Agência Brasil agora veicula anúncio disfarçado de financeira de bolsas de estudo?

Tania Pacheco

A Agência Brasil publicou ontem matéria teoricamente relativa ao ‘Dia do Índio’, com o título “Ingresso de indígenas em faculdades é nove vezes maior do que em 2010”.

O texto começa falando de uma indígena do povo Tuxá, que desejava fazer um curso superior, assim como seus primos, mas eram impedidos pela “falta de recursos”. Finalmente, aos 35 anos, ela consegue realizar seu sonho: estudar engenharia civil “com uma bolsa de 50% na Faculdade Zacarias de Goés, em Valença (BA)”.

Essa primeira parte da matéria é encerrada com dados objetivos:

“Maritana é uma dos 56,7 mil indígenas matriculados no ensino superior do país, número que representa 0,68% do total de 8,3 milhões de estudantes matriculados nessa etapa, de acordo com o último Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), de 2017. Assim como Maritana, a maioria dos indígenas (42,8 mil) está matriculada em instituições particulares de ensino superior.”

Algum problema? Os dados são de um órgão respeitado e conferem: dos 56.750 indígenas matriculados em universidades em 2017, apenas 13.898 frequentavam instituições públicas, mostra o INEP em seu site. E o parágrafo leva a um sub-título perfeito para aumentar o interesse pela matéria: “Mais indígenas na Faculdade”. Só que, a partir daí, o texto toma outro rumo.

Os índices e percentuais não são mais os do INEP, ou, como se poderia também esperar, de um dos programas do governo federal criados para viabilizar o acesso ao terceiro grau, que sequer são citados. Chegam diretamente do site de uma empresa privada que financia bolsas, com direito a link para facilitar ainda mais o acesso:

“Apesar das dificuldades enfrentadas ainda hoje para ingressar e para se manter no ensino superior, levantamento do site Quero Bolsa, plataforma online em que estudantes podem obter descontos de instituições de ensino, mostra que, enquanto o total de ingressantes no ensino superior brasileiro avançou 48% desde 2010, a entrada de estudantes indígenas nas faculdades brasileiras deu um salto muito maior.

Em 2010, 2.723 alunos calouros que se declararam indígenas se matricularam nas faculdades. Em 2017, dado mais recente disponível, foram 25.670, número 9,4 vezes maior.”

Continuando, quem “analisa” a questão é exatamente o gerente de relações institucionais da empresa Quero Bolsa, Rui Gonçalves, de forma simpática às políticas de cotas:

“O que a gente conclui é que esse aumento está muito atrelado à política de cotas. Precisamos oferecer educação para esses jovens e condições para entrar no ensino superior”.

A matéria não termina aí. Segue com mais alguns dados comentados pelo gerente institucional da empresa; com breves declarações da Coordenadora da ONG Kanindé, Neide Bandeira, sob outro sub-título; e fecha com breve menção ao chamado ‘Dia do Índio’. Mas o que fica mesmo pesando é ver a Agência Brasil fazendo comercial… Que tristeza!

Em tempo: não cito os nomes da repórter e da editora porque atribuo o absurdo não a elas, mas à política canalha que está sendo feita contra a empresa pública EBC e seus braços principais de informação, a Agência e a TV Brasil, mais uma vez em total desrespeito à Constituição.

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