Até quando vão seguir matando Marielle?

Por Editorial da Ponte Jornalismo

Matar nunca foi o bastante. Era preciso, também, profanar o corpo. Foi assim que, após ser traído e assassinado, Zumbi dos Palmares teve a cabeça cortada, salgada e levada para ser exibida ao governador. Tiradentes foi esquartejado e seus pedaços, espalhados por Vila Rica. Antonio Conselheiro já estava morto e enterrado quando o Exército brasileiro invadiu o arraial de Canudos, mas os militares fizeram questão de desenterrá-lo para poder cortar sua cabeça. Após as mortes do bando de Lampião, as cabeças decapitadas dos cangaceiros passaram por diversas exibições e levaram 31 anos para conhecer a sepultura.

É uma tradição. As elites do Brasil, e do que viria a ser o Brasil, sempre benevolentes e prontas a perdoar e anistiar os rebeldes e criminosos do seu grupo social, preferiam usar do máximo de violência possível quando os rebeldes pertenciam às classes populares. Uma violência que não se contentava com a morte física e se prolongava na violação dos corpos e da memória dos revoltosos.

O Brasil de hoje, tão respeitador de suas tradições, continua matando como sempre matou, mas a profanação do corpo morto mudou um pouco seu jeito de ser. A morte de Marielle Franco segue a longa tradição de eliminar a vida das pessoas que incomodam o status quo — e Marielle, negra, favelada, mulher, lésbica e defensora dos direitos humanos, incomodava muito apenas com sua existência. Como hoje não pegaria bem profanar seu corpo, como se fazia com os pobres rebelados de antes, o conservadorismo prefere profanar sua memória, por meio de notícias falsas, e fazer o esquartejamento simbólico de placas com seu nome. Se por um lado é menos sangrenta, essa profanação não deixa de ser igualmente poderosa, já que seus efeitos podem ser vistos em toda parte graças às redes sociais.

A profanação da memória de Marielle, que havia começado logo após seu corpo esfriar, com a circulação de mentiras que associavam seu nome ao narcotráfico. Mentiras espalhadas pela ampla rede de disseminação de falsidades da direita brasileira, incluindo aí nomes como Marília Castro Neves, desembargadora do TJ-RJ, e o deputado federal Alberto Fraga (DEM-RJ). Felizmente, as mentiras receberam uma reação forte, vinda de veículos jornalísticos comprometidos com a verdade, da militância de direitos humanos e do Psol, que levou a coisa para as vias judiciais.

Marielle, porém, nunca deixou de incomodar — e, por isso, não deixa de ser atacada. Na semana em que sua morte completou um ano, e em que as autoridades do Rio prenderamdois suspeitos pelo crime (mas continuam a dever os nomes dos mandantes), os ataques voltaram com força.

O presidente Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo fizeram pouco caso da memória da vereadora, um dizendo que não a conhecia, outro que “ninguém conhecia Marielle Franco antes de ser assassinada”. Na Câmara dos Deputados, em Brasília, teve um grupo de parlamentares que usou barulho de latidos para atrapalhar um ato por Marielle. Em São Paulo, o vereador Fernando Holiday (DEM), ligado ao MBL (Movimento Brasil Livre) se opôs a um projeto dos seus colegas Eduardo Suplicy (PT) e Toninho Vespoli (PSOL), que pretendia dar o nome de Marielle a uma praça no bairro de Brasilândia, e afirmou nas redes sociais que Marielle “foi uma vereadora extremista que defendia ideais perturbadores” — uma declaração tão sem sentido que faz a gente pensar se ele não teria confundido Marielle com Marighella. E não vamos esquecer que o deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL) mandou emoldurar em seu gabinete uma placa rasgada com o nome de Marielle, para exibir em sua parede a marca da profanação e esquartejamento do nome da mulher negra.

Bolsonaro e seus apoiadores têm motivo de sobra para não querer que Marielle seja lembrada. Como disse o sociólogo Celso Rocha de Barros, “quanto mais as investigações prosseguirem, mas as milícias serão notícia; e, quanto mais aparecer milícia, mais vai aparecer bolsonarista em situação constrangedora”. Mas não deixa de ser curioso que o ódio a Marielle venha também de outros setores conservadores: grupos como o MBL, que não necessariamente têm laços com as milícias, e que por isso não teriam motivos para se sentirem constrangidos sempre que a morte da vereadora e do motorista Anderson Gomes são lembradas.

Por que, então, Marielle Franco incomoda tanto o conservadorismo brasileiro? Uma possível explicação tem a ver com o projeto de poder desses grupos, que passa por destruir tudo o que foi criado com a Constituição de 1988 e, no limite, busca criar uma nova ideia de país. Um Brasil que nunca teve racismo, machismo nem luta de classes, onde escravidão e ditadura são assuntos mortos e enterrados, onde o governo está ao lado dos brasileiros e por isso deve ser obedecido, e onde qualquer discussão de políticas públicas que envolva reconhecer questões de raça e gênero ou combater a desigualdade social deve ser silenciada, por dizer respeito a problemas que não existem.

Com sua presença e suas ideias, Marielle Franco era a negação desse Brasil sem conflitos, onde manda quem pode e obedece quem tem juízo, sonhado pelos conservadores. Como 13 tiros não foram capazes de destruir essas ideias nem o seu exemplo, e como, mesmo ausente, Marielle ainda se faz presente como semente na inspiração de diversas guerreiras que continuam a lutar sua luta, tudo o que o conservadorismo quer é matá-la de novo e de novo. Quer saber? Não vão conseguir.

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