A UFPR vai à guerra

Por Rogerio W. Galindo, no Plural

Na última sexta-feira, quando foi dar as boas-vindas à nova leva de calouros da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o reitor Ricardo Marcelo Fonseca fez um duplo papel. Por um lado, foi o anfitrião gentil que acolheu os mais de cinco mil alunos em sua nova família. Por outro, parecia um general preparando seus soldados para a guerra.

Ricardo Marcelo não tem dúvidas de que as universidades públicas estão sendo transformadas na “Geni” da sociedade brasileira. Disse aos alunos que as instituições federais de ensino superior são fundamentais para o futuro do Brasil e incitou-os a defender com unhas e dentes a universidade em que estão entrando agora.

“Aqui nós formamos cidadãos, aqui nós formamos intelectuais, aqui nós formamos os melhores profissionais. A universidade pública é a instituição mais crucial para a formação das futuras gerações do Brasil”, disse.

Em entrevista exclusiva ao Plural, Ricardo Marcelo falou sobre governo Bolsonaro, orçamento e Escola sem Partido. Leia abaixo a entrevista na íntegra.

O sr. fez um discurso incitando os calouros a assumir a defesa da UFPR. A universidade está de fato sob ataque?

Se considerarmos, como parece ser, que o arrocho orçamentário contra as universidades públicas (que acontece crescentemente desde 2015) tem sido uma demonstração de que somos vistos um mero “gasto” público, e não investimento para o futuro; que o investimento na ciência e na tecnologia – tão crucial para qualquer país e que aqui é majoritariamente feito nas universidades públicas – deixou de compor um projeto de nação; que existe uma campanha óbvia em andamento de caricaturização e de distorção do que são as universidades públicas, que se percebe hoje em setores importantes da mídia, de parte da opinião pública e também na crescente fábrica de intrigas e de “fake news”; se consideramos tudo isso a resposta é sim, estamos sob ataque.

Como o sr. imagina que será a relação do novo governo com as universidades?

Existe uma retórica sobre as universidades públicas (que a meu ver tem sido distorcida e equivocada) que preocupa. As universidades públicas – até porque são integrantes da estrutura estatal – não podem ser vistas por nenhum governo como “adversárias” ou como “o outro”. Elas são na verdade instrumentos cruciais e únicos de realização de políticas de Estado (e não de governo).

Sem as universidades públicas a produção de conhecimento de ponta e a formação de quadros qualificados no país seriam irremediavelmente comprometidas, com consequências graves para todo o nosso futuro. Mas é necessário aguardar para ver o que acontece, o governo está no seu início, com idas e vindas em vários temas. Por outro lado, os quadros técnicos do Ministério da Educação são muito qualificados. E o novo secretário do Ensino Superior (SESU), que já estava na estrutura anterior do MEC, é pessoa sensível e competente. É momento de aguardar.

Há uma campanha óbvia em andamento de caricaturização e de distorção do que são as universidades públicas

O governo Bolsonaro parece ter a tendência de acreditar que a universidade é um reduto ideológico voltado para a doutrinação dos alunos. Como o sr. responderia a isso?

Trata-se de um sério equívoco. Mas essa retórica não é nova, embora tenha crescido nos últimos tempos. E desde sempre isso é dito por pessoas que, de modo geral, desprezam ou desconhecem a universidade. Ou que tomam uma pequena parte sua como se fosse o todo. Conhecendo a UFPR como a conheço hoje, como reitor, em todas as suas unidades, posso dizer com absoluta convicção que as coisas não são assim por aqui. Universidade é na verdade lugar de formação, de aprendizado, de preparação profissional e intelectual. É lugar de produção de saberes, de ciência e de tecnologia, nos modos e abordagens mais variados, como nenhum outro lugar é capaz de fazer, ao menos no Brasil. Incrível que não seja esse o foco sobre as universidades. E, a meu ver, chega a ser surreal que, com tantos desafios que o Brasil tem diante de si no tema da educação, o tema da “ideologização” tenha assumido essa centralidade no debate.

O reitor da USP já falou claramente que o Escola sem Partido não tem vez lá. Podemos falar o mesmo daqui?
Na verdade nós já falamos, e falamos antes mesmo da USP: o Conselho Universitário da UFPR já tinha aprovado em 2017 uma moção contra a chamada “Escola sem Partido” e nós a mandamos à Assembleia Legislativa do Paraná, que estava discutindo o tema. Claro que ninguém seria a favor de “doutrinação” em sala de aula (embora hoje em dia haja gente que estenda demais a noção de “doutrinação”, até o limite do pitoresco), mas nos parece óbvio que qualquer restrição, controle ou censura de conteúdos ou à atuação de professores, em qualquer nível de ensino, é o exato oposto da ideia de educação, que pressupõe liberdade.

E a premissa da “Escola sem partido” de que possa existir uma linguagem “neutra” e livre de politização é em si problemática: o ato do educador que exclui conteúdos é tão ideológico (ou partidário) quanto o ato que inclui conteúdos. A “Escola sem partido” é, a meu ver, inconstitucional e é incompatível com o regime democrático em que vivemos. O STF, que está analisando o tema, logo dirá.

Chega a ser surreal que, com tantos desafios que o Brasil tem diante de si no tema da educação, o tema da “ideologização” tenha assumido essa centralidade no debate

O orçamento da UFPR, assim como das outras federais, tem sido curto. Como foi 2018, e qual a perspectiva para 2019?

O orçamento de 2019 será, no que diz respeito ao custeio das Universidades, em termos gerais, parecido com o de 2018, que por sua vez foi parecido com o de 2017. O que é problemático, já que as universidades estão crescendo e ainda estão num ciclo de expansão que foi pactuado com o governo federal há alguns anos (a UFPR está em fase de implementação de novos cursos no interior e no litoral). Pior: como os contratos e serviços que as universidades mantêm reajustam todos os anos, congelar o orçamento significa nos colocar em maiores dificuldades a cada ano. Mas temos tentado fazer nossa parte, racionalizando as contas e fazendo os ajustes internos para manter a mesma qualidade de sempre.

Mas creio que, para além das questões orçamentárias, as universidades brasileiras hoje têm uma outra grande tarefa: como repositórios dos saberes e da inteligência do Brasil (registre-se que 90% da ciência e tecnologia nacionais saem das universidades públicas), temos que liderar a luta contra um certo culto da ignorância, que lastimavelmente vejo crescer a cada dia. Hoje em dia as pessoas não mais se encabulam de ostentar sua própria parvoíce e divulgá-la ao máximo de pessoas possíveis, geralmente pelas redes sociais. Comunicar-se por memes ou por 140 caracteres virou, para muitos, o jeito de exprimir ideias por excelência. Daí ficamos a um passo para acreditar que a Terra é plana, na tese criacionista ou para reescrever a história recente do Brasil, de modo completamente contrafactual.

As universidades, neste contexto, têm diante de si uma grande responsabilidade com o Brasil: desmascarar as fraudes causadas pela ignorância, demonstrar que cultivar a inteligência constrói um círculo virtuoso com nosso futuro, demonstrar que a sofisticação do pensamento é importante em qualquer país, qualquer tempo ou qualquer contexto.

Foto: Plural

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