Sobre Mafalda, Armandinho e a censura

Bom é saber que “Mafaldas” e “Armandinhos” nãos dependem de uma folha de jornal – nem da vontade direta de seus “pais” e muito menos de autoridades que se colocam acima do bem e do mal – para seguir construindo suas contestações que, mais hora menos hora, encontram alvo ou eco onde menos se espera

Por Marcos Corbari*, na Fórum

– I –

Histórias em quadrinhos são meu objeto de estudo desde 2010. Quase uma década de vida dedicada a pensar e analisar essa plataforma expressiva que em muitos momentos é menosprezada e em outros superestimada. Nos últimos dois anos e meio tenho convivido diariamente com dois personagens ímpares, contestadores e subversivos: Mafalda e Armandinho. São meu objeto de estudo em uma dissertação de Mestrado.

Uma menina e um menino que, pela mão de seus autores – Quino e Alexandre Beck – expressam verdades inconvenientes do tempo histórico onde dividem o espaço físico ou virtual com textos noticiosos nem sempre agradáveis de se ler. As pautas do cotidiano revelam as nuances das relações sociais, as quais acabam se tornando ingredientes para que os quadrinhistas componham suas criações.

As tirinhas de jornal serviram para dar um dos nomes pelo qual as HQs são conhecidas (no mercado estadunidense): Comics. O termo remete à ideia de clímax cômico construído a partir da ação narrativa que se desenvolve em poucos quadros. É uma crônica rápida, que procura surpreender seu leitor, naturalmente desenlaçando em uma piada. Era quase uma regra. Mas com Mafalda e Armandinho não é sempre assim. Poucos personagens do campo literário desempenham bem como eles o papel de cronistas de seu tempo. E cronicizar uma época nem sempre é tarefa que se pode executar construindo piadas.

Quino e Beck enquadram-se num conceito desenvolvido pelo filósofo francês Paul Ricoeur, que versa sobre a ficcionalização da história e a historicização da ficção. Por vezes, é difícil distinguir entre o que é fábula e o que é fato.

– II –

Mafalda foi publicada entre 1964 e 1973, a partir da Argentina, terra natal de seu autor. A menina curiosa e invocada era repleta de lindos ideais humanistas e sonhava crescer e tornar-se intérprete da Organização das Nações Unidas (ONU) para ajudar a resolver os conflitos entre os países. Muitos anos depois de cessar a publicação de Mafalda, Quino seria questionado a respeito do futuro da menina, caso a publicação tivesse continuado, se ela teria a oportunidade de “crescer” e alcançar o tão sonhado posto. Respondeu que dificilmente isso aconteceria, sendo mais provável que a menina fosse somada às listas de nomes de “desaparecidos” durante os regimes ditatoriais que sucederam-se em seu país[1].

A história, antes de ser escrita ou contada, acontece. É dinâmica. É tempo presente. Se somos leitores do ontem, somos personagens do agora. A menina de laço no cabelo – ainda que tendo sua publicação interrompida – guardou um legado de interpretação seguidamente retomado nos mais diversos ambientes para retratar problemas pertinentes ao presente. Reflete incomodamente um movimento histórico circular onde circunstâncias terríveis de meio século atrás voltam (ou continuam) a acontecer no nosso tempo histórico. Isso nos leva a pensar que em outro aspecto Quino parecia ter razão: Ele fazia referência, quando parou de desenhar Mafalda, que após dez anos as tirinhas estariam correndo o risco de se repetir. Seriam as tirinhas que tornavam repetitivo seus enredos ou a história que em seus ciclos registrava a reedição dos mesmos problemas em seu cotidiano? É assunto para uma reflexão prolongada em outro momento.

– III –

Alexandre Beck continua publicando o seu Armandinho. Nasceu em um jornal e migrou para o meio virtual através das redes sociais. Tornou-se rapidamente um intérprete ora terno e ingênuo, ora ágil e mordaz do nosso tempo. Questionando a falta de bom senso do mundo adulto, o desrespeito com o meio ambiente e os desmandos das relações de poder estabelecidas através de um status quo imperialista que permeia a relação entre os seres à sua volta, não é raro arrumar confusões – seja entre seus interlocutores ficcionais nas micro-narrativas, seja nas relações do espaço físico onde seu autor interage com a repercussão que as tiras provocam.

Um capítulo recente foi provocado por esta tirinha:

Repreendido por nota de repúdio pública, emitida pela Brigada Militar[2] (força policial do Rio Grande do Sul), contrária ao argumento proposto na micro-narrativa, Alexandre foi vítima de uma onda de ódio via redes. Por conta de uma tira que retrata uma situação de racismo estrutural, real, foi criticado, ofendido e até ameaçado por pessoas que entenderam-se ofendidas e – via manifestação do comando da BM – sentiram-se legitimados para reagir à publicação. O tema ali colocado em voga e exposto – amparado por reportagens contemporâneas à publicação* despertou o que há de pior em um público que, de alguma forma, poderia buscar o caminho inverso na linha de interpretação. Quase que imediatamente após, alguns jornais comunicaram o autor da suspensão da publicação das tiras da personagem em suas páginas – incluindo o Diário de Santa Catarina, onde Armandinho “nasceu”. Se tal alteração foi provocada pela reação nociva emitida pelas autoridades policiais e repercutida por aqueles e aquelas que pretendem postar-se em como seus representantes, é difícil comprovar. Fato é que os espaços mudam, mas a história segue.

– IV –

Bom é saber que “Mafaldas” e “Armandinhos” nãos dependem de uma folha de jornal – nem da vontade direta de seus “pais” e muito menos de autoridades que se colocam acima do bem e do mal – para seguir construindo suas contestações que, mais hora menos hora, encontram alvo ou eco onde menos se espera.

Mafalda segue conosco, sobreviveu à violência militarista de governos autoritários em seu país, continua repetindo as mesmas e incômodas perguntas em nossos dias como se o espaço temporal fosse curto e o ontem de meio século atrás estivesse entrelaçado com o instante presente.

Armandinho segue conosco, cada dia emitindo novos olhares sobre esse tempo cinzento no qual convivemos, aprendendo com o passado para ter o direito de sonhar com um futuro melhor, onde – entre outras pautas – bons policiais não se fiquem constrangidos diante de alguns de seus colegas ou comandantes que ainda precisam aprender a conviver com o pensamento divergente, preocupando-se mais com temas que ferem nosso sentido de humanidade, do que com as críticas de um personagem de histórias em quadrinhos ou seu autor.

Ricoeur ensinou de forma pertinente. Nem sempre a linha que divide história e ficção é evidente. Trata-se, em muitos momentos, de um alinhavo composto por duas linhas, compondo pontos que se sobrepõem,  onde um campo permeia o outro.

[1] Ver página 20 de “Bien Venido: um passeio pelos quadrinhos argentinos”, de Paulo Ramos, publicado pela Zarabatana Books em 2016.

[2] https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2564085223617907&set=a.371079299585188&type=3&theater

*Marcos Corbari Jornalista, militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA); Mestrando em Letras pela Universidade Regional Integrada (URI)

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