Alerta: O ódio de classe da política bolsonarista aprofunda o racismo e o patriarcado

Assim como as teorias eugenistas do século XIX, projeto atual impõe extermínio dos espaços de resistência do povo

Por Andreia Roseno, no BdF Minas Gerais

Analisar a conjuntura fascista, expressa no fortalecimento do bolsonarismo em nossa sociedade, requer considerar que nossos passos vêm de longe e reconhecer a experiência daqueles e daquelas que sobreviveram à travessia atlântica. Mas essa história é marcada pela atuação sutil e perversa do racismo, que nos impede de acessar a potência desses nossos passos e legado.

Existe um projeto teocrático sendo construído com o intuito de encobrir de vez esse legado. Sistematicamente, assim como foram sendo implementadas as teorias eugenistas no século XIX a fim de clarificar a sociedade brasileira, tal projeto também impõem apagamento, silenciamento, expulsão, criminalização e extermínio dos espaços e territórios de resistência do povo. É absurdo como o feminicídio só aumentou no último período e como este governo esvazia a política de enfrentamento à violência de gênero com a retirada de recursos.

Outro absurdo são as investidas arbitrárias da bancada da bíblia e da bala nos territórios quilombolas e indígenas. Sem contar o pacote anti-crime, apresentado pelo ministro da justiça em 2019 no Congresso Nacional, que institucionaliza o extermínio da juventude negra. Bolsonaro é a representação desse projeto político que esbraveja ódio de classe à negritude, aos povos originários, as mulheres e aos LGBTs.

O golpe de 2016, de caráter racista e patriarcal contra a sociedade brasileira e à presidenta Dilma Rosself, se aprofunda e atualiza através de ataques constantes de uma elite conservadora. Essa elite, diariamente, via a figura bestializada e hostil do atual presidente da República, auxiliado pelo ministro da educação e da ministra da família, despeja factóides que mascaram o impacto da reforma trabalhista, a recessão econômica, o envolvimento do clã com as milícias, o ataque à democracia e à soberania nacional.

Os sinais cotidianos que a carestia, símbolo de uma política neoliberal, está de volta é perceptível no aumento constante da população em situação de rua nos grandes centros e nas cidades médias. Além da inviabilidade de sobrevivência no campo com desmantelamento das políticas públicas agrárias e o encurralamento dos pequenos agricultores em detrimento do agronegócio que mata, seja via bala ou com os agrotóxicos liberados criminalmente por esse governo. 

A política de congelamento de investimentos e contingenciamento de recursos da área da saúde, educação, cultural e social impacta e exonera ainda mais o sobreviver da população negra. A desvalorização do salário mínimo é outro fator preponderante, já que o mesmo é sentindo por aquelas e aqueles que estão em empregos precarizados e subalternizados.  E a quem são endossados historicamente tais postos de trabalho? Mais uma vez a elite branca, racista, machista e lgbtfóbica deste país pesam sobre os ombros da negritude a manutenção do privilégio de classe.

Neste 8 de março – data internacional de luta das mulheres – todo o nosso esforço segue sendo em nos manter firmes diante do aprofundamento do racismo e do patriarcado no que tange a exploração de classe. Talvez, esse seja o momento que os nossos jovens, assim como cita a última estrofe do poema Vozes Mulheres da Conceição Evaristo, têm podido expressar o tamanho do rombo objetivo e subjetivo que o racismo causa na nossa existência. É possível a partir deste processo construir um projeto popular que não nos folclorize mas que contemple toda a diversidade da qual nos constituíamos e, que o racismo nos impossibilita de viver essa totalidade.   

Andreia Roseno (Makota Kinanjenu) é assistente social, cantora do Afoxé Bandarerê e militante da Rede de Mulheres Negras de Minas Gerais.

Imagem: Mídia Ninja

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