ENSP debate estratégias de reinvenção da Saúde Coletiva

Por CCI/Ensp

As estratégias para descolonizar e reinventar a Saúde Coletiva foram a pauta de evento, promovido pelo Centro de Estudos Miguel Murat de Vasconcellos (Ceensp), no dia 12 de fevereiro na ENSP. O encontro trouxe debates acerca da biomedicalização e desmedicalização na Saúde Global e mental, assim como as exclusões e desastres na questão indígena. O evento integra o conteúdo programático do curso internacional Saúde Coletiva em Diálogo com as Epistemologias do Sul, realizado entre 10 e 14 de fevereiro.

CEENSP Manhã: Professores Paulo Amarante (esquerda), Marcelo Firpo (centro) e João Arriscado Nunes (direita)

Biomedicalização na Saúde Global e desmedicalização na saúde mental

O coordenador do evento, Marcelo Firpo, explicou que a proposta do curso é produzir conhecimento contextuado, que seja ética e politicamente adequado, atento às necessidades de saúde do país e do mundo. Ele defendeu que, nessa produção de conhecimento, exista um processo efetivo de interação de diálogos entre as necessidades de saberes. Para que isso aconteça, segundo ele, é preciso profundo exercício de autoconhecimento, fundamental para que se exerça a alteridade. “Como alguém pode se colocar no lugar do outro ou em contato profundo de ausculta e entendimento com o outro, se não existir um processo profundo de autoconhecimento e de pausa de certos tipos de julgamento?”, indagou.

Pesquisador e ex-coordenador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial da ENSP, Paulo Amarante lembrou que a Reforma Psiquiátrica não é a Lei da Reforma Psiquiátrica e não pode ser meramente reduzida a um processo de mudança de um modelo manicomial para um não manicomial. “Passamos a usar o conceito de Reforma Psiquiátrica como uma estratégia em desdobramento ao que foi o conceito de Reforma Sanitária, adotado pelo Movimento Sanitário no Brasil”, destacou.

Amarante defendeu a transformação na relação entre sociedade e loucura e a construção de um novo lugar social para a loucura, voltado para o conceito de diversidade. O pesquisador chamou a atenção para os diversos aspectos que podem envolver o conceito de doença mental, citando, como exemplo, a depressão. “No mundo contemporâneo, a depressão pode ser entendida a partir de um conjunto de ideias, que dizem respeito às exigências contemporâneas e, cada vez mais, pressionam a vida cotidiana. Ou pode ser compreendida como um mero problema da recaptação da serotonina no nível da sinapse. Reduzir a depressão à questão da recaptação é complicado”, alertou.

O professor da Universidade de Coimbra, João Arriscado Nunes, trouxe para o debate um novo conceito de medicalização, que se estende aquele centrado na ideia de patologização – ainda muito presente nas discussões atuais. Segundo ele, há uma insegurança nas sociedades ocidentais, que implica a necessidade de domínio sobre a saúde, a doença, a terapia e a cura. “Nessas sociedades, essas questões são constituídas de um domínio autônomo, que busca, depois, excluir ou relativizar aquilo que é influência de outros tipos de dinâmicas sociais”, afirmou.

Foto: Reprodução do Informe Ensp

Pensamento abissal e exclusões radicais: desastres e a questão indígena

Entender o processo de pensamentos abissais dos desastres ambientais e os conflitos e existências dos povos indígenas foram os temas abordados pelos convidados da atividade, na parte da tarde. A mesa teve a presença do antropólogo da Universidade de Coimbra, Bruno Sena, e do pesquisador do Núcleo Ecologias, Epistemologias e Promoção Emancipatória da Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública (Neepes/ENSP) Diogo Rocha.

Abrindo a mesa, o antropólogo Bruno Sena contou sobre o que permeou seu estudo a respeito do maior desastre de trabalho do mundo, ocorrido no ano de 1984, na cidade de Bhopal, na Índia. As ansiedades e angústias presenciadas pelo pesquisador tornaram-se foco do trabalho do antropólogo. Segundo ele, mostrar como aquelas pessoas sobreviviam depois da tragédia era um ponto primordial.

Outro ponto abordado por Bruno é a narrativa dos fatos apurados nos trabalhos de antropólogos. A preocupação com os diferentes futuros dos envolvidos nos casos deve ser olhada com cautela, segundo ele. “Devemos tomar cuidado com as narrativas heróicas, porque as perspectivas de futuro são extremamente distintas”, alertou o pesquisador sobre a importância da humanização desses trabalhos e, também, de sua disseminação dele.

Tragédias como essas, segundo o antropólogo, só acontecem porque vivemos num mundo colonial e racista. “Os trabalhadores eram compostos de hindus de baixa casta, mulçumanos, e isso não interessava para uma boa fiscalização; as pessoas não sabiam o que fabricavam lá”, definiu Bruno sobre a hierarquização da vida, da zona de espaço, da memória, e da hegemonia do processo, ligada à incessante acumulação capitalista.

O pesquisador do Neepes Diogo Rocha defendeu a importância da mudança do olhar para aqueles que sofreram com o processo colonizador, por exemplo, no Brasil, os indígenas. Diogo apresentou como o colonialismo deixou consequências gravíssimas e invisibilidade aos índios brasileiros, principalmente nos serviços de saúde.

Os estereótipos criados em torno dos indígenas foram abordados pelo pesquisador. Ele explica que o fato de os índios estarem incluídos na sociedade e utilizarem a tecnologia faz com que as pessoas não os tratem como indígenas, negando, assim seus direitos. Essa discussão e preconceito, segundo Diogo, permeia, até hoje, empregando, assim, a exclusão radical. “O tempo todo, na história do Brasil, vai ser reatualizado esse discurso com os povos que viviam antes do processo de colonização”.

Para Diogo, é importante conhecer o processo histórico para entender o relacionamento indígena com a sociedade. Por exemplo, as questões da saúde indígena. O processo de implementação no SUS, para o pesquisador, foi tardio. E, para evitar novos preconceitos, o pesquisador ressalta a importância de atenção na propagação desses processos. “Precisamos nos tornar atentos para que não sejamos agentes de proliferação desse processo”, concluiu.

Imagem: CEENSP mesa da tarde: Professores Marcelo Firpo (esquerda), Bruno Sena Martins (centro) e Diogo Rocha (direita)

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