/Polis, Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e Rede Nossa SP

“Questões socioambientais permeiam todas as áreas e afetam a vida de todos os seres. Enquanto essa conectividade não for compreendida por nossos gestores, continuaremos colecionando fracassos, retrocessos, degradação e perda de recursos.

Existem bons planos, projetos, programas, agendas e leis, construídas de forma participativa, mas precisam ser colocadas em ação e fortalecidas pela Educação Ambiental permanente e de qualidade, que estimule sociedades socialmente justas, e ecologicamente equilibradas.

Para 2019, no âmbito nacional, por enquanto não há sinalização de políticas públicas nesta direção, mas o cumprimento das leis é obrigatório.  Precisamos ficar de olho, cobrar e fiscalizar e paralelamente estimular e valorizar as boas práticas e ações locais.”

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Rogério Sottili, é diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, foi secretário especial dos Direitos Humanos do governo Dilma Rousseff

“Não será um ano de prosperidade. Será um ano de organizar nossos sonhos, organizar o movimento social, organizar nossa resistência para lutar pelos nossos direitos humanos. E também será um ano de cobrar o cumprimento das recomendações internacionais, o cumprimento das recomendações da Comissão Nacional da verdade. E exigir acima de tudo respeito à justiça, respeito à Constituição do Brasil, e sobretudo a presunção de inocência.

2019 me faz lembrar uma fala do Kalil Gibran em que ele dizia: diziam que antes de o rio entrar no mar o rio treme de medo, mas não há outra maneira, o rio não pode voltar, é impossível para existência de cada um. É preciso entrar no oceano para o medo desaparecer e aí o rio saberá que ele não vai desaparecer, mas vai se tornar oceano.

Acho que é um pouco isso que nós vamos viver em 2019. A gente vai ter que descobrir que nós precisamos enfrentar, entrar no oceano, pro medo dos tempos que vamos viver desaparecer. E aí sim E aí sim a gente vai organizar o nosso movimento social, o movimento dos direitos humanos, organizar a nossa resistência pra cobrar acima de tudo respeito à Constituição e aos direitos conquistados durante todo esse tempo. Mas não será um ano de prosperidade.”

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POLÍTICA

Aldo Fornazieri,  doutor em Ciência Política, diretor Acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política

“Tem de esperar para ver o que vai acontecer. Apesar de todas as sinalizações dadas pelo governo eleito, tem de ver o que realmente vai fazer. Vai ser um ano difícil.

E será difícil aprovar as reformas, principalmente a da Previdência. O setor público está quebrado e vai ser muito difícil conseguir investimentos. Será o ano do aperto.

É preciso estar atento para ver o que vai ser feito na área dos direitos, das liberdades individuais, das garantias à Constituição, ao estado democrático de direito.

Setores democráticos têm de ser organizar para resistir. A esquerda tem de sair do palavrório e ir para a ação. Sem organização de base não se resiste. Precisa sair do discurso e se organizar nas bases sociais, principalmente nas periferias, onde perdeu espaço.

Tem de haver uma articulação maior entre os partidos progressistas e também os movimentos sociais. Não significa que vá se resolver pela formação da frente que está sendo organizada. Mas reunir integrantes da esquerda ao centro para defender a Constituição, o estado democrático de direito. Uma luta sobre pontos concretos, direitos, liberdades, garantias, e sempre que houver ameaça, agir.

A questão ambiental também é muito importante. Tem de haver uma articulação política e social maior para a defesa nessa área e contra o verdadeiro massacre contra ambientalistas, indígenas, lideranças.”

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ECONOMIA

Ladislau Dowbor, economista e consultor de diversas agências das Nações Unidas

“O Banco Mundial qualificou os anos 2003 a 2013 de The Golden Decade, a década dourada da economia brasileira. É preciso ser muito ideologicamente cego para ignorar o imenso avanço que representaram a queda do desemprego de 12% em 2002 para 4,8% em 2013, a abertura de 18 milhões de empregos formais, a retirada de 38 milhões de pessoas da pobreza, a redução do desmatamento da Amazônia de 28 para 4 mil quilômetros quadrados, o acesso à luz elétrica para 15 milhões de pessoas e assim por diante. A opacidade mental dificulta naturalmente a aceitação dos números por quem quer se convencer do contrário. 

Visões estratégicas existem, e são razoavelmente óbvias: o resgate da dimensão pública do Estado, a taxação dos capitais improdutivos que nos governam, a reforma do nosso sistema tributário aberrante, a obrigação de transparência dos fluxos financeiros, uma renda básica de cidadania, a redução da jornada de trabalho à medida que avança a produtividade, o resgate do papel das cidades como unidades básicas de governança, a constituição de um mínimo de governança global nos caos internacional que se constata. É viável? A questão não é ser ou não viável, mas sim, em primeiro lugar, entender a dimensão essencialmente política dos desafios, a centralidade da questão do poder. Em segundo lugar, entender que é uma questão de tempo, pois com a mudança climática, a destruição da biodiversidade, o aprofundamento do fosso entre ricos e pobres, a contaminação mundial da água e outros desafios que se avolumam, estamos apenas adiando as medidas, provavelmente até que uma catástrofe planetária gere a força política necessária.

A erosão do pouco de democracia que o Brasil tinha se dá como numa tragédia burlesca. Derrubamos as políticas que estavam dando certo, desfiguramos a Constituição que nos protegia dos absurdos, elegemos um charlatão cujo único compromisso é deixar a oligarquia livre para aprofundar os seus desmandos. Haverá um Brasil profundo, um bom senso latente na cabeça de milhões, permitindo retomar os avanços para uma sociedade decente? Paulo Freire declarou um dia que queria “uma sociedade menos malvada”. Os nossos desafios são imensos, e a nós que somos professores, ou comunicadores, ou organizadores sociais, ou simples cidadãos, cabe a tarefa de explicar o óbvio: uma sociedade que funcione tem de ser uma sociedade para todos. A burrice se enfrenta, de preferência, com inteligência.”

(Trechos do artigo A Burrice no Poder

Imagem: Justificando

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