Reencontros da CPT de Mato Grosso

A equipe da CPT de Mato Grosso promoveu, nos dias 24 e 25 deste mês de maio, o evento “Reencontros da CPT MT”. Reunindo agentes e ex-agentes pastorais, bem como colaboradores, a reunião promoveu a troca de testemunhos, histórias e experiências ligadas a CPT. Abaixo o relato de Antônio Canuto, um dos fundadores da Pastoral da Terra, que participou da história do regional:

Por Antônio Canuto, em CPT

Nos dias 24 e 25 de maio, em Cuiabá, encontraram-se alguns dos agentes atuais da CPT e pessoas que fizeram parte da CPT, alguns desde os primeiros momentos, outros em tempos mais próximos.

Foi daqueles encontros de encher a alma e de revigorar energias. E pelo que se viveu, sentiu e falou, tinha toda razão o bispo Pedro quando dizia: “Uma vez CPT, sempre CPT”.

O encontro se realizou na chácara do companheiro e irmão da CPT, Pignati, o que tem estudado com muito afinco os efeitos dos agrotóxicos nas pessoas.

Na noite do dia 24 foi feita apresentação dos que estavam presentes, cada um dizendo como foi que chegou à CPT. Muitas histórias interessantes e todas muito vivas. Havia aqueles que começaram a atuar na CPT em 1978, na Prelazia de Diamantino, depois passando a sede da CPT para Cuiabá. (Uma informação histórica: no primeiro número do jornal Pastoral da Terra, dezembro de 1975, havia a notícia de que 14 pessoas da Prelazia de Diamantino haviam se reunido para pensar a ação da Pastoral da Terra. Quase certamente era a semente da primeira CPT regional do Brasil. Já a edição de setembro/outubro de 1976 trazia informação de que 18 pessoas de cinco dioceses do Mato Grosso, haviam se reunido em Várzea Grande, para pensar a Pastoral da Terra no estado e enviaram uma carta aos bispos do estado.) Alguns, das primeiras horas, continuam atuando hoje na CPT, Baltazar em Rondonópolis, que começou acompanhar padre Dionisio Kudlawicz, em 1979, e irmã Vera, que neste mesmo ano de 1979 passou a acompanhar a CPT a convite de Dieter Metzner, que convenceu a comunidade das irmãs da importância desta pastoral.

Marcou-me muito a fala de Dorinha que, sendo menina, numa comunidade bem lá no norte do estado, já perto da Rondônia, contou como dom Antônio Possamai em visita à comunidade (a diocese de Ji Paraná se estendia por parte do território mato-grossense) perguntou ao padre se havia algum sindicato ou alguma associação na paróquia. Ao saber que não havia, teria dito ao padre: “se no ano que vem quando eu vier de novo não tiver nada de organização do povo, você pode pegar sua mala e seu Gurgel e procurar outro lugar”. Tempos diferentes!!!

Diversos dos agentes que hoje atuam na CPT disseram que encontraram a CPT porque nasceram e se criaram neste ambiente. Seus pais eram atuantes em comunidades e organizações que tinham o acompanhamento da CPT ou atuaram na própria CPT e desde pequenos beberam desta fonte.

Entre os presentes, alguns que depois ocuparam posições públicas importantes. Adair que foi por duas vezes prefeito em Alto Paraguai, Julier, que foi Juiz Federal e deixou a função para ser candidato a governador do estado, em 2014, se não me engano. Outros ocuparam postos no Incra e no MDA. (A título de curiosidade, um dos fundadores da CPT de Mato Grosso, foi Dante de Oliveira, o deputado federal das Diretas Já. Por sua atuação nas questões da terra foi escolhido na Nova República, por Sarney, para ministro da Reforma Agrária).

É de se destacar desde as primeiras horas a presença de luteranos na equipe da CPT. O pastor Teobaldo Winter, presente no encontro, ainda se sente e colabora com a CPT.

Na manhã de sábado, uma forte celebração eucarística, concelebrada pelo padre Luiz Carlos, da CPT Araguaia e da coordenação regional e pelo pastor Teobaldo.

Depois foi feito um giro pelos diversos períodos da história do regional, com os desafios próprios de cada um.

O primeiro período foi o da implantação da CPT. Período mais forte da repressão. Para não chamar a atenção, muitas reuniões eram feitas em Chapada dos Guimarães. Em algum lugar turístico, para lá se debater os problemas e traçar as estratégias de ação, sob o formato de um dia de lazer. Neste primeiro período também houve encontro dos agentes casados, com suas famílias, para pensar as relações familiares, que muitas vezes a atuação na CPT bagunçava.

O segundo período, mais para o final dos anos 80 e anos 90, teve forte acento nos programas de formação tanto regionais, como nacional. Anos em que a CPT deu apoio e suporte ao estabelecimento do MAB no estado, depois ao MST e por fim ao MPA. Em muitos casos, muitas das famílias que não concordavam com a prática do MST, ficaram sem apoio do movimento e por isso procuraram a CPT, que acabou dando este apoio.

Por fim o terceiro período que corresponde aos dias atuais, com os desafios de sempre e com uma forte atuação na promoção da agroecologia, na recuperação das sementes crioulas, nas feiras da agricultura familiar e no combate aos agrotóxicos, atividades estas já iniciadas no período anterior mas que se mantêm e desenvolvem neste último período.

Certamente muitas informações importantes foram esquecidas ao elaborar esse informe. Ao final o que se pediu é que os agentes do passado continuem apoiando o trabalho atual, ajudando a corrigir desvios que possam ser cometidos e apontando caminhos para uma atuação melhor.

Eu participei com muita alegria deste encontro para falar do contexto em que a CPT nasceu, de como foi o encontro, de onde surgiu esta pastoral e dos primeiros passos dados.

Pelo que vivi nestes dias, acho que é uma boa dica para outros regionais tentarem provocar encontros semelhantes entre os da CPT de ontem e os de hoje. É muito enriquecedor ver como os de ontem valorizam a sua participação na CPT.

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